UOL Notícias Internacional
 

30/12/2004

EUA devem usar ajuda à Ásia para limpar imagem

The New York Times
David E. Sanger

Em Crawford, Texas
No momento em que a Ásia passa pelo seu próprio 11 de setembro --uma calamidade natural, e não provocada por seres humanos, mas pelo menos 25 vezes mais letal-- a resposta do presidente Bush nas próximas semanas poderá determinar o seu sucesso em reparar as relações abaladas por três anos de foco norte-americano incansável no terrorismo.

Após o maremoto arrasar incontáveis cidades e matar dezenas de milhares de pessoas, Bush demorou 72 horas para aparecer em público para declarar que os Estados Unidos contam com o esboço de um plano para lidar com "a perda e o pesar para o mundo que estão além da nossa compreensão".

Os seus assessores disseram que demorou todo esse tempo para que entendessem a magnitude da tragédia e planejassem uma iniciativa de recuperação que se estenderá de vilas remotas da Indonésia até a costa oriental da África.

Mas a iniciativa de auxílio que tem início agora dá a Bush uma oportunidade de lutar, com ações, em vez de apenas palavras, contra a idéia estabelecida nos seus primeiros quatro anos de mandato segundo a qual ele só se importa com os Estados Unidos.

"Trata-se de uma tragédia, mas é também uma oportunidade para demonstrar que o terrorismo não é o fator que determina tudo o mais", diz Morton Abramowitz, que foi embaixador norte-americano na Tailândia há cerca de 25 anos e que se tornou um dos fundadores do Grupo Internacional de Crise, que ajuda a preparar os governos para responderem a choques inesperados. "É uma chance para ele demonstrar que tipo de país somos nós".

Bush e seus assessores há muito argumentam que a má reputação do governo norte-americano em todo o mundo é injusta, e que ele aumentou o orçamento para ajuda externa e respondeu à crise da Aids de uma forma que o seu predecessor, o infinitamente mais popular Bill Clinton, nunca fez.

Andrew Natsios, diretor da Agência Internacional de Desenvolvimento dos Estados Unidos (Usaids na sigla em inglês), disse nesta quarta-feira (29/12) que, somente no ano passado, as verbas norte-americanas destinadas à ajuda às vítimas de catástrofes foram de US$ 2,4 bilhões, o que equivale a 40% de toda a contribuição mundial com este objetivo.

"Somos de longe o maior doador", afirma. "Ninguém chega sequer perto de nós".

Esse argumento está por trás da resposta irritada do presidente, quando lhe perguntaram, na sua fazenda, sobre os comentários de Jan Egeland, o coordenador das Nações Unidas para ajuda humanitária, que na segunda-feira acusou as nações ocidentais de serem "mesquinhas" no que diz respeito à ajuda externa antes do tsunami.

"Sinto que a pessoa que fez essa declaração está muito enganada e é mal informada", retrucou Bush, chamando atenção para a magnitude do acréscimo da ajuda norte-americana.

Mas, justas ou não, as percepções consolidadas no primeiro mandato costumam se tornar o pano de fundo político do segundo. E alguns membros do governo admitem que a resposta dos Estados Unidos a essa tragédia é crucial em locais como a Indonésia, a nação muçulmana mais populosa, a primeira a ser atingida pelo terremoto e pelo tsunami e onde o fundamentalismo muçulmano, que nunca foi uma força política durante a Guerra Fria, procura ganhar espaço.

Tracy Dahlby, especialista em questões asiáticas, observa em um novo livro sobre a Indonésia, "Allah's Torch" ("A Tocha de Alá"), que pelo menos uma pesquisa revela que cerca de 75% dos indonésios nutriam sentimentos positivos com relação aos Estados Unidos em 2000 --um período que se seguiu à intervenção norte-americana na crise financeira asiática e à renúncia forçada do presidente Suharto. Segundo ele, esse número despencou para cerca de 15%.

"Qualquer passo em falso dos Estados Unidos no ambiente politicamente volátil do país será explorado pelos extremistas muçulmanos para promoverem a sua causa", adverte um alto funcionário do governo norte-americano que está freqüentemente no sudeste asiático.

"Tal reação é inevitável, ainda se os Estados Unidos fizerem um bom trabalho", observa um outro especialista.

Relatos iniciais indicam que mesmo em uma semana de feriados a burocracia norte-americana começou a agir com rapidez. Membros de organizações não governamentais atestam que embaixadas e a Usaid foram rápidas em facilitar o fluxo de ajuda, embora tenham sido limitadas pelo fato de algumas das áreas mais atingidas incluírem Aceh, na Indonésia, onde está em andamento uma insurgência contra o governo, e partes do Sri Lanka controladas pelos Tigres de Libertação do Eelam Tâmil.

Mas, até certo ponto, a guerra das percepções dependerá de as nações asiáticas acreditarem ou não que Bush se concentrará na tragédia do maremoto com a mesma energia que investiu para garantir que outros países se comprometessem com a sua agenda contra-terrorista pós 11 de setembro.

Apenas algumas semanas após aqueles ataques, Bush viajou para Xangai para a conferência anual de líderes asiáticos e disse que a agenda da política externa mundial deveria ser reformulada, deixando claro que julgaria os aliados com base na maneira como se juntassem à cruzada norte-americana.

Vários responderam.

Entre os primeiros a visitarem o Salão Oval da Casa Branca após os ataques estava Megawati Sukarnoputri, à época a presidente da Indonésia. Ela prometeu aderir à caçada aos membros da Al Qaeda no seu território, e basicamente cumpriu a promessa.

O equivalente daquela visita ocorreu na manhã da última quarta-feira, quando Bush, falando de um trailer estacionado na estrada em frente à sua fazenda, e que tinha sido convertido em um centro de comunicações protegidas, prometeu apoio aos líderes do Sri Lanka, da Tailândia, da Indonésia e da Índia.

"Eu asseguro a esses líderes que isto é apenas o início da nossa ajuda", disse ele, referindo-se aos US$ 35 milhões prometidos até o momento pelo governo. Ele reconheceu que serão necessários meses até que se avaliem os estragos e a ajuda chegue às áreas remotas.

Comparando cifras

Enquanto avaliam as necessidades dos países atingidos, os assessores de Bush sabem que a profundidade da compaixão norte-americana será comparada a outras variáveis. Mais especificamente com o que outras nações desembolsarão, com as cifras investidas por Washington nos casos de desastres de menor gravidade em território norte-americano, e com a quantia que a Casa Branca gasta neste momento no Iraque invadido.

A Espanha, cuja economia que é apenas uma fração dos Estados Unidos, se comprometeu publicamente a doar US$ 68 milhões para os atingidos pelo cataclismo. A Austrália prometeu doar US$ 27 milhões. Autoridades norte-americanas dizem que tais comparações podem ser enganosas, especialmente porque os Estados Unidos estão fornecendo transporte aéreo e outros serviços essenciais no âmbito de uma recém-criada coalizão de auxílio que inclui Japão, Índia e Austrália.

Além disso há as comparações domésticas. O Congresso aprovou cerca de US$ 13 bilhões em ajuda relacionada aos furacões que atingiram o país no final do verão e início do outono. A maior parte desse dinheiro está indo para a Flórida, onde Bush colocou pessoalmente frascos de água mineral e embalagens de alimentos não perecíveis em porta-malas de automóveis.

É claro que se tratava do cenário doméstico e uma campanha eleitoral estava em andamento, e nem mesmo os críticos de Bush esperam um auxílio dessa magnitude para o desastre muito maior que se abateu sobre o sudeste asiático.

E já há sinais de que os democratas desejam vincular a resposta ao desastre asiático aos gastos no Iraque. "Eu quase bati com a cabeça no teto ao ouvi-los se gabarem dos US$ 35 milhões em ajuda aos atingidos pelo tsunami", conta o senador Patrick Leahy, democrata de Vermont e um crítico persistente da forma como se desenrola a operação de reconstrução no Iraque.

"Nós gastamos US$ 35 milhões diariamente, antes do café da manhã, no Iraque". Socorro a países muçulmanos pode ter fortes repercussões políticas Danilo Fonseca

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