UOL Notícias Internacional
 

28/12/2004

Manipulação do medo oculta problemas dos EUA

The New York Times
Thomas Friedman

Em Nova York
NYT Image

Colunista Thomas Friedman
O programa de rádio favorito de minha mulher tem o sugestivo nome "Wait Wait Don't Tell Me" (Espere, Espere... Não me Diga). O programa sempre traz três jornalistas convidados para responderem a perguntas sobre as notícias da semana. Alguns dos tópicos parecem totalmente inacreditáveis, enquanto outros até que são honestos.

Bem, essa é a minha ultima coluna de 2004. Então vamos brincar um pouco de "Espere, Espere...Não me Diga". Vou dar a vocês 10 notícias das últimas semanas para que vocês me digam o que todas elas têm em comum.

1 -. O relato feito por Colin Powell ao presidente Bush, há poucas semanas, de que não temos um número suficiente de soldados e que não temos o controle sobre o território.

2 - A notícia de que o programa do Pentágono para construir um escudo antimísseis, que custará US$ 10 bilhões (quase R$ 30 bilhões) por ano, e que tem uma versão básica baseada na terra funcionando já nesse final de ano, entrou em dificuldades há duas semanas, quando o primeiro teste em quase dois anos fracassou porque o míssil interceptor não decolou.

3 - A notícia de que o orçamento de Bush e dos republicanos para 2005 prevê um corte de US$ 100 milhões (quase R$ 300 milhões) no investimento federal na National Science Foundation (Fundação Nacional de Ciências).

4 - A notícia de que, nesse momento em que os jovens americanos competem cabeça a cabeça, e mais que nunca, com jovens chineses, indianos e europeus orientais, a equipe de Bush está cortando apoio ao programa de bolsas Pell. Esse programa ajuda jovens americanos pobres e da classe trabalhadora a alcançar a educação superior. (Essa mudança irá economizar aos cofres públicos US$ 300 milhões, com cerca de 1 milhão e 300 mil estudantes recebendo bolsas menores).

5 - A notícia, divulgada esse mês, de que as crianças nos países asiáticos mais uma vez superaram os americanos da quarta série e da oitava série fundamental, no último relatório "Tendências no Estudo da Matemática e da Ciência" (Os americanos da oitava série até que melhoraram os resultados de quatro anos atrás, mas os americanos da quarta série permaneceram estagnados).

Uma semana antes, o Programa para Auxílio ao Estudante Internacional mostrou americanos de 15 anos tendo resultados abaixo da média, se comparados aos estudantes de outros países, quando lhes foram solicitados a aplicação dos conhecimentos matemáticos às tarefas da vida real, como informou a agência Associated Press.

6 - A notícia, divulgada esse mês, de que o governo Bush reduziu a contribuição americana aos programas globais de ajuda alimentar, que procuram fornecer comida aos famintos do mundo inteiro. (A equipe de Bush disse que o corte era necessário para manter o déficit sob controle!).

7 - A notícia de que os gastos militares americanos desse ano chegarão a quase US$ 450 bilhões (mais de R$ 1,2)!

Mas espere, não saiam daí, esperam que tem mais:

8 - A notícia de que Donald Rumsfeld foi confrontado por soldados no Iraque, sobre o fato de que eles não tinham blindagem suficiente nos veículos deles, sendo obrigados a improvisar blindados para se protegerem.

9 - A notícia de que entre as prioridades de Bush para o segundo mandato estão a simplificação da declaração de imposto de renda, para tornar permanentes os grandes cortes nos impostos decretados em seu primeiro mandato. (O custo para o Tesouro, segundo a agência AP, seria de mais de um trilhão de dólares).

E finalmente:

10 - A notícia de que o dólar americano continua de aproximar de recordes negativos em relação ao euro.

Então, qual é o denominador comum entre todas essas notícias? Esperem, esperem... não me digam. Eu é que quero dizer a vocês. O denominador comum é um país com uma lista de prioridades totalmente contraditória e confusa.

Atualmente nós enfrentamos dois desafios nacionais gigantescos.

O primeiro é o desafio de proteger os Estados Unidos do surgimento de novas ameaças terroristas, o que já nos envolveu em três imensas missões militares --no Afeganistão, no Iraque e nessa defesa antimísseis.

O outro desafio é o de fortalecer a competitividade americana diante da expansão da economia global, onde mais e mais bons trabalhos exigem níveis mais altos de educação, com os bons trabalhos cada vez mais migrando para os países que têm poder cerebral, ou melhores cabeças, para exercê-los.

Diante desses dois desafios à nação, nós temos um governo comprometido com o corte radical dos impostos, o que, como já se pode ver, começa a afetar todos os setores, do número de soldados que podemos remanejar para o Iraque ao número de estudantes que podemos adequadamente educar em nossas universidades. E, permanecendo nesse rumo, os dilemas serão cada vez maiores.

Algum lado tem que ceder. Não podemos proteger os Estados Unidos com a fabulosa estratégia que George Bush nos preparou e fortalecer as habilidades necessitadas por nossos estudantes e ao mesmo tempo cortar impostos, assim como se não ligássemos para nada nesse mundo.

Se realmente tivéssemos um debate nacional sério, é sobre isso que estaríamos debatendo, mas infelizmente o 11 de setembro tem sido explorado habilmente, a ponto de sufocar qualquer debate.

O que me fez faz lembrar de outro programa de rádio favorito da minha mulher na rede NPR (National Public Radio). O programa se chama "Whad'ya Know?" (O que você sabe?), e sempre começa da mesma maneira. O locutor grita para a platéia presente no estúdio, "O que vocês sabem?". E o público grita de volta: "Não muita coisa. E você?" Governo Bush inverte as prioridades e compromete o futuro do país Marcelo Godoy

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