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04/01/2005

Produtos dietéticos são inúteis, aponta pesquisa

The New York Times
Gina Kolata

Em Nova York
Devido à preocupação dos norte-americanos com a obesidade, uma grande indústria floresceu, voltada para a venda de dietas e livros de regimes, programas de exercícios e de substituição de refeições, suplementos nutricionais e orientação dietética online, tudo isso na tentativa de ajudar as pessoas a emagrecer.

Mas um novo estudo, publicado nesta terça-feira (4/1), encontrou poucas evidências de que os programas comerciais de emagrecimento sejam eficazes na hora de fazer com que os indivíduos percam efetivamente os seus quilos extras. Os pesquisadores relatam que quase nenhum estudo rigoroso dos programas foi realizado. E autoridades federais afirmam que as companhias freqüentemente não se mostram dispostas a realizar tais estudos, argumentando que estão no ramo de tratamento, e não de pesquisa.

"De maneira geral, a indústria das dietas sempre foi avessa a revelar seus resultados", critica Richard Cleland, diretor assistente da área de práticas de propaganda da Comissão Federal de Comércio.

"Eles sempre apresentaram desculpas diversas", diz Cleland. "Alguns dizem que as pesquisas são muito caras, e há os que afirmem que vender sonhos faz parte do negócio, e que se os consumidores conhecerem a verdade, será mais difícil vender tais sonhos".

O estudo, publicado na edição de terça-feira do periódico "Annals of Internal Medicine", revelou que, com a exceção da Weight Watchers (Vigilantes do Peso), nenhum programa comercial publicou dados confiáveis baseados em testes com indivíduos escolhidos de forma aleatória demonstrando que, alguns meses depois, as pessoas que participaram desses programas pesavam menos do que as que deles não participaram.

Os pesquisadores dizem que até mesmo segundo o estudo da Weight Watchers os resultados foram modestos, com uma perda média de peso de apenas 5% após um período de dieta que variou de três a seis meses. E grande parte d peso perdido acabou sendo recuperada.

As propagandas dos centros de emagrecimento muitas vezes fazem com que o sucesso pareça garantido para todos os que realmente desejem emagrecer. Eles exibem pessoas saudáveis, magras e sorridentes --que, segundo as propagandas, simplesmente comprovam o resultado de se seguir o programa.

Porém, os cientistas querem algo mais. Eles gostariam de ver estudos cuidadosamente controlados, nos quais os participantes desses programas fossem acompanhados por cerca de dois anos e, a seguir, comparados com o índice de sucesso dos não participantes.

"Mas esse tipo de estudo quase nunca é realizado", afirma Thomas Wadden, diretor do programa de desordens de peso e da alimentação da Universidade da Pensilvânia (nordeste dos EUA) e principal autor do novo estudo.

E ele e outros pesquisadores dizem que, se isso não ocorre, não é por falta de pedidos. Há cerca de uma década, Wadden, Cleland e outros se reuniram com as companhias comerciais que vendem produtos para perda de peso na Comissão Federal de Comércio para que fosse discutida a possibilidade de obter dados concretos sobre a eficácia dos programas.

"Tentamos estabelecer uma série de diretrizes voluntárias com base na idéia de que elas seriam divulgadas pelos centros de perda de peso aos consumidores antes do tratamento, a fim de ressaltar as limitações dos programas", conta Cleland. "Ao final do dia só concordamos em discordar a respeito da divulgação dos resultados. Eu estava convencido de que isso poderia ser feito, mas não era algo que a indústria fosse fazer de forma voluntária".

Segundo ele, a Comissão Federal de Comércio não pode obrigar as companhias a realizar tais estudos.

Lynn McAfee, diretor de advocacia médica do Conselho de Discriminação contra Tamanho e Peso, ficou perplexo com a conclusão.

"Não entendo como é possível vender um produto sem nunca antes avaliar a sua eficácia", diz McAfee. "Isso foi uma bofetada na face de pessoas de todos os tamanhos".

Wadden insiste em dizer que pacientes e médicos necessitam de informações. Assim, ele e seu colega, Adam Gilman Tsai, coletaram as informações que puderam sobre preços, métodos e o sucesso de nove programas comerciais de perda de peso, como a Jenny Craig, a eDiets e a Optifast, além de programas de auto-ajuda, como a Overeaters Anonymous (algo como "Comilões Anônimos").

Os investigadores examinaram os dados apresentados nos sites das companhias, ligaram para essas empresas e pesquisaram periódicos médicos em busca de trabalhos publicados sobre o assunto. Na revisão que fizeram, incluíram estudos publicados de 1966 a 2003, tendo descoberto 108 que analisavam os programas comerciais. Desses, somente dez atenderam aos seus critérios. Por exemplo, os estudos precisavam ter a duração de pelo menos 12 semanas, além de ter apurado o resultado da perda de peso após um ano.

Wadden disse que mesmo nesses poucos estudos, poucos foram os que revelaram dados relativos a todos os que participaram dos programas de emagrecimento. A maioria incluiu apenas os que completaram os programas, o que, segundo ele, fez com que o resultado ilustrasse, "sem sombra de dúvida, o melhor dos cenários possíveis".

O preço dos programas comerciais de emagrecimento pode variar de US$ 65 por três meses na iDiets, a US$ 167 pelo mesmo período na Weight Watchers, chegando a até US$ 2.000 por uma dieta hipocalórica feita sob supervisão médica.

"Devido à falta de dados comparativos de boa qualidade, pode fazer sentido o paciente tentar primeiro as alternativas mais baratas", opina Cleland.

