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29/12/2004

Chile estimula inglês para ficar bilíngüe e lucrar

The New York Times
Larry Rohter

Em Santiago, Chile
Em muitas partes da América Latina, a resistência à dominação cultural dos Estados Unidos freqüentemente é sinônimo de uma relutância em aprender a falar inglês. Mas aqui, onde Salvador Allende já foi um farol para a esquerda, o atual governo liderado pelos socialistas deu início a um amplo esforço para tornar seu país bilíngüe.

O Chile já conta com a economia mais aberta, amistosa ao mercado, da América Latina, e o plano de língua é visto como um passo para promoção de tal processo. O governo tem negociado acordos de livre comércio com os Estados Unidos, Canadá, União Européia e Coréia do Sul nos últimos anos, está em negociações com a Nova Zelândia e Cingapura, e no outono foi anfitrião da conferência da Cooperação Econômica Ásia-Pacífico, com o presidente Bush entre os líderes dos 21 países presentes.

"Nós temos alguns dos acordos comerciais mais avançados do mundo, mas isto não é o suficiente", disse Sergio Bitar, o ministro da Educação, em uma entrevista aqui. "Nós sabemos que nossas vidas estão cada vez mais vinculadas a uma presença internacional, e se você não souber falar inglês, você não pode vender e nem aprender."

A fase inicial do programa de 18 meses, conhecido oficialmente como "Inglês Abre Portas", pede que todos os estudantes de primeiro e segundo grau do Chile sejam capazes de passar por um exame de leitura e compreensão oral daqui uma década. Mas a meta mais ambiciosa a longo prazo é tornar todos os 15 milhões de habitantes do Chile fluentes em inglês em uma geração.

"Foram necessários 40 anos para os suecos chegarem a este ponto", disse Bitar, acrescentando que ele vê os países nórdicos e os países do Sudeste Asiático, como a Malásia, como modelos para o Chile. "Nós também precisaremos de décadas, mas estamos no caminho certo."

Em qualquer outro país latino-americano, uma campanha para tornar o inglês obrigatório e universal inevitavelmente geraria protestos sobre a destruição da soberania e da identidade cultural do país.

No Brasil, por exemplo, foi proposta uma legislação proibindo o uso de inglês nos nomes de lojas ou em publicidade e pedindo a criação de novos verbos em língua portuguesa ara designar operações básicas de computador.

Aqui, por outro lado, as poucas críticas existentes ao plano se concentraram no argumento de que as escolas deveriam ensinar as crianças a falarem melhor o espanhol antes de tentarem ensinar inglês. Apenas um pequeno número de grupos se opôs ao programa por motivos ideológicos.

"Nós estamos preocupados com isto porque isto pega uma hegemonia econômica e a traduz em hegemonia cultural", disse Sara Larrain, uma líder do Fórum Social Chileno, uma coalizão que é contra a globalização liderada pelas corporações. "A inserção do Chile deve ser no mundo, e não no império americano. Estes não são os tempos romanos, quando o latim era a língua universal."

Mas o governo chileno tem apresentado a iniciativa de inglês como uma medida democrática, nas palavras de Bitar, "um instrumento de igualdade, para todas as crianças" no Chile. Tal argumento parece ser aceito por parte das famílias da classe trabalhadora, ansiosas para ver seus filhos prosperarem em um mercado de trabalho cada vez mais exigente e competitivo.

"Este tipo de programa não existia quando eu estava na escola, o que significava que apenas as crianças ricas nas escolas particulares estudavam inglês", disse Fabiola Coli, cuja filha agora está aprendendo inglês na escola primária Benjamin Vicuna MacKenna. "Se você não pudesse pagar, e eu não podia, você ficava de fora. Assim é melhor porque todos podem se beneficiar."

Na escola, os alunos do jardim de infância estão aprendendo a contar até 20 tanto em inglês quanto em espanhol, e já conseguem se dirigir a um visitante em inglês: "My name is Araceli. What is yours?" (Meu nome é Araceli. Qual é o seu?) A sala do diretor já tem uma placa em inglês o indicando como tal, e vários itens na sala de aula são rotulados em inglês: "window" (janela), "emergency exit" (saída de emergência) e outras coisas.

Algumas universidades já estão exigindo que todos seus alunos estudem inglês. Outras também estão começando a dar cursos em inglês em algumas áreas, como comércio exterior e administração de hotéis, e têm planos para ampliar o uso do inglês para matemática e cursos de ciência.

"Mais do que uma escolha, é uma necessidade", disse Patricia Cabello, reitora da Universidade das Américas, que tem 10 mil estudantes. "Nossa missão é treinar profissionais para um mundo internacionalizado, e esta é a única forma para este país se desenvolver da forma como deseja."

Apesar do foco principal do programa serem os estudantes mais jovens, o governo também tem buscado atingir os adultos ao encorajar as empresas a oferecerem cursos de inglês para os funcionários. Como parte do programa, incentivos fiscais serão oferecidos às empresas, e Rodrigo Fabrega, o diretor do esforço, fala de "inundar o país de dicionários inglês-espanhol e livros escolares de inglês".

O presidente Ricardo Lagos, ele próprio um ex-ministro da Educação, tem feito sua parte para estabelecer um exemplo. Diferente dos presidentes de alguns países vizinhos, que insistem em falar apenas espanhol ou português, ele faz questão de falar pelo menos um pouco de inglês em público sempre que se encontra com Bush, Tony Blair ou com a imprensa estrangeira.

"Nós falamos sobre a língua inglesa e quão importante é poder promover em nossos ministérios o estudo do inglês", disse Lagos em uma coletiva de imprensa no mês passado, após um encontro com Bush. "Como país, nós queremos ser uma ponte e uma plataforma para avanços no comércio internacional e na região da Ásia-Pacífico."

Autoridades do governo disseram que o maior problema agora é falta de professores qualificados. Mas eles esperam recrutar voluntários de países de língua inglesa para virem aqui, e também estão enviando professores chilenos para locais como Califórnia e Delaware, nos EUA.

"A primeira coisa que temos que fazer é treinar um exército de professores de língua inglesa", disse Fabrega. A qualidade do inglês que eventualmente será falado aqui poderá não rivalizar o de Shakespeare, ele reconheceu, mas ele disse que isto não importa.

"Nós falaremos inglês ao estilo chileno, porque o importante é entender o inglês e ser capaz de usá-lo como instrumento a nosso favor." País quer que toda a população aprenda a língua em uma geração George El Khouri Andolfato

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