UOL Notícias Internacional
 

03/01/2005

Mitos correm no debate do tsunami nos blogs

The New York Times
John Schwartz
Em Nova York
Enquanto o horror do maremoto no Sul da Ásia se espalhava e as pessoas se reuniam para discutir online o desastre em sites conhecidos como diários de Internet, ou blogs, aqueles politicamente tendenciosos voltaram naturalmente a discussão para seus assuntos favoritos.

Para alguns na blogosfera, tudo foi simplesmente culpa do governo.

No "Democratic Underground" (www.democraticunderground.com), um blog para discussão aberta e um local de encontro online para pessoas que odeiam o governo Bush, um participante perguntou: "Como sabemos que a atmosfera está contaminada por todos os testes nucleares, lixo espacial, lixo eletrônico, poluentes, etc., é lógico se perguntar: os 'ossos' de nosso planeta, onde ocorreu este terremoto, também não teriam sido afetados?"

A causa do terremoto e da onda assassina resultante, disse o autor, poderia ser a guerra no Iraque. "Você sabe, nós explodimos muitos milhões de toneladas de munição sobre este pobre planeta", disse o autor. "Todo aquele 'choque e espanto' que despejamos na parte asiática deste planeta -poderia ter fraturado algo? Talvez a Terra estivesse apenas reagindo a algo que o homem fez para feri-la. A Terra é orgânica, você sabe, ela pode ser ferida."

O ridículo começou imediatamente. Os insultos online, chamados coloquialmente de "flames" (flamas, fogo), foram longe em outros sites.

"Como seria a vida sem o DU?" perguntou o editor do "Wizbang", um blog politicamente conservador (www.wizbangblog.com), usando as iniciais do "Democratic Underground".

"Tire o chapéu de papel alumínio", escreveu um colaborador do blog.

A interação entre os sites, de direita e esquerda, é típica das brigas no ciberespaço entre rivais de diferentes pontas do espectro político. De muitas formas, os blogs brilharam após o ataque da tsunami: bloggers da região começaram a postar fortes descrições da devastação, às vezes por mensagens de texto enviadas de seus celulares enquanto perambulavam pela área atingida à procura de amigos e parentes. E os blogs rapidamente criaram links para as caridades, para que as pessoas pudessem ajudar online. Mas a tendência da blogosfera para teorias malucas e brigas políticas não pôde ser contida por muito tempo.

"É muito do que eles se alimentam, muito do que eles são", disse James Surowiecki, autor de "The Wisdom of Crowds" (a sabedoria das multidões).

Os blogs saíram da obscuridade para a ubiqüidade em um piscar. Os bloggers foram escolhidos como "Pessoa do Ano" pela "ABC News", e o dicionário Merriam-Webster declarou "blog" a palavra do ano. Segundo um estudo divulgado no domingo pela Projeto Pew para Internet e Vida Americana, mais de oito milhões de americanos iniciaram blogs, e 27% dos usuários de Internet pesquisados disseram que lêem blogs -um salto de 58% desde fevereiro passado- e 12% dos usuários de Internet postaram comentários em blogs. Ainda assim, 62% dos americanos disseram não saber ao certo o que significa o termo "blog".

Mas postagens bizarras em blogs não são exclusividade de plebeus. Norodom Sihanouk, o ex-rei do Camboja, postou uma mensagem em francês em seu site, www.norodomsihanouk.info, dizendo que um astrólogo o alertou de que um "cataclisma ultracatastrófico" atingiria a região, mas que o Camboja não seria afetado se os rituais devidos fossem observados. O rei Sihanouk disse que milhares de dólares foram gastos nas cerimônias que protegeram seu país do desastre, e que ele doaria US$ 15 mil para a ajuda humanitária.

Surowiecki destacou que não há nada de novo na propagação de rumores desinformados ou outras formas de excentricidades. "Sempre existiram excêntricos", disse ele. "Rumores sempre foram fundamentais na forma como as pessoas falam, ou pensam, sobre política e assuntos complicados." Mas em vez de um bar na esquina ou no sofá, a localização atual da discussão é uma mídia online com público potencial de milhões.

Mas há outra diferença, mais importante, disseram Surowiecki e outros. O discurso na Internet pode se autocorrigir, com um retorno quase instantâneo dos leitores.

O que se perdeu na briga em torno do que foi postado no "Democratic Underground" foi o fato de os comentários posteriores terem promovido uma discussão sóbria sobre o que realmente causa terremotos. A primeira resposta ao que foi postado perguntava: "Terremotos têm ocorrido desde o início dos tempos (...) Como você os explicaria?"

Outros comentários explicavam os movimentos das placas tectônicas e forneciam links para sites que explicavam terremotos e tsunamis da Pesquisa Geológica dos Estados Unidos e outras fontes competentes.

"Sem querer ridicularizar, já que estou certo que não é uma idéia equivocada nutrida por apenas uma pessoa (...) mas a realidade se trata simplesmente de placas tectônicas", escreveu um participante. "Todo o Oceano Pacífico está lentamente mas certamente se fechando sobre si mesmo. O que aconteceu é que o piso do Oceano Índico deslizou sobre parte do Oceano Pacífico, liberando enorme tensão na crosta terrestre."

"É isto. Nenhum ferimento místico ao espírito de Gaia ou qualquer outra coisa."

A discussão online pode se desenvolver na direção da verdade, disse Clay Shirky, um professor adjunto do programa de telecomunicações interativas da Universidade de Nova York e um blogger. Um resultado é um processo que pode ser mais confiável do que muitas novas mídias, onde correções freqüentemente são tardias e pequenas, se é que ocorrem.

O dr. Shirky disse que a chave para a discussão racional e moderada é ir além das "flames" e do efeito "câmara de eco", pessoas com mentalidade semelhante que simplesmente reforçam as opiniões de outros, e deixar os mecanismos de autocorreção realizarem seu trabalho de forma civilizada. "Você espera que o efeito câmara de eco e o efeito checagem de fatos se equilibrarão, formando um melhor conjunto de narrativas e com mais nuances, assim como um conjunto de fatos mais rigorosamente checado", disse ele. Mas em um mundo altamente contencioso, "o risco ainda é enorme de que haverá uma divisão de narrativas concorrentes, onde até mesmo o que constitui um fato é diferente em campos diferentes".

Para Xeni Jardin, uma editora da BoingBoing.net, a qualidade de "autocura" do debate é um dos resultados mais importantes da mídia eletrônica. "Quando informação que é provavelmente inverídica aparece na Internet ou em grupos de discussão, as pessoas querem estar certas -elas querem saber a verdade", disse ela.

Em seu próprio blog, ela disse: "Às vezes as pessoas realmente passam muito tempo pesquisando informações sobre um item que postamos" e o corrigem por meio dos comentários. Na discussão da tsunami no "Democratic Underground", alguns participantes continuaram postando teorias mirabolantes sobre o que causou o terremoto com base em pseudociência e conspiração, e no "Wizbang", a vituperação continuou desenfreada, atingindo até mesmo a muitas vítimas do desastre. Ferramenta estimula circulação de especulações sobre fenômeno George El Khouri Andolfato

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