UOL Notícias Internacional
 

04/01/2005

Países árabes doam pouco a vítimas do tsunami

The New York Times
Neil MacFarquhar

No Cairo, Egito
O jornal "Al Qabas", do Kuait, gerou nesta segunda-feira (3/1) uma polêmica que se espalha pelo país e pela região do Golfo Pérsico ao sugerir que o Kuait merece a sua fama de ser pão-duro e indiferente para com as pessoas que lá vão trabalhar como serviçais. Isso se deve à quantia relativamente pequena que doou às vítimas do tsunami em um momento em que o tesouro do Estado prospera com as receitas advindas da venda de petróleo.

Observando que a maior parte das babás, motoristas, trabalhadores braçais e outros serviçais que mantêm a maioria das residências do emirado funcionando é proveniente do sudeste asiático --o número de trabalhadores estrangeiros é bem maior do que o tamanho da população nativa--, alguns kuaitianos concordam que o país e os seus vizinhos do Golfo Pérsico precisam fazer bem mais.

Mas a campanha para acabar com as instituições de caridade acusadas de financiarem o terrorismo deixou muita gente confusa quanto ao canal que devem procurar se quiserem doar dinheiro. E algumas lideranças extremistas e comentaristas religiosos acirraram essa incerteza aos sugerirem que a destruição do tsunami foi causada pela ira de Deus.

Determinar a quantidade de doações feita pela região tem demonstrado ser uma tarefa difícil, já que ninguém parece estar coletando tal informação.

Muitas doações são canalizadas pelas sociedades do Crescente Vermelho, apoiadas pelo governo, mas os funcionários graduados da organização não ligaram de volta para a reportagem ou disseram estar muito ocupados para compilar esses dados. Houve atos aleatórios de caridade por toda a região.

Ecoando a polêmica ocorrida nos Estados Unidos quanto à magnitude da ajuda prestada, um editorial de primeira página do "Al Qabas" de domingo disse que os árabes do Golfo Pérsico têm a obrigação de fazer contribuições financeiras maiores ao povo do sudeste asiático devido aos vínculos antigos entre as duas regiões.

"Temos que dar mais a eles; somos ricos", disse em uma entrevista por telefone Waleed al-Nusif, editor-chefe do Al Qabas. "O petróleo dobrou de preço, portanto não temos desculpas".

Após a publicação do editorial, o gabinete kuaitiano anunciou no domingo uma doação de US$ 10 milhões. A primeira cifra anunciada foi de US$ 1 milhão que foi posteriormente aumentada para US$ 2 milhões.

Neste ano o Kuait espera um superávit orçamentário de cerca de US$ 10 bilhões, e Nusif observou que o governo acabou de distribuir cerca de US$ 700 milhões para o próprio povo kuaitiano, a fatia pública do rendimento antecipado.

Ele diz que o Kuait deveria doar no mínimo US$ 100 milhões, até porque muitos dos 1,29 milhão de estrangeiros de uma população total de 2,25 milhões de pessoas vêm das regiões devastadas.

"Eles construíram o Kuait e criaram os nossos filhos", disse Nusif, chamando atenção para o fato de que antes dos sucessivos aumentos do preço do petróleo, a Índia e outros países abriram as suas portas aos kuaitianos, que à época eram relativamente pobres. O jornal também aconselhou os kuaitianos a perguntarem às empregadas domésticas se elas desejam telefonar para casa a fim de verificar se os maridos ou outros familiares estão mortos ou desaparecidos.

Segundo Nusif, esse não é o tipo de lembrete necessário para uma geração mais velha de kuaitianos. "Os nossos pais eram mais generosos do que nós. Eles sofreram mais", afirma Nusif.

O editorial se tornou o assunto de discussões nas diwaniyas, os salões noturnos onde os homens se reúnem para discutir os assuntos do dia.

"Deveríamos demonstrar mais simpatia, especialmente ao considerarmos que temos um superávit orçamentário e que esses são os nossos vizinhos no sudeste da Ásia", diz Saad al-Ajmi, ex-ministro kuaitiano da Informação. Ele disse acreditar que mais doações privadas estão por vir.

O editorial do "Al Qabas" não citou apenas o Kuait ao defender doações mais substanciais. Ele disse que os países árabes do Golfo Pérsico que se beneficiam das enormes receitas com o petróleo deveriam contribuir mais.

Catar e Arábia Saudita prometeram US$ 10 milhões cada um, enquanto que o xeque Khalifa bin Zayed al-Nahayan, líder dos Emirados Árabes Unidos, anunciou na noite de segunda-feira que a contribuição financeira do país aumentou dez vezes, chegando a US$ 20 milhões.

A maior parte das promessas de ajuda financeira das nações árabes foi feita nas primeiras horas após o terremoto, e, à medida que a magnitude do desastre ficava evidente, mais dinheiro foi prometido, disseram as autoridades locais.

"Depois que a situação ficou clara, o que quer que se faça parece muito pouco, e é por isso que estamos tentando fazer mais com a maior rapidez possível", diz Ibrahim al-Abed, diretor de informações externas do Ministério da Informação dos Emirados Árabes Unidos. Até o momento o país enviou três aviões de carga para o Sri Lanka e três para a Indonésia, e deve enviar mais três na próxima quarta-feira, de um total de 140 toneladas em ajuda humanitária.

O Banco de Desenvolvimento Islâmico em Jidda, Arábia Saudita, disse que contribuirá com US$ 10 milhões em auxílio emergencial a Indonésia, Maldivas, Somália, Tailândia, Índia e Sri Lanka. O embaixador tailandês no Kuait disse que há pessoas visitando a embaixada para doar dinheiro, e que um empresário telefonou dizendo querer doar US$ 14 mil.

A Embaixada do Kuait em Jacarta anunciou que está fretando um navio para fornecer auxílio à devastada província de Aceh, na Indonésia.

Em Riad, a capital saudita, Saleh al-Tuwaijri, vice-presidente da Sociedade Saudita Crescente Vermelho, disse que a doação governamental de US$ 10 milhões será enviada diretamente às organizações congêneres nos países afetados.

Ele disse que as doações per capita dos países do Golfo foram em geral altas, mas que o cidadão comum enfrentou obstáculos para fazer doações porque muitas organizações de caridade foram fechadas devido à pressão norte-americana motivada pela suspeita de que ajudassem a financiar o terrorismo. Nenhum mecanismo substitutivo foi implementado, o que torna difícil a arrecadação de doações públicas, explica Tuwaijri.

No Kuait, algumas instituições de caridade foram criticadas ao anunciarem que estão coletando dinheiro para as vítimas muçulmanas. A Indonésia, o país mais atingido, é a nação muçulmana mais populosa do mundo.

"Não sei por que ajudar somente muçulmanos, se os desastres não diferenciam entre religiões nem escolhem as suas vítimas", criticou Muhammad Mousaed al-Saleh, colunista do "Al Qabas". O jornal diário publicou uma determinação religiosa especial, afirmando que as doações a não muçulmanos são permitidas.

"Castigo divino"

A idéia de que os seres humanos provocaram o terremoto devido ao comportamento condenável foi objeto dos sermões da última sexta-feira na Arábia Saudita e das opiniões de outros comentaristas religiosos.

"O terremoto da Ásia, que atingiu as praias de prostituição, turismo, imoralidade e nudismo, é um sinal de que Deus está advertindo a humanidade para que esta não persista na injustiça e na imoralidade ou a terra em que pisamos será destruída", disse um comentarista de um site muçulmano.

Walid Tabtabai, membro do parlamento kuaitiano, disse que o terremoto foi uma mensagem.

"Acreditamos que o que ocorreu em termos de desastres e aflições é um teste para os crentes e uma punição para os injustos", escreveu ele em uma coluna do jornal "Al Watan". Ele citou relatos de que algumas mesquitas ficaram intactas em meio à grande devastação, afirmando que isso é prova da intervenção divina. Enriquecida pelo petróleo, região deveria contribuir mais, diz jornal Danilo Fonseca

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