UOL Notícias Internacional
 

06/01/2005

Tsunami confirma a fama de pão-duro dos EUA

The New York Times
Nicholas D. Kristof

Em Nova York
NYT Image

Nicholas Kristof é colunista
Então os Estados Unidos são "sovinas" no apoio aos países pobres?

Essa acusação vinda de um alto funcionário da ONU, feita de forma velada, provocou indignação por aqui. Afinal de contas, somos o povo mais generoso da terra, não somos?

Não, ah não somos mesmo.

E o tsunami ilustra o problema: quando vítimas sofridas aparecem em nossas telas de TV, nós vasculhamos nossos bolsos e somos capazes de prover uma resposta maciça e reconfortante, conforme estamos fazendo agora na Ásia; no resto do tempo, nós somos "mãos-de-vaca" que não nos manifestamos nas situações em que pessoas morrem em quantidades bem maiores que essa.

O total estimado de cerca de 150 mil vítimas fatais do tsunami está longe do cálculo de número de mortes que ocorrem a cada ano devido à malária. Provavelmente 2 milhões de pessoas morrem a cada ano vítimas da malária, sendo a maioria delas crianças e africanos. Ou talvez sejam 3 milhões --nós nem sabemos ao certo.

Mas o que nos interessa aqui é que somente nesse mês, e a cada mês, mais pessoas morrerão de malária (165 mil ou mais) e de Aids (240 mil) do que morrerão dos tsunamis, e um número quase igual corresponde às vítimas da diarréia (140 mil).

E é por isso que somos sovinas.

Os americanos doam 15 centavos de dólar por dia por pessoa, aos programas oficiais de assistência aos países pobres. O americano médio gasta quatro vezes mais que isso por dia em refrigerantes.

Em 2003, o último ano que conta com estatísticas disponíveis, nós aumentamos essa assistência em vinte por cento, porque o presidente Bush na verdade está se saindