UOL Notícias Internacional
 

04/01/2005

Médicos jovens precisam aprender a calar a boca

The New York Times
Dr. Kent Sepkowitz

Especial para o NYTimes
Uma questão silenciosa, mas que está sempre presente na vida de qualquer medico, na verdade é uma preocupação que nada tem a ver com a modéstia e que nada tem a ver com a medicina --será que os médicos são pessoas chatas?

Sóbrios e sérios eles são, sem dúvidas. Respeitáveis e bem educados, pelo menos é o que se espera deles. Às vezes meio embirrados, talvez. Mas monótonos?

Enquanto profissionais, creio que tendemos a ser um tanto secos, e até recentemente eu não sabia bem o porquê. Até que, no mês passado, minha mulher e eu esbarramos na rua com uma pessoa que ela conhecia. O que minha esposa desconhecia é que essa pessoa é minha paciente e que eu a trato contra uma infecção crônica. Depois que eu e a pessoa paciente falamos sobre um momento de pânico mútuo que vivemos, nós três papeamos amigavelmente e depois seguimos nossos caminhos.

Mas depois naquela noite minha mulher ficou me perguntando porque eu era tão silencioso e, lá veio a expressão, monótono. E eu de repente me dei conta do problema --os médicos vivem inundados de segredos, de centenas deles, de milhares deles.

Cada dia de trabalho traz uma nova fornada de problemas: ora é um paciente reconhecendo que usa drogas, ou revelando uma indiscrição sexual ou uma família escondida; também pode ser um sonho antigo, uma velha dor no peito ou uma infecção por HIV que é secreta.

Ao longo dos anos, isso vai se acumulando, as fornadas de segredos se expandindo e as articulações vão se tornando mais rígidas. E o segredo --ou as conseqüências de nosso depósito de segredos alheios, que está sempre em expansão-- continua, claro, secreto. E essa situação não chega a ser devidamente examinada, nem no início, nem no meio, nem no final de uma carreira.

O aspecto mais difícil no exercício da vida de um medico não é ter que subitamente testemunhar a dor ou a morte de alguém; não é ter que se ajustar a várias horas de trabalho árduo; não é a quantidade de fatos que devem ser aprendidos e sintetizados.

Tudo isso certamente é intenso, são esforços que transformam nossas vidas, mas que têm a ver com as outras experiências.

Não, o maior impacto sofrido na estrada para se tornar um medico de verdade é a noção surpreendente de que você pode perguntar tudo, que os pacientes lhe responderão. Os jovens médicos, quando encontram seus pacientes pela primeira vez, nem sabem ainda direito como reagir. Afinal de contas, a maioria das pessoas foi criada para agir cautelosamente em suas interações pessoais --aprendem a ser discretos em suas perguntas e equilibradas em sua maneira de buscar as informações mais pessoais.

E, de repente, passa a valer de tudo. Como médicos, devemos cumprir uma bateria de perguntas sobre a grande noitada no final de semana passado, sobre como apareceu aquela erupção na pele, sobre o motivo de seu nariz andar tão entupido por tantos meses. E com certeza, sem medo de errar, a maioria dos pacientes irá responder com pouco embaraço ou sem embaraço algum.

Mas junto com esse poder inebriante vem uma interdição igualmente poderosa: Cale a sua matraca. Você deve perguntar tudo o que quiser, mas deve se manter silencioso a esse respeito.

A confiança que uma pessoa deposita em você, na medicina e na habilidade social em assegurar que alguém passe com segurança pela doença, é uma confiança que requer um rápido aprendizado sobre como manter segredos.

E esse sóbrio negócio de assegurar confidências é o mais próximo que chegamos de um sacerdócio. Mas esqueça o poder de cura e da imposição das mãos: a importância que dedicamos ao silêncio é que é nossa atividade espiritual mais importante.

Só que o mundo oferece poucas oportunidades (ou estímulos) para que mantenhamos nossos lábios selados ao longo das décadas. Na verdade, nós celebramos o desabotoar de segredos --estão aí as estrelas de cinema e colunistas de fofocas, Barbara Walters e vizinhos fuxiqueiros.

O quanto essa pessoas conseguirão sugar de alguém?

Outras profissões que lidam com segredos tipicamente mantém o silêncio por um período determinado: advogados e espiões, contadores e políticos, mafiosos ou generais de quatro estrelas. Quando o poder de alavancagem está em jogo existe a exigência de sigilo, mas quando a situação se acomoda recomeça a fofoca generalizada.

Mas para nós, médicos, o silêncio é para sempre. E a conseqüência dessa vida com lábios selados se torna bem evidente em qualquer lugar onde os jovens médicos se encontram. A exploração de brechas no código de silêncio se dá com a troca de inconfidências entre a própria classe, com rápidas histórias sobre os pacientes. Acessos de risos quase maníacos são ouvidos toda vez que se conta novamente a última história tipo "Uma vez vi uma mulher na emergência que..."

O fator cômico, essa necessidade de uivar juntos, de tanto rir, certamente provêm de algo que não necessariamente tem a ver com a qualidade da história descrita. Eu sei disso porque, hmm, bem, eu mesmo fui um transgressor algumas vezes, e tentei contar uma história que não tinha ver com o aspecto médico. Só que, em vez de receber as festeiras gargalhadas de aprovação, fui recebido de um jeito meio confuso, olhado meio de banda.

Então é melhor aprender a ficar quieto sobre tudo, nós que somos os confiáveis conselheiros nesse persistente palácio de intrigas. Mas conduzir o negócio dessa forma é um tanto confuso. O que seria transgressor, e o que não é? Será que eu posso falar isso ou assado?

Para resumir a história, fica claro que a abordagem mais fácil e mais segura --embora seja a mais silenciosa e mais monótona-- é mesmo calar a boca sobre quase tudo.

Admito que isso torna algumas noites bem chatas, talvez. Mas pelo menos dessa forma todos os podres e dissabores das pessoas permanecem bem trancados e fora de alcance. Segredos íntimos dos pacientes não podem virar fofoca e piada Marcelo Godoy

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