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06/01/2005

Fungo fatal põe fim à expansão da soja brasileira

The New York Times
Todd Benson

Em São Paulo
National Soybean Laboratory/NYT

Folha de soja destruída pela ação do mortífero fungo ferrugem asiática
Após quase uma década de preços crescentes e lucros recordes, os produtores de soja no Brasil, o 2º maior produtor e exportador mundial, estão prevendo tempos piores.

Um dos motivos foi a queda em quase 30% do preço da soja desde que atingiu seu mais alto nível em mais de 15 anos, em março, ceifando as margens de lucro. A depreciação deveu-se, em grade parte, à decisão da China de cortar as importações e da colheita recorde nos EUA, maior produtor e exportador do mundo.

No entanto, outro grande fator é a ferrugem asiática, um fungo fatal que vem devastando as plantações do Brasil desde que chegou à América do Sul, há três anos.

A emergência da doença, que pode destruir até 80% da plantação se não for tratada, tem aumentado os custos de produção significativamente, em uma época de lucros estreitos por causa da queda dos preços.

Como resultado, a enorme expansão observada na indústria de soja brasileira, que é responsável por quase metade das exportações de produtos agrícolas do país, está começando a cair. Segundo analistas, é improvável que supere os EUA em produção na próxima safra.

"Os dias de euforia estão terminando", disse Ademir Henning, patologista de plantas que se especializa em soja, no centro da Embrapa de Londrina.

"A margem de erro agora está se estreitando", disse ele. "Se os produtores não investirem o necessário para melhorar o gerenciamento da lavoura e o combate à ferrugem, vão perder uma boa porção de sua produção e acabar quebrando."

A ferrugem da soja é uma doença causada por um fungo e foi primeiramente detectada no Japão, no início do século 20. Propagada pelo vento, prospera em climas quentes e úmidos, tornando as savanas tropicais do centro do Brasil --coração do cinturão de soja do país-- especialmente vulneráveis. Uma vez que o fungo se estabelece, faz as plantas perderem as folhas, inibindo o desenvolvimento da vagem e reduzindo a produção de grãos.

A ferrugem asiática da soja foi detectada pela primeira vez no Brasil em 2001. Desde então, espalhou-se por quase 80% das regiões produtoras de soja do país. Ela também infectou plantações na Argentina, terceira maior produtora e exportadora de soja, assim como Bolívia e Paraguai. Em novembro, foi detectada pela primeira vez nos EUA, possivelmente trazida por furacões. No entanto, de acordo com o Departamento de Agricultura dos EUA, a doença ainda não teve impacto econômico.

Mesmo assim, a agência disse que estava monitorando a situação de perto.

Na última safra, as chuvas dificultaram o controle da ferrugem no Brasil. A produção de soja caiu pela primeira vez em cinco anos, de 52 milhões de toneladas para 49,8 milhões. O fungo destruiu 4,5 milhões de toneladas de soja na estação que terminou em setembro, custando US$ 2 bilhões (cerca de R$ 6 bilhões) aos produtores.

Para controlar a doença, os agricultores precisam aplicar fungicidas duas a três vezes por colheita, e isso pode aumentar os custos de produção em até 15%, de acordo com a Confederação Nacional de Agricultura do Brasil, lobby da agropecuária.

Quando os preços atingiram seu pico em março, os compradores pagavam até US$ 20 (aproximadamente R$ 60) por saca de 60 kg de soja no mercado interno. Nessa época, a maior parte dos produtores podia arcar com os fungicidas e ainda tirar bons lucros. Agora, com os preços em torno de US$ 12,50 (cerca de R$ 37,50) por saca, muitos temem ficar no vermelho.

"Fomos de uma situação de certeza de lucrar muito para uma situação em que ficar no azul não é mais certo", disse Paulo Freitas, que planta soja em 15.000 hectares no Mato Grosso, Estado de maior produção de soja no Brasil.

"Este é o primeiro ano muito ruim que vou ter, desde que comecei a plantar soja", há nove anos, acrescentou Freitas, que perdeu 30% de sua colheita na última safra por causa da ferrugem.

O golpe duplo de preços mais baixos e custos mais altos está freando o crescimento explosivo da área plantada com soja do Brasil, uma expansão que, segundo grupos de ecologia, ameaça a Amazônia. Depois de anos em que a área da soja cresceu até 15% ao ano, esta safra deve expandir em apenas 6%, para 22,8 milhões de hectares, de acordo com a agência de estatísticas do governo.

"Do jeito que vão as coisas, a soja no Brasil não vai crescer tanto quanto as pessoas previam. Vamos ter uma nova situação no Brasil nos próximos anos, que provavelmente será de redução da área plantada com soja", disse André Pessoa, sócio da Agroconsult, firma de consultoria em agrobusiness na Flórida.

Mesmo que a área plantada com soja contraia na próxima safra, ninguém ainda prevê queda importante na produção do país. Quanto mais a ferrugem se espalha, mais os produtores aprendem a conter a doença, apesar de gastarem mais com fertilizantes e fungicidas. Além disso, o gerenciamento das lavouras, em geral, continua melhorando.

Nesta safra, que termina em setembro, por exemplo, o Brasil deve produzir entre 61,4 milhões e 64,5 milhões de toneladas de soja, dependendo da previsão, com um aumento modesto da área plantada.

Os EUA, por outro lado, colherão 85,7 milhões de toneladas de soja, contra 66,8 milhões na última safra, de acordo com o Departamento de Agricultura dos EUA.

"As pessoas estão aprendendo a viver com a doença, mas elas também estão aprendendo que isso significa se habituarem com menores margens de lucro. Com o tempo, é possível que alguns produtores, especialmente os menores, migrem para outros cultivos", disse Fernando Muraro, agrônomo que dirige uma firma de consultoria em Curitiba chamada Agência Rural.

O governo e o setor privado, ansiosos em proteger um dos maiores ganha-pães do país no mercado global, estão tentando impedir a disseminação da ferrugem.

A Embrapa, agência de pesquisa do governo, está investindo pesado em um projeto que procura desenvolver sementes de soja resistentes à ferrugem ou que requeiram menos fungicida até 2007. Até agora, cerca de US$ 6 milhões (aproximadamente R$ 18 milhões) foram destinados ao projeto.

Agrotóxicos

As más notícias para os produtores foram boas para empresas de insumos químicos, como Bayer CropScience e Dow Chemical's AgroSciences, que colherão os benefícios da alta na demanda por fungicidas. Os produtores brasileiros deverão gastar US$ 500 milhões (em torno de R$ 1,5 bilhão) em fungicidas nesta safra para combater a ferrugem da soja.

Na colheita anterior, foram gastos US$ 350 milhões (em torno de R$ 1 bilhão), de acordo com estimativas da indústria. A Bayer CropScience, por exemplo, já vende três tipos de fungicida para a doença e planeja introduzir um quarto, no próximo ano.

"O surgimento da ferrugem da soja criou um novo e promissor mercado", disse Peter Ahlgrimm, diretor de relações institucionais da Bayer CropScience em São Paulo. O produto responde por cerca da metade das exportações agrícolas Deborah Weinberg

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