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29/12/2004

Romancista e filósofa Susan Sontag morre aos 71

The New York Times
Margali T. Fox

Em Nova York
AFP

De política até a arte, a pensadora elaborou teses ácidas e consistentes
Susan Sontag, romancista renomada internacionalmente, ensaísta e crítica cuja defesa convicta da vanguarda, além dos pronunciamentos políticos igualmente apaixonados, fez dela uma das figuras mais respeitadas --e uma das mais polarizadoras-- da literatura do século 20, morreu nesta terça-feira (28/12) em Nova York. Tinha 71 anos e vivia em Manhattan.

Segundo seu filho, David Rieff, a morte foi causada por complicações de uma leucemia mielóide aguda. Sontag, que morreu no centro de tratamento de câncer Memorial Sloan-Kettering, esteve enferma de forma intermitente por 30 anos. A luta contra a doença inspirou um dos seus livros mais famosos: o ensaio "A Doença como Metáfora" (1978).

Uma figura pública altamente visível desde meados dos anos 60, Sontag foi autora de quatro romances, dezenas de ensaios e um volume de contos, além de ter atuado, ocasionalmente, como cineasta, roteirista e diretora de teatro. Durante quatro décadas o seu trabalho ocupou um lugar de proeminência no cenário contemporâneo, discutido em fóruns diversos, como seminários de pós-graduação, páginas de revistas populares e o filme de Hollywood "Bull Durham".

Entre os livros mais conhecidos de Sontag, todos publicados no original pela editora Farrar, Straus & Giroux, estão os romances "Death Kit" (1967), "O Amante do Vulcão" (1992) e "Na América" (2000); as coletâneas de ensaios "Contra a Interpretação" (1966), "A Vontade Radical" (1969), e "Sob o Signo de Saturno" (1982); os estudos críticos "Sobre Fotografia" (1977) e "Aids e suas Metáforas" (1989); e a coletânea de contos "I, Etcetera" (1978).

O seu livro mais recente, publicado no ano passado, foi "Diante da Dor dos Outros", um longo ensaio sobre as imagens de guerra e desastre. Um dos seus últimos ensaios publicados, "Regarding the Torture of Others", escrito em resposta à tortura de prisioneiros iraquianos por norte-americanos na prisão Abu Ghraib, foi publicado na The New York Times Magazine de 23 de maio de 2004.

A escrita de Sontag marcou uma ruptura radical com a tradicional crítica de pós-guerra. Ela defendeu uma abordagem sensual do estudo da arte, argumentou que a estética é mais importante que o conteúdo e --o mais subversivo-- desfez alegremente nitidez das fronteiras entre cultura erudita e popular.

Culta, inteligente, profundamente cerebral, freqüentemente provocativa, o seu trabalho explorou repetidamente a experiência transcendente do fazer e do olhar a arte contemporânea, com as suas bordas recortadas e temas presentes de alienação e desespero. Ela se preocupou durante toda a sua carreira com a sensação, em todos os sentidos da palavra.

"O que Susan fez foi lidar como intelectual literária e filosófica com os profundos problemas da vida humana em nossos tempos", disse nesta terça-feira, em uma entrevista por telefone, Arthur Danto, professor emérito de filosofia da Universidade Colúmbia e crítico de arte da revista "The Nation".

"Ela jamais foi uma escritora imparcial ou desinteressada. Susan sempre usou a sua própria experiência como forma de dar sentido a questões que tinham sentido para todo mundo".

Ao contrário da maioria dos intelectuais sérios, Sontag era uma celebridade popular, em parte devido à sua aparência notável e bem talhada para a televisão, e em parte também devido às suas declarações públicas sinceras e, às vezes, inflamatórias.

Entre os escritores da sua geração, ela foi sem dúvida a única a ganhar dois importantes prêmios literários (entre eles um National Book Critic's Award, um National Book Award e uma prêmio MacArthur de "genialidade") e a aparecer em filmes de Woody Allen e Andy Warhol; a ser objeto de perfis encantadores nas revistas "Rolling Stone" e "People"; e a posar para um comercial da Absolut Vodka.

Com o passar das décadas, a sua imagem --traços fortes, boca grande, olhar intenso e cabeleira escura coroada nos últimos anos por uma faixa grisalha-- tornou-se um artefato instantaneamente identificável da cultura popular do século 20.

Especialista em literatura e filosofia, Sontag era uma mestra da síntese que se dedicava a questões amplas, difíceis e esquivas: a natureza da arte, da consciência e, acima de tudo, da condição moderna. Onde muitos críticos norte-americanos anteriores a ela garimparam o passado, Sontag se tornou uma evangelista do novo, treinando o seu olhar na cultura que se desenrolava à sua volta, uma postura radical na sua época.

Para Sontag, o termo "cultura" englobava um universo vasto e potencialmente ilimitado. Ela escreveu estudos sérios sobre formas de arte popular, como cinema e ficção científica, que foram desdenhadas por críticos anteriores. Produziu ensaios apaixonados sobre os (na maior parte franceses) escritores e cineastas que admirava, como Jean-Paul Sartre, Roland Barthes e Jean-Luc Godard.

Sontag escreveu romances experimentais sobre sonhos e a natureza da consciência. Publicou meticulosas análises críticas sobre fotografia e dança; doença, política e pornografia, e, as que ficaram mais famosas, sobre a subcultura secreta dos homossexuais. O seu trabalho, com uma ênfase no outro, nas bordas recortadas da realidade e no aqui e agora, ajudaram a fazer do estudo da cultura popular uma tarefa acadêmica respeitável.

O que unificou a produção de Sontag foi um desejo propulsor de definir as forças --estética, moral e política-- que modelam a sensibilidade moderna. E, ao assim proceder, ela esperava entender o que significava ser humano nos últimos anos do século 20.

Para muitos observadores, o trabalho de Sontag foi arrojado e estimulante. Entrevistado pela NYT Magazine em 1992, o eminente escritor mexicano Carlos Fuentes comparou Sontag ao humanista renascentista Erasmo.

"Esta é uma das eras mais mal informadas da história, assim como o início do século 15", disse ele. "Os países são ignorantes quanto às outras nações. E, como Erasmo, exatamente quando se fez necessária, Susan Sontag é uma comunicadora em um mundo esfacelado. Erasmo viajava com 32 volumes, que continham todo o saber que valia a pena conhecer. Susan Sontag carrega tal conhecimento em seu cérebro! Não conheço nenhum outro intelectual dotado de uma mente tão clara, com tal capacidade para ligar, conectar e relacionar".

Polêmica

Chester Higgins Jr./NYT

Sontag era uma das mais populares intelectuais
Outros críticos se mostraram menos impressionados. Alguns rotularam Sontag de pensadora não original, afirmando que ela foi uma popularizadora com talento para construir aforismos e pasteurizar os escritores difíceis para o consumo de massas (Irving Howe a chamou de "uma publicitária capaz de fazer colchas de retalhos brilhantes").

Alguns viam como ambivalente a sua tendência de revisitar as suas posições anteriores e muitas vezes controversas. Alguns achavam pretensiosa a sua abordagem acadêmica das formas artísticas populares (Sontag disse certa vez que era capaz de apreciar Patti Smith porque leu Nietzsche).

Ela tinha uma tendência especial --ou talvez uma atração-- para se meter em encrencas. Podia ser provocativa a ponto de chegar ao inflamatório, como quando defendeu a cineasta nazista Leni Riefenstahl, em um ensaio de 1965 (ela reviu essa posição alguns anos depois); celebrou as sociedades comunistas de Cuba e do Vietnã do Norte (da mesma forma como, provocativamente, denunciou mais tarde o comunismo como uma forma de fascismo); e, logo após os ataques terroristas de 11 de setembro de 2001, escreveu no "The New Yorker": "O que quer que se possa dizer a respeito dos autores do massacre da terça-feira, eles não foram covardes". E em 2000, a publicação do último romance de Sontag, "Na América", gerou acusações de plágio, que ela negou veementemente.

Durante quatro décadas, a resposta do público a Sontag permaneceu irremediavelmente dividida. Ela foi descrita como explosiva, anticlimática, original, intelectual da moda, original, iconoclasta, cativante, vazia, rapsódica, ingênua, sofisticada, abordável, abrasiva, distanciada, buscadora de atenção, sedutora, condescendente, populista, puritana, sibarita, sincera, fingida, asceta, voluptuária, direitista, esquerdista, cortês, formidável, brilhante, profunda, superficial, ardente, indiferente, dogmática, desafiadora, ambivalente, acessível, arrogante, erudita, lúcida, inescrutável, solipsista, intelectual, visceral, equilibrada, pretensiosa, portentosa, enlouquecedora, lírica, abstrata, narrativa, azeda, oportunista, fria, efusiva, carreirista, moderada, dissimulada, relevante, antiquada, fácil, ilógica, polêmica, didática, tenaz, evasiva, celebrante, banal, indefensável, doutrinária, extática, melancólica, humorística, sem humor, cara-de-pau, insincera, perversa e esperta.

Ninguém jamais a chamou de estúpida.

Trajetória

Sontag nasceu em 16 de janeiro de 1933 em Manhattan, filha de Jack Rosenblatt e Mildred Jacobson. O seu nome de batismo foi Susan Rosenblatt. O seu pai foi comerciante de peles na China, e a mãe viajava com o marido por longos períodos, deixando Susan e a irmã mais velha, Judith, sob os cuidados de parentes.

Quando Susan tinha cinco anos, seu pai morreu na China, de tuberculose. Procurando alívio para a asma de Susan, sua mãe fez com que a família se mudasse para Tucson, Arizona, onde passaram vários anos. No Arizona, a mãe de Susan conheceu o capitão Nathan Sontag, um veterano da Segunda Guerra Mundial enviado ao Estado para se recuperar. Os dois se casaram --Susan adotou o sobrenome do padrasto-- e a família se mudou para Los Angeles.

Para Susan, uma aluna tão talentosa que terminou o ensino médio antes de fazer 16 anos, o caráter filisteu da cultura norte-americana era um tormento do qual ela jurou desde cedo que escaparia.

"O meu maior sonho era crescer, ir para Nova York, escrever para a 'Partisan Review' e ser lida por 5.000 pessoas", escreveu mais tarde.

Ela realizou o seu desejo --Sontag ingressou no cenário cultural com "Notes on Camp", publicado na "Partisan Review" em 1964--, mas não sem antes conseguir uma graduação e dois mestrados em prestigiadas universidades norte-americanas; estudou em Oxford como bolsista; e se casou, tornando-se mãe e se divorciando oito anos depois, tudo isso até fazer 26 anos.

Após o ensino médio, Sontag passou um semestre na Universidade da Califórnia, em Berkeley, antes de se transferir para a Universidade de Chicago, onde se diplomou em filosofia em 1951. Em Chicago, ela assistiu a uma aula do sociólogo Philip Rieff, um instrutor de 28 anos que escreveria o elogiado estudo "Freud: The Mind of the Moralist" ("Freud: A Mente do Moralista").

Ela diria que ele foi a primeira pessoa com quem conseguiu realmente conversar; eles se casaram dez dias depois. Sontag tinha 17 anos e parecia ainda mais jovem, usando habitualmente calças jeans, e trazendo os longos cabelos negros soltos sobre as costas. Espalhou-se no campus o boato de que Rieff havia se casado com uma índia de 14 anos.

Mudando-se com o marido para Boston, Sontag obteve dois títulos de mestrado em Harvard, o primeiro em inglês, em 1954, e o outro em filosofia, no ano seguinte. Ela começou a trabalhar em um doutorado em filosofia, mas não completou a tese.

Em 1952, ela e Rieff tiveram um filho. O casal se divorciou em 1958. Seu filho, David Rieff, mora em Manhattan e foi durante vários anos editor das obras da mãe na Farrar, Straus & Giroux (jornalista, ele é o autor de "Slaughterhouse: Bosnia and the Failure of the West" ["Matadouro: A Bósnia e o Fracasso do Ocidente"], publicado pela editora Simon & Schuster em 1995). Susan Sontag deixou ainda a irmã mais nova, Judith Cohen, que mora em Maui, no Havaí. Mundo perde uma das maiores referências culturais de sua história Danilo Fonseca

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