UOL Notícias Internacional
 

28/12/2004

Yushchenko vence; Yanukovitch contesta eleição

The New York Times
C.J. Chivers

Em Kiev, Ucrânia
Após a contagem de praticamente todos os votos nesta segunda-feira (27/12), Viktor A. Yushchenko, o líder da oposição, era o virtual presidente eleito da Ucrânia. Mas o seu oponente, o primeiro-ministro Viktor F. Yanukovich, se recusou a aceitar o resultado, e disse que vai contestá-lo na Justiça.

Segundo a Comissão Central de Eleição, que até o final da segunda-feira havia apurado 99,89% das urnas, Yushchenko venceu Yanukovich por 52,06% a 44,14%, com uma liderança de mais de 2,2 milhões de votos.

Kiev estava calma após semanas de manifestações e desobediência civil, e havia sinais de que o evidente resultado da eleição de domingo, a terceira rodada eleitoral para presidente da Ucrânia em dois meses, era reconhecida no exterior.

O secretário de Estado Colin L. Powell disse que a eleição pareceu ser livre e justa. O Ministério das Relações Exteriores da Belarus, um Estado autoritário vizinho à Ucrânia, e que geralmente faz coro com Moscou, disse à agência de notícias Interfax que respeita a decisão do povo ucraniano.

O chefe de política externa da União Européia, Javier Solana, também deu mostras de satisfação, afirmando que os líderes ucranianos, após meses de intrigas e escândalos, "agiram no final com um alto grau de responsabilidade".

Foi importante o fato de líderes de uma proeminente equipe de observadores eleitorais estrangeiros terem declarado que a conduta na eleição de domingo significou um avanço substancial em relação às eleições passadas.

"O povo deste grande país pode se sentir realmente orgulhoso do fato de ter dado um grande passo rumo a eleições livres e democráticas, ao eleger o próximo presidente da Ucrânia", disse Bruce George, coordenador especial dos observadores da Organização de Segurança e Cooperação na Europa.

A avaliação da organização foi crucial para a legitimidade da eleição. Na votação anterior, em 21 de novembro, observadores ocidentais citaram fraudes e abusos do poder estatal generalizados em favor de Yanukovich, que afirmou ter vencido.

O relatório da organização conferiu credibilidade ao movimento oposicionista de Yushchenko e às manifestações de massa dos seus eleitores, proporcionaram uma base para o clamor internacional, e contribuiu para que se apresentasse uma contestação do resultado prévio junto à Corte Suprema, que anulou a votação.

Desta vez, em uma reversão do que aconteceu na eleição de 21 de novembro, é Yanukovich que se recusa a aceitar o resultado. Falando na noite da segunda-feira na sede da sua campanha, ele garantiu que um grande número de ucranianos foi impedido de comparecer às urnas, devido às novas regras eleitorais restritivas ou à intimidação por parte dos apoiadores de Yushchenko. Ele disse que vai entrar com uma contestação formal do resultado junto à Corte Suprema, pedindo o cancelamento do resultado.

"Esse é um fato óbvio: milhões de cidadãos ucranianos não tiveram uma chance de votar", afirmou. "Foram deixados de fora. Foram humilhados. Há mais de 4,8 milhões de pessoas nessa situação".

As alegações de Yanukovich não são confirmadas pelos relatos de observadores e jornalistas internacionais, e embora por um momento Kiev parecesse condenada a um outro impasse eleitoral, a contestação do primeiro-ministro não parece destinada a dar resultados sem uma corroboração independente ou apoio europeu.

Além do mais, embora Yanukovich parecesse seguir a estratégia de Yushchenko ao protestar contra o resultado, desta vez houve diferenças nítidas. As reclamações de Yushchenko no mês passado não só foram acatadas pelos líderes europeus, mas contaram também com grande apoio na Ucrânia. O parlamento também levou a questão a sério.

Já Yanukovich está entrando em uma luta bem mais solitária. Na segunda-feira ele mobilizou poucos correligionários na capital, e o parlamento o ignorou, anunciando planos, por meio de um porta-voz, para preparar a posse de Yushchenko.

George, coordenador da organização européia, falando em geral sobre os críticos da última eleição, também observou que qualquer pessoa que espere modificar o resultado da eleição em breve se deparará com o teste real que consiste em apresentar evidências.

"Se alguém alega que houve conduta errada, essa pessoa precisa nos dizer onde isso ocorreu, como se passou e quem foi o autor do ato criminoso", afirmou. "Se a pessoa não for capaz de fazer tal coisa, que retire a alegação".

Ele disse que é mais fácil fazer alegações do que comprová-las com fatos.

George disse que realmente houve problemas com a eleição de domingo, incluindo erros nas listas de votação e confusão quanto aos procedimentos para os eleitores inválidos que votaram em suas residências. Mas sem a corroboração independente daquele tipo de fraude generalizada visto nas duas últimas eleições e tendo em vista a larga margem da vitória de Yushchenko, as perspectivas de sucesso de uma contestação do resultado parecem remotas.

O presidente que deixa o cargo, Leonid D. Kuchma, que apoiou Yanukovich energicamente nas duas últimas rodadas eleitorais, não apareceu publicamente nem deu declarações na segunda-feira.

Yushchenko, que cantou vitória perante os seus eleitores na Praça da Independência na manhã de segunda-feira, permaneceu também longe dos holofotes durante o resto do dia.

Analistas políticos observaram que enquanto a contestação na Justiça segue o seu curso, Yushchenko, que sofreu envenenamento por dioxina e foi vítima de uma fraude orquestrada contra os seus esforços para conquistar a presidência, deve agora se voltar para a difícil tarefa de governar.

A sua vitória foi clara, mas não foi tão esmagadora quanto sugeriam as pesquisas de opinião. Como o primeiro-ministro recebeu mais de 44% do total de votos, está claro que boa parte do país se opõe ao virtual presidente.

Além do mais, o resultado confirmou uma grande cisão geográfica, já que o sul e o leste do país votaram preponderantemente em Yanukovich.

Yushchenko, enfrentando um eleitorado polarizado, precisa agora selecionar um gabinete e um primeiro-ministro e começar a criar uma nova identidade pós-Kuchma para o país.

"Viktor Yushchenko é o novo presidente da nova Ucrânia", disse Grigory Nemyria, diretor do Centro de Estudos Europeus e Internacionais. "O próprio Yushchenko é importante. Mas o que é mais importante, no longo prazo, é a nova Ucrânia".

Ciunturão de ferrugem

Nemyria afirmou que Yushchenko precisa tentar modernizar a economia em regiões industriais do leste e do sul, uma área que ele descreveu como um "cinturão da ferrugem" reminiscente da Pittsburgh de décadas atrás. Ele observou que essa tarefa será especialmente difícil, porque foi nessas regiões que Yushchenko obteve menos apoio.

Ele disse ainda que a grande quantidade de eleitores que se manifestou apoiando a contestação de Yushchenko ao atual governo, que tem fama generalizada de ser opressor e corrupto, significa que há grandes expectativas de que ele promova mudanças rápidas e claras, como o combate à corrupção e a criação de instituições civis abertas e independentes.

"Pode-se dizer que é uma tarefa hercúlea", disse Nemyria. "Primeiro ele precisa esperar até que seja declarado vencedor oficial, e depois aguardar que a contestação oficial seja examinada pela Corte Suprema. Quando a uma coisa ele parece estar certo: tudo indica que a capital está com ele".

Uns poucos apoiadores de Yanukovich foram às ruas na segunda-feira para agitar as suas características bandeiras azuis e brancas nas proximidades da sede de campanha. Mas eles eram apenas algumas dezenas, e pareciam mais preocupados do que entusiasmados.

Yanukovich disse anteriormente que planejava trazer um grande número de correligionários a Kiev caso perdesse a eleição, mas os seus apoiadores que saíram às ruas na segunda-feira disseram ser moradores locais, e demonstraram poucos sinais de organização ou preparação.

Em frente à sede eleitoral do primeiro-ministro, três jovens tinham apenas uma bandeira para agitar, e dividiam uma única garrafa de cerveja.

"Houve falsificações por parte do grupo de Yushchenko", acusou um deles, Doniyel Yashikov, 18, estudante da academia de polícia do Ministério do Interior. "Eu nunca reconhecerei a sua vitória".

Ao ser questionado como resistiria, Yashikov disse que o seu grupo fará comícios. Mas não se via comício algum; apenas carros que passavam, cujos ocupantes o ignoravam completamente. Várias das antenas dos veículos traziam fitas com a cor laranja da campanha de Yushchenko. Oposicionista confirma favoritismo e se elege presidente da Ucrânia Danilo Fonseca

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