UOL Notícias Internacional
 

30/12/2004

Ajuda externa não reduz desespero na Indonésia

The New York Times
Eric Lichtblau, em Banda Aceh, e

Wayne Arnold, de Medan
Centenas de corpos estavam estirados entre os escombros em Banda Aceh nesta quarta-feira (29/12), sinais da destruição provocada pelo terremoto e tsunami que atingiram o local no domingo e da ameaça de morte por doenças para aqueles presos nas ruínas.

À medida que o número estimado de mortes provocadas pelo desastre ultrapassava 45 mil na Indonésia, equipes de resgate começaram a chegar aqui na província mais atingida, Aceh, para auxiliar a revirar os escombros e trazer alimentos, água e abrigo temporário para os desabrigados.

Mas alguns moradores desta cidade de 300 mil pessoas já dizem estar frustrados com o ritmo lento do esforço de ajuda humanitária e da busca por sobreviventes e mortos, que apenas começou a ganhar ritmo neste canto noroeste de Sumatra três dias depois da ocorrência da catástrofe.

As dificuldades provocadas pelo que algumas pessoas estão chamando de "domingo negro" estão claramente pesando. Milhares de pessoas continuam desaparecidas, incluindo grande parte do pessoal do jornal local, que foi publicado pela última vez no sábado, um dia antes do terremoto.

Saques ocasionais têm ocorrido em meio à falta de energia e fachadas de lojas remendadas com tábuas. A fuga de várias centenas de prisioneiros de um presídio local durante a tsunami apenas aumentou a preocupação com a criminalidade e a insegurança.

Os alimentos estão sendo cuidadosamente racionados, com algumas lojas locais cobrando o dobro ou triplo do preço por ovos, arroz e outros itens básicos. Água potável é escassa, assim como combustível para cozinhar os alimentos ou até mesmo ferver a água para o arroz. A situação ruim fez com que alguns moradores se virassem sozinhos, com a ajuda de amigos e parentes de fora da região.

Enquanto diminuem as esperanças de que mais sobreviventes sejam encontrados nos escombros, as equipes de resgate agora estão correndo para identificar os corpos e impedir a disseminação de doenças. Crescem as preocupações de que a escassez de água limpa para beber e medicamentos poderá provocar uma nova onda de mortes.

"Nós tememos a possibilidade de um surto de doenças gastroentéricas por causa do mau saneamento e do ambiente", disse Mariani Reksoprodjo, uma porta-voz do Ministério da Saúde.

Por mais duramente que esta cidade tenha sido atingida, a atenção está se deslocando para a ampla região plana ao sul, ao redor da cidade de Meulaboh, a cerca de 160 quilômetros a sudeste daqui, onde as autoridades estimam que até 40 mil dos 174.700 habitantes possam ter morrido.

O número oficial de mortos, divulgado pelo governo na quarta-feira, era de 45.268, com todas ocorrendo em Aceh, com exceção de 239. Outras 1.240 pessoas estão desaparecidas.

Mas tais números não incluem muitos daqueles que, provavelmente, morreram em Aceh Barat, o distrito onde Meulaboh fica localizada. A tsunami parece ter tomado todas as estradas que levam até aquela cidade de 53 mil habitantes, a deixando acessível apenas pelo ar.

Na quarta-feira, após percorrer a área ao redor de Meulaboh em um helicóptero que incluía uma equipe de televisão da agência de notícias "Associated Press" (AP), o comandante militar em Aceh, o general de divisão Endang Suwarya, disse para a agência de notícias que três quartos da costa oeste foram destruídos.

As autoridades esperam encontrar pelo menos 10 mil mortos na área, o que elevaria o número de mortos no país para mais de 45 mil, informou a AP.

Imagens transmitidas pela televisão local mostraram um vasto mar de destroços entremeado por apenas alguns poucos prédios remanescentes. A AP disse que vilas inteiras foram destruídas, cobertas por lama e água do mar.

Quando o helicóptero pousou em Meulaboh, as pessoas desceram do ponto elevado onde buscaram refúgio. Para algumas era o primeiro contato que tinham com o mundo externo em dias. Algumas choravam e outras gritavam de alegria, informou a AP.

"A água do mar recuou e, 50 minutos depois disto, uma enorme onda veio contra nós e destruiu tudo", a AP citou um morador como tendo dito, sem dar seu nome.

Em outros pontos ao longo da costa, a maioria das casas simples de madeira foi derrubada, e as que ainda estavam em pé tiveram seus telhados de zinco arrancados, disse a agência de notícias. Uma mesquita solitária e a copa das árvores foi tudo o que restou em uma cidade.

Os únicos sinais de vida eram um punhado de pessoas desesperadas revirando a praia em busca de alimento. "Nós rezamos e rezamos para que alguém nos encontrasse", disse Sukardi Kasdi, um aldeão em Calang, onde as pessoas reviravam escombros em meio a carros virados, relatou a AP.

Os esforços para enviar equipes de resgate para Aceh foram complicados pela dificuldade de acesso à região. Mas também não ajudou o fato de a província ter estado isolada para todos exceto membros das forças armadas, uma política que o governo reverteu lentamente após o desastre. Aceh é lar de um violento movimento separatista e desde meados do ano passado tem estado sob controle das forças armadas, com 40 mil soldados na província.

O governo da Indonésia enviou cerca de 300 mil funcionários de saúde, incluindo paramédicos e cirurgiões, para Aceh com sacos de corpos, redes para mosquitos e hospitais de campo.

A ajuda internacional também está finalmente começando a chegar. Três aviões de carga C-130 da Força Aérea Australiana pousaram na quarta-feira no aeroporto de Medan, na costa leste, se preparando para levar a ajuda até Aceh.

Os Emirados Árabes Unidos também enviaram 32 equipes de resgate com cães para ajudar na busca por corpos.

Tantas missões de ajuda estão chegando que os aviões têm que circundar o aeroporto de Banda Aceh antes de pousar. Mas para aqueles que lutam para sobreviver aqui, o sentimento é de que já era hora.

Grito de socorro

Antes de se verem no epicentro do desastre desta semana, os mares que margeiam esta cidade antes pitoresca eram um local pacífico para caminhar ou pescar. Tudo isto mudou em um instante na manhã de domingo.

Yusmadi Sulaiman, um entregador de 60 anos, foi despertado com o tremor, assim como muitos de seus vizinhos. Depois ele viu a si mesmo, sua esposa e quatro filhos fugindo de uma onda enorme que se ergueu acima dos coqueiros na sua rua, próxima da costa.

Ele se agarrou em uma árvore com seu filho de 4 anos em seus braços, mas o menino foi arrastado pela força das águas.

Sua esposa, perto dali, agarrou a filha deles de 8 meses e chamou pelo marido. "Me segure, Bang, me segure", ela gritou, usando o termo indonésio reverente para o cônjuge, ele lembrou.

Ele não viu mais sua esposa e filhos; ele revira as ruas à procura deles, na esperança de que ainda estejam vivos. "Talvez haja uma chance", disse ele enquanto se sentava à luz de velas na casa de um amigo, sem eletricidade.

Enquanto ele contava sua história, Ucyusi Rusadi Pura, um empresário de Jacarta cuja empresa o contrata, colocou sua mão no ombro de Sulaiman. "Não é culpa sua, não é culpa sua", disse ele. "Também somos sua família, e lhe apoiaremos durante tudo isto."

Por toda esta região, conhecida mesmo neste país muçulmano por seguir rigidamente o Islã, histórias semelhantes de perda representavam um teste de fé e deixaram os sobreviventes se perguntando o motivo.

"Na sociedade muçulmana, Deus apenas nos dá sua bondade e nós temos que tirar lições de um desastre como este", disse Zulkarnain, um vendedor de 33 anos, que escapou das águas com sua família. "Isto pode ser Deus dizendo que está irado com a conduta humana neste mundo." Apesar do esforço internacional, clima geral é de dor e desamparo George El Khouri Andolfato

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