UOL Notícias Internacional
 

31/12/2004

Local mais afetado não recebeu ajuda após 4 dias

The New York Times
Eric Lichtblau

Em Banda Aceh, Indonésia
Os sobreviventes em Banda Aceh, cidade mais próxima do epicentro do terremoto que provocou no último domingo as ondas gigantes que devastaram o sul da Ásia, contavam até esta quinta (30/12) com poucos trabalhadores de ajuda humanitária, médicos, enfermeiros ou policiais disponíveis.

Os moradores remanescentes da cidade, que tinha cerca de 300 mil habitantes, percorreram os campos à procura de ajuda nos acampamentos montados fora da região, duramente castigada pelo tsunami. Muitos estão se virando sozinhos. A frustração está crescendo.

"Nós não recebemos nenhuma ajuda em quatro dias", disse Dasrizal Nyakna, 38 anos, um líder de um grupo de cerca de 35 voluntários que lotaram um caminhão e dirigiram por mais de 24 horas costa acima para ajudar, carregando caixas cheias de roupas e alimentos.

"As pessoas ainda estão sofrendo", disse ele. "Elas ainda estão esperando, e precisamos de mais ajuda, muito mais ajuda." Ele perdeu sua esposa e dois filhos no domingo, quando a tsunami varreu a província de Aceh.

Nesta capital provincial de cerca de 300 mil habitantes e em outros lugares ao longo da costa, lojas e casas e mais casas por quilômetros sem fim estão em escombros, virtualmente transformadas em cidades fantasmas.

Barcos de pesca pintados de forma chamativa, lançados do oceano pela inundação, se encontram virados nas ruas, a centenas de metros da costa. Carrinhos de vendedores, usados para vender melancia e guloseimas indonésias nas ruas, estavam despedaçados como gravetos. Os corpos enrijecidos de homens, mulheres e crianças permaneciam estirados nas calçadas e esquinas, cobertos com capas plásticas improvisadas ou descobertos.

Muitos moradores caminham pelas ruas usando máscaras cirúrgicas ou cobrindo seus narizes com lenços para evitar o forte mau cheiro dos corpos em decomposição e do esgoto a céu aberto, um terreno fértil para proliferação de doenças.

Os muitos tremores e terremotos secundários sentidos nos últimos dias regularmente fazem com que os moradores temerosos saiam correndo para fora das casas que ainda continuam em pé.

Grupos de ajuda internacionais enviaram milhões de dólares em apoio à Indonésia, assim como aviões lotados de alimentos e suprimentos médicos em meio a temores de doenças e fome entre os sobreviventes.

Mas as linhas de comunicação derrubadas, estradas intransitáveis e escassez de gasolina e veículos em funcionamento têm atrasado a distribuição destes suprimentos, com caixas empilhadas no aeroporto local.

Os trabalhadores de ajuda humanitária disseram que estão fazendo tudo o que é possível, mas reconheceram o ritmo lento.

"Nós estamos lidando com a situação de forma lenta e há problemas de administração no esforço", disse Nova Iriansyah, membro da Cruz Vermelha indonésia em Banda Aceh. "A verdade é que nunca antecipamos algo assim."

Acredita-se que dezenas de milhares de pessoas foram mortas em Aceh, na ponta noroeste de Sumatra. Mas as autoridades ainda encontram dificuldade para alcançar algumas das áreas atingidas mais duramente ao sul de Banda Aceh e nas ilhas próximas.

Na cidade de Meubolah, a cerca de cinco horas de carro ao sul daqui em condições normais, estima-se que pelo menos 10 mil pessoas estejam mortas, com alguns relatos elevando o número até 40 mil na cidade.

Em um acampamento improvisado montado fora de Banda Aceh, Zulkifli Zaelaini, 26 anos, tentava encontrar atendimento médico para seu pai, um policial aposentado cuja mão sofreu um corte sério após o desastre.

"Meu pai já está ferido há três dias, e ninguém se importa", disse ele. Perto dali, outros olhavam os cartazes de desaparecidos colados em uma parede, com os corpos de duas vítimas cobertos com tapetes ainda estirados no chão.

Em outro local, um caminhão militar passou a atirou esteiras de palha por cima de uma cerca. Com a proximidade do anoitecer, os voluntários correram para pegar as esteiras e esticá-las para dormir.

Na mesquita de Al Qadar, quando o chamado para a oração foi transmitido do telhado, convocando os fiéis às 4 horas da manhã, a maioria não precisou ir longe. Com suas casas destruídas, muitos das quatro dúzias de fiéis estavam dormindo em tapetes ou esteiras de palha no chão da mesquita, que foi poupada de maiores danos e se tornou um abrigo temporário.

Entre eles estava Bustamam Zainal Abidin, um vendedor de carros de 37 anos em Banda Aceh que perdeu sua esposa e seus quatro filhos, com idades entre 1 e 10 anos, para a fúria das águas. Ele não estava em casa quando a tsunami a atingiu no domingo, mas vizinhos disseram que todos os cinco membros da família foram arrastados pela inundação.

"Eu não tenho nada, zero", disse ele. "Onde ficava minha casa agora é um mar. Nem mesmo pude estar lá para ajudar minha família."

Outros membros da mesquita estão desaparecidos e presumivelmente mortos.

O imã da mesquita, um afável jovem nativo de Aceh chamado Zainuddin Muhammad Ali, pediu aos fiéis para se unirem na fé no momento de tal tragédia.

"Eu digo às pessoas que elas precisam ser pacientes", disse ele após o término das orações matinais. "Se entregar a Deus neste momento também pode ser uma experiência valiosa. Fé é tudo o que temos." Em Banda Aceh, multiplicam-se relatos de quem perdeu famíla toda George El Khouri Andolfato

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