UOL Notícias Internacional
 

04/01/2005

Ajuda começa a chegar 8 dias depois do tsunami

The New York Times
Jane Perlez

Em Banda Aceh, Indonésia
"Um, dois, três, levanta", sinalizou o comandante Bill Griggs da Força Aérea Australiana para os jovens médicos indonésios nesta segunda-feira (3/1), enquanto erguiam uma maca que carregava Siti Hawa, 60 anos, que fraturou o fêmur.

Grisalha e frágil, a sra. Hawa foi uma das 41 vítimas do tsunami resgatadas da costa destruída de Aceh por helicópteros do porta-aviões americano Abraham Lincoln, no terceiro dia de operações médicas centradas no aeroporto daqui.

O esforço internacional de ajuda na Indonésia finalmente entrou em ação aqui, oito dias depois de o tsunami ter atingido esta região e pouco antes de uma grande conferência de doadores em Jacarta, a capital da Indonésia. O secretário de Estado, Colin L. Powell, o secretário-geral da ONU, Kofi Annan, e outros líderes devem participar do encontro de dois dias, patrocinado pela Associação das Nações do Sudeste Asiático.

Em um apelo feito no último fim de semana por assistência internacional, o presidente da Indonésia, Susilo Bambang Yudhoyono, disse considerar bem-vinda a ajuda para os sobreviventes e para a reconstrução como uma demonstração de "unidade global". Em alguns aspectos nesta segunda-feira, ele pareceu ter atingido sua meta.

Apesar de os americanos terem fornecido grande parte dos equipamentos no aeroporto, eles não dominaram os procedimentos, que pareciam ter sido coreografados --mas provavelmente eram improvisados-- em um mosaico de boa vontade internacional.

Aviões de transporte de Cingapura descansavam na pista do aeroporto entre os vôos, após descarregarem suprimentos do Programa Mundial de Alimentos da ONU. Helicópteros Chinook de carga pesada, vindos de Cingapura, também voavam ao longo da costa.

O aeroporto daqui, virtualmente ocioso há dois dias, enfrentou um turbilhão de atividade desde o início da manhã até o anoitecer da segunda-feira, com os feridos sendo transportados dos helicópteros americanos na pista para uma tenda de triagem para exames, e posteriormente para um caminhão para serem levados para um dos dois hospitais superlotados nesta cidade castigada.

A operação envolveu pilotos americanos e médicos, um coordenador australiano, uma equipe de médicos da China e soldados indonésios trabalhando lado a lado. Às vezes a linguagem internacional --e polegares para cima-- bastavam como palavras enquanto dois indonésios, um americano e um australiano seguravam os quatro cantos de uma maca com um menino ferido e a retiravam cuidadosamente de um dos helicópteros.

Em 30 investidas realizadas na segunda-feira, ao longo da costa a mais de meia dúzia de cidades, mais de 27 mil quilos de água, suprimentos médicos e alimentos foram entregues. Mais de uma dúzia de médicos e paramédicos foram levados aos locais e pacientes que sofriam de ferimentos de oito dias infeccionados foram transportados em segurança, disseram oficiais militares americanos.

"Nós estamos vendo muitas pernas quebradas, muitas lacerações, muita pneumonia devido a toda a água salgada --cerca de três quartos dos pacientes têm pneumonia, entre outras coisas", disse a tenente Lisa Peterson, uma médica do porta-aviões.

Enquanto ela falava, um grupo de médicos chineses, em uma tenda próxima com uma bandeira com a insígnia da Equipe Internacional de Busca de Resgate do Destacamento Médico da China, se ajoelhava sobre um idoso, cuja maca foi colocada no chão, enquanto examinava seu tronco magro coberto de lacerações.

Ele foi retirado de sua choupana em Calang, uma das cidades atingidas mais duramente, apenas uma hora antes pelo oficial Michael Ousley, um técnico médico de emergência de um dos helicópteros Seahawk.

"Eu acho que ele não tinha nada para comer por sete dias", disse Ousley, enquanto partia às pressas para percorrer novamente a costa.

Vítimas fatais

Naturalmente, nem tudo transcorreu facilmente no esforço conjunto.

Uma equipe de 40 especialistas em emergência da Agência de Cooperação Internacional da Espanha, que chegou no início da manhã pronta para começar a trabalhar em duas horas, ainda estava sem um componente essencial na noite de segunda-feira.

"Há uma escassez de oxigênio puro que precisamos para ressuscitações", disse o dr. Pablo Yuste, o líder da equipe, enquanto tentava se organizar no aeroporto.

Todavia, ele estava confiante de que o hospital de campo espanhol começaria a operar na terça-feira no terreno do principal hospital de Banda Aceh, que foi inundado pelo tsunami e ficou tomado por lama preta fétida. O prédio do hospital ainda está sujo demais para uso e um substituto temporário será estabelecido em tendas, disse ele. Mas ele não sabia se, apesar da necessidade urgente, os organizadores da operação médica tinham conhecimento do esforço espanhol.

"Amanhã nós enviaremos alguns pacientes para vocês", prometeu o comandante Griggs ao dr. Yuste.

O comandante estava confiante de que mais vítimas seriam trazidas de aldeias distantes pelos helicópteros. Mas entre os americanos havia certa dúvida sobre a eficácia de trazer pacientes feridos para o hospitais lotados daqui.

"Os dois hospitais da cidade não suportam isto", disse o tenente Dave Edgarton.

No hospital Sakinah, para onde a sra. Siti foi enviada, uma equipe de médicos australianos e médicos indonésios, enviados de Jacarta, substituiu a equipe local, que fugiu após o desastre.

As pessoas que chegaram na segunda-feira, vindas de áreas isoladas, apresentavam ferimentos particularmente feios, disseram os médicos. Como se passaram oito dias desde que se feriram, os ferimentos ficaram gravemente infeccionados.

Amputações estão se tornando cada vez mais necessárias, e muitas vítimas estão doentes por septicemia. Mesmo muitos cidadãos urbanos que ainda não receberam atendimento médico estão enfrentado cada vez mais dificuldades.

"Nós recebemos uma mulher hoje com um ferimento de 2,5 centímetros em sua coxa, mas estava tão horrivelmente infeccionado que tivemos que cortar da coxa até o tornozelo", disse o dr. David Scott, um anestesista da Austrália. Em outro caso, um jovem tinha uma infecção em seu pé que se espalhou até acima do joelho.

"Ele precisava de uma amputação acima do joelho, mas ele sangrou demais e morreu", disse o dr. Scott. À medida que o tempo passa, a probabilidade de salvar pacientes doentes ainda presos em áreas remotas está diminuindo, disse outro médico australiano, Alan Garner. Mesmo os que chegaram na segunda-feira terão dificuldades para sobreviver, disse ele.

"Um sujeito de 20 anos, trazido nesta segunda, disse que era o único sobrevivente de sua aldeia", disse ele. "Ele foi arrastado para o mar, caminhou por dois dias e foi recolhido por um helicóptero americano. Mas eu suspeito que ele vá morrer, e ele será o último de sua aldeia." Muitos feridos estão com pneumonia; as amputações são freqüentes George El Khouri Andolfato

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