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03/01/2005

Hit do passado, "As Super Gatas" influenciam TV

The New York Times
Dave Itzkoff

Em Nova York
Fazer uma lista compilando as sitcoms americanas mais importantes das últimas duas décadas não deveria ser uma tarefa controversa. Será que "Seinfeld" e "The Cosby Show" merecem um lugar nesse panteão? Claro que sim. "Friends" e "Everybody Loves Raymond" entrariam na lista? Claro, por que não?

Mas e o que vocês acham de "As Super Gatas" (Golden Girls)?

À primeira vista, essa comédia sobre quatro damas assanhadas e de cabelos prateados que moram juntas em Miami (exibida na televisão brasileira por assinatura pelo canal Multishow, em versão dublada, segundas, às 21h45) poderia ser considerada a antítese de um programa antológico.

A série, produzida e exibida nos Estados Unidos pela NBC de 1985 a 1992, e agora lançada em DVD, teve boa repercussão embora nunca tenha sido um estrondoso sucesso de público, sempre ficando apenas entre os 30 programas mais vistos em todas as suas sete temporadas. A série também não chegou a apresentar episódios particularmente marcantes ou bordões memoráveis. Nem era essa a sua intenção.

"Eu sempre preferi escrever sobre pessoas mais velhas", diz Susan Harris, criadora de "As Super Gatas": "Elas têm histórias para contar, ao contrário do que acontece com os mais jovens".

Ao revisar a lista de talentos cultivados por "As Super Gatas", encontramos uma história à parte, com um programa que deixa um legado mais criativo e duradouro do que o seu assunto poderia sugerir --uma série que se revelou como uma autêntica escola de pós-graduação para alguns dos maiores talentos ativos na televisão.

"Eu tinha a sensação de que estava indo para a escola, todos os dias", diz Marc Cherry, criador e produtor-executivo da atual campeã da temporada da rede ABC, a ótima série "Desperate Housewives" (exibida no Brasil pelo canal Sony, quintas às 21h e domingos às 22h). Cherry escreveu episódios para "As Super Gatas" de 1990 a 1992. "Nunca ninguém gostou tanto de acordar e ir para o trabalho como eu naquele programa".

Aos 27 anos, com apenas um crédito anterior como roteirista de televisão no currículo (uma comédia dramática urbana de vida curta chamada "Homeroom"), Cherry e seu parceiro de criação na época, Jamie Wooten, foram convidados pelos produtores da série para escreverem um episódio de "As Super Gatas" como free-lancers.

Embora esse roteiro-protótipo (baseado numa fantasia em que Dorothy tem um sonho onde visita o céu e o inferno) nunca tenha sido produzido, valeu à dupla posições de destaque na equipe, criadora do que Cherry então considerava "o melhor programa de TV de todos os tempos".

Outros alunos famosos que cursaram a escola de "As Super Gatas" foram atraídos pelo estúdio produtor da série. A produtora Witt-Thomas-Harris Productions --chefiada por Paul Junger Witt, Tony Thomas e Harris-- era uma casa poderosa na televisão dos 70 e 80, conhecida tanto por sua marca em sucessos daquele momento (incluindo "Soap" e "Benson") como por apostar em talentos jovens e inexperientes.

"Era ao mesmo tempo um dos grandes prazeres e uma das experiências mais apavorantes que poderia haver no ato de escrever para a televisão", diz Christopher Lloyd, que foi contratado para a equipe de redatores de "As Super Gatas" aos 24 anos, e que viria a ganhar cinco Emmys consecutivos como destaque nas séries cômicas, como produtor executivo de "Frasier".

"Quando eles diziam 'Precisamos de uma nova cena aqui, e você tem até a meia-noite para escrevê-la', isso era assustador e trágico se fracassasse, e arrebatador se funcionasse".

Mitchell Hurwitz, criador e produtor executivo da sitcom da Fox "Arrested Development", era uma espécie de garoto dourado em "As Super Gatas", tendo se incorporado à equipe como assistente de produção quando tinha 23 anos, para depois ir galgando posições até se tornar um produtor, aos 26 anos.

Nessa época o programa já estava em suas temporadas finais, e os roteiristas sentiram que tinham mais liberdade para experimentar coisas novas nos roteiros. Segundo Hurwitz, ele precisava mesmo contar com essa liberdade para escrever o episódio final da série, no qual a Dorothy, vivida por Bea Arthur, se casava com um personagem interpretado por Leslie Nielsen.

"Eu escrevi uma cena em que podíamos ouvir os pensamentos deles enquanto se casavam", relembra Hurwitz. "Ela dizia 'Eu sinto que ele me conhece tão bem que pode ouvir tudo o que estou pensando', e aí cortávamos para Leslie Nielsen dizendo 'Sim, Dorothy, eu posso'. Sempre senti que dei o tom do final da série ao bolar essa cena cômica à moda do besteirol 'Police Squad'!".