Outros especialistas dizem que os pacientes podem optar por dispensar inteiramente esses programas.

"Os médicos podem ter tanto resultado quanto tais programas, simplesmente aconselhando os pacientes sobre dieta e exercício", afirma George Blackburn, especialista em obesidade da Escola de Medicina da Universidade Harvard. "Os médicos estão qualificados para se envolverem, e podem e devem fazê-lo".

O estudo da Weight Watchers, publicado em 2003 no "The Journal of the American Medical Association", envolveu 423 indivíduos que pesavam em média 92 quilos. Metade dos participantes foi escolhida de forma aleatória para participar das reuniões da Weight Watchers e seguir o programa da organização.

A outra metade procurou perder peso por conta própria. Após dois anos, os participantes do programa da Weight Watchers haviam perdido em média 2,8 quilos. O outro grupo não perdeu peso. Os participantes dos dois grupos não apresentaram mudanças no que se refere a pressão arterial, colesterol, glicose ou insulina.

"Não vimos avaliações desse tipo por parte da Jenny Craig ou L.A. Weight Loss", disseram Wadden e Tsai.

Kent Coykendall, vice-presidente de planejamento estratégico e de desenvolvimento empresarial da Jenny Craig, afirma que a companhia começou a realizar estudos sobre o programa com 70 participantes escolhidos de forma aleatória. Mas, segundo ele, a Jenny Craig conta com o testemunho de dezenas de milhares de participantes que garantiram ter perdido peso --"é uma pletora de dados e pessoas reais, do mundo real e sob circunstâncias reais", diz Coykendall.

No seu estudo, Wadden e Tsai também analisaram programas como os da Optifast, da Health Management Resources e da Medifast, que fornecem supervisão médica aos participantes, assim com uma dieta diária hipocalórica --que varia entre 800 a 1.500 calorias. Segundo a companhia, os pacientes que seguem esses programas podem perder entre 15% e 25% do peso em um período que vai de três a seis meses.

Mas os pesquisadores não viram nenhum teste controlado feito com grupos selecionados aleatoriamente para corroborar a eficácia de tais programas. E os estudos que foram realizados independentemente pelas companhias revelaram que, após um ano, as pessoas que fizeram dietas hipocalóricas pesavam o mesmo que aquelas que se submeteram a dietas convencionais. Além disso, os relatórios das próprias companhias revelaram altos índices de abandono dos programas. Quase a metade dos participantes do estudo da Optifast abandonou o regime em um período de 26 semanas.

Mas Larry Stifler, fundador e presidente da Health Management Resources, não concorda com essa versão.

"O critério deles --algo que eles sempre gostam de ver-- é o teste controlado feito com grupos escolhidos de forma aleatória", diz Stifler. Mas, segundo ele, tais estudos não são factíveis quando uma companhia está oferecendo um tratamento.

"Não se pode dizer aos pacientes que eles têm que escolher entre adotar o programa ou participar de um grupo de controle. Não é essa a filosofia do tratamento", reclama.

Stifler diz que a companhia possui dados que demonstram que os pacientes perderam muito peso quando se mantiveram fiéis à dieta. Ele garante que, quando a companhia avaliou esses pacientes três anos depois, alguns ainda se mantinham com o peso reduzido. Segundo Stifler, grande parte desses dados ainda não foi publicada, mas foi apresentada em simpósios profissionais.

Robert Hallock, vice-presidente e conselheiro-geral da Medifast, também diz que a sua companhia possui dados promissores, mas que ainda não foram publicados. De acordo com ele, a empresa acompanha milhares de pacientes. "Todo mundo sabe que dietas hipocalóricas e programas estruturados implicam grandes perdas de peso", afirma.

Quanto aos programas online de emagrecimento, o único estudo encontrado por Wadden e Tsai foi aquele conduzido por Wadden, Leslie, Womble e seus colegas, usando a eDiets, que fornece aos clientes receitas e alimentos de baixo teor calórico.

Eles designaram aleatoriamente participantes para usarem a eDiets ou um manual padrão para perda de peso com base em mudanças comportamentais. Os pesquisadores também forneceram aconselhamento e pesaram todos os participantes. Após um ano, os participantes da eDiets haviam perdido 1,1% do peso, enquanto que os que usaram o manual perderam 4%.

Susan Burke, vice-presidente de serviços nutricionais da eDiets, diz que o programa mudou desde 2001, quando foi realizado o estudo. "Ele agora é mais personalizado e flexível", garante. "Os clientes que utilizam os programas de apoio e fazem a dieta perdem peso".

Programas como o Take Off Pounds Sensibly (algo como "Perca Quilos Sensatamente") e o Overeaters Anonymous são gratuitos ou cobram um preço simbólico, mas não se conhece o grau de sucesso dos participantes. Carol Trinastic, porta-voz do Take Off Pounds Sensibly, diz que a organização armazena dados sobre emagrecimento. O conjunto de dados mais recente, referente a 2003, indica que os participantes perderam, no total, 572.159 quilos, ou 2,6 quilos por pessoa.

Mas, de acordo com Wadden, os emagrecimentos modestos e temporários conseguidos com os programas de dietas não surpreendem, já que ninguém sabe como conseguir uma perda de peso permanente.

"Não culpo os programas de dieta. Eles estão lutando contra a biologia", diz Wadden. "Mesmo na melhor das circunstâncias as pessoas recuperarão um terço do peso perdido após um ano, e dois terços em dois anos. E elas poderão voltar à estaca zero em cinco anos", adverte. "Perder peso não é uma tarefa para os medrosos". Fabricantes não provam eficácia dos programas de emagrecimento Danilo Fonseca

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