UOL Notícias Internacional
 

02/01/2005

Ásia pode provar ou negar solidariedade humana

The New York Times
Bob Herbert

Em Nova York
NYT Image

Bob Herbert é colunista
Em um momento, as crianças brincavam e riam na praia, gritando e correndo atrás uma da outra, suando sob o sol quente e brilhante. No momento seguinte, elas desapareceram.

O mundo está acostumado a histórias de terror, mas não na escala apavorante dos relatos macabros que nos chegam da vasta zona de morte no Sul da Ásia, atingida pelo tsunami. Einstein insistia que Deus não jogava dados com o mundo, mas esta pode ser uma idéia difícil para os indivíduos aflitos, que viram tudo que construíram na vida ser varrido em um instante sem sentido.

O número de mortos até agora, cerca de 150 mil pessoas, é mais do que o dobro do número de soldados americanos mortos em todos os anos da Guerra do Vietnã. Não apenas famílias inteiras, ou famílias estendidas, mas comunidades inteiras foram consumidas pelas águas que se ergueram sem alerta para destruir dezenas de milhares de pessoas que não estavam fazendo nada a não ser vivendo suas vidas cotidianas.

No dia 28 de dezembro, The New York Times publicou uma foto de página inteira de um necrotério improvisado no sul da Índia. Ela certamente capturava o horror. Parecia para todo o mundo como um playground de areia coberto de crianças mortas.

A imaginação empalidece ao lado da realidade esmagadora da tragédia. Havia, por exemplo, as multidões tomadas pela dor, revirando escombros e lama, olhando para os rostos dos gravemente feridos, perambulando em meio à pilhas de corpos em decomposição, em busca de entes queridos.

O jornal "The Boston Globe" citou um jovem cuja namorada estava entre as mais de 800 pessoas mortas quando um trem que transportava banhistas no Sri Lanka foi atingido por uma muralha de água de 9 metros, que o ergueu dos trilhos e o arremessou em um pântano. "Este é o destino que planejamos?" chorava o jovem. "Minha querida, você era minha única esperança."

Talvez um terço dos mortos era crianças. Muitas foram arrastadas diante dos olhos horrorizados de pais impotentes. "Meus filhos! Meus filhos!" gritava uma mulher no Sri Lanka. "Por que a água não me levou?"

As ondas assassinas, que avançaram com velocidade feroz por uma extensão sem precedente de paisagem global, arremessaram suas vítimas com uma aleatoriedade impossível de compreender. Pessoas nas habitações à beira-mar foram parar em árvores, ou ficaram presas nos cabos de força nos postes, ou incrustadas na lama das encostas. Pessoas morreram em ônibus, carros e caminhões que foram levados pelas ondas como folhas em um vento forte. Banhistas foram arrastados para o mar.

Em tal ambiente, Einstein precisa dar lugar a Shakespeare. O personagem Gloucester disse: "Como as moscas são para meninos que brincam, somos nós para os deuses. Eles nos matam por esporte".

Qualquer tragédia é terrível para os parentes daqueles que pereceram. Mas esta é uma catástrofe de diferente magnitude. "Isto", como notou um observador, "é como enfrentar o apocalipse".

"O que torna particularmente assustador é o fato de comunidades inteiras terem sido aniquiladas", disse o dr. John Clizbe, um psicólogo de Alexandria, no Estado da Virgínia, que até sua aposentadoria, dois anos atrás, servia como vice-presidente de serviços de desastre na Cruz Vermelha Americana. Ele disse: "Nós sabemos há anos que a devastação emocional que sentem e experimentam os sobreviventes é freqüentemente maior do que a devastação física".

O processo de recuperação é mais fácil, disse ele, quando há o apoio da comunidade para sustentar aqueles que necessitam. Mas em algumas das regiões mais devastadas do Sul da Ásia, as regiões que mais necessitam de apoio, tais comunidades desapareceram.

É uma peculiaridade da tecnologia moderna as pessoas em qualquer parte do mundo poderem se recostar e assistir em tempo real, como voyeurs, os apuros de vida ou morte de seus semelhantes. O planeta está ficando cada vez menor e seus moradores mais interdependentes a cada dia. Nós estamos plenamente cientes de que nossos vizinhos planetários no Sul da Ásia estão desesperadamente extraindo forças dos reservatórios mais profundos de fortaleza e resistência que nossa espécie aflita tem a sua disposição.

O que isto significa é que devemos ser uma comunidade solidária. Todos nós. Esta catástrofe pelo menos representará um fio de esperança se sensibilizar as pessoas nos Estados Unidos e em outros países a adotarem uma postura internacional mais sábia, mais genuinamente cooperativa.

William Faulkner, em seu discurso de aceitação do Prêmio Nobel de Literatura, disse: "Creio que o ser humano não apenas vai durar, mas prevalecerá. Ele é imortal, não porque apenas ele entre as criaturas conta com uma voz inesgotável, mas porque ele tem uma alma, um espírito capaz de compaixão, sacrifício e resistência".

É nisto que Faulkner acreditava. Veremos. Tragédia aguça o sentimento de que o planeta é uma aldeia global George El Khouri Andolfato

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