Quando "As Super Gatas" saíram do ar, em 1992, Lloyd, Cherry e Hurwitz foram contratados para produzir "The Golden Palace", uma derivação de "Golden Girls" para a CBS, onde Rose, Blanche e Sophia tomavam conta de um hotel. O programa foi cancelado após a sua primeira temporada.

Hurwitz depois trabalhou em produções efêmeras como "The John Larroquette Show" e "Everything's Relative", enquanto Cherry circulou por fracassos como "The Five Mrs. Buchanans" e uma sitcom sobre comissários de bordo, chamada "The Crew".

Ao longo dos anos eles viriam a se dar conta de como foram mal acostumados pelas características de "As Super Gatas" e de seu elenco tão poderoso, e de que simplesmente trabalhar em outra série para uma grande rede não seria o bastante para satisfazê-los: "Você precisa ter uma idéia", diz Cherry, " a idéia tem que ser diferente de alguma forma, e você precisa ter algo a transmitir".

Enquanto aproveita o sucesso de "Desperate Housewives" --outro êxito
consistente que integra a parada dos programas Top 10 e que, por sinal, também trata de quatro mulheres fortemente definidas-- Cherry diz que, agora, poderia aproveitar melhor o ingrediente que ele considera ter sido crucial para o sucesso de "As Super Gatas":

"Descubra qual o segmento da população está sendo sub-retratado, e então produza um programa que não só agrade a esse grupo, mas que também atraia a atenção de outros segmentos".

Essa filosofia, segundo Cherry, influenciou quase todos os aspectos de "Desperate Housewives", até mesmo esse título. "Se eu tivesse batizado o programa de 'Rua das Estéricas' não teríamos a audiência que temos agora", confessa Cherry: "Quando as batizamos de 'Desperate Housewives' (Donas de Casa Desesperadas), várias mulheres disseram `Alguém está escrevendo algo que pode ter a ver com o que eu estou sentindo'".

Se por um lado as conexões entre o adorável clã feito sob medida para "As Super Gatas" e a irreparavelmente desajustada família Bluth da comédia "Arrested Development" podem não ser assim tão aparentes, por outro lado Hurwitz diz que as "Golden Girls" tiveram influência profunda sobre "Desperate Housewives", sucesso de crítica da tevê americana.

"As pessoas dizem que 'Desperate Housewives' é muito soturna, e que as personagens se odeiam, mas se você assistir bem verá a mesma estrutura narrativa que eu aprendi na Witt-Thomas", diz o autor. "Há um toque mais profundo no final. As personagens atingem uma espécie de revelação".

As muitas madrugadas que ele passou reescrevendo roteiros com Witt ou com Harris foram comprovadamente cruciais, especialmente agora que ele produz uma série que não tem platéia nem trilha de áudio com risadas.

"Nunca se sabe com certeza se a piada irá fracassar", diz Hurwitz. "Mas, apesar disso, eu ainda ouço as vozes na minha mente, dizendo: 'Isso não vai puxar nenhuma gargalhada', ou 'Isso não tem força suficiente' ou 'Isso não conta a história'. A história das 'Golden' ainda me conduz ,de certa forma".

Witt, o produtor executivo de "As Super Gatas", diz que não se surpreendeu com a evolução de tantos de seus jovens discípulos. (Além de Cherry, Hurwitz e Lloyd, Tracy Gamble é o co-criador da comédia sitcom da ABC "8 Simple Rules for Dating My Teenage Daughter" (Oito Regras Básicas para Namorar Minha Filha Adolescente, também do Sony no Brasil), Barry Fanaro escreveu o roteiro de cinema para "Men in Black 2", e Mort Nathan recentemente foi contratado pela Fox para criar uma sitcom militar, chamada "Spirit of Freedom" (Espírito de Liberdade).

"Eles eram levados quase ao nível da obsessão para chegarem ao ponto certo do programa", diz Witt. "Há uma expressão na índústria, 'baby writers' (roteiristas-bebês), para jovens que chegam ao ramo muito rapidamente sem experiência prévia, mas isso não se aplicou a eles".

Agora certamente é que essa expressão não serve para a turma: num evento recente, em homenagem ao lançamento do DVD com a primeira temporada de "As Super Gatas", o roteirista Cherry se reencontrou com as estrelas da série, Bea Arthur, Betty White e Rue McClanahan.

"Rue me segurou pelo rosto", lembra Cherry, "e disse `Meu Deus, você já é da meia-idade'". Autores da série agora fazem sucesso com "Desperate Housewives" Marcelo Godoy

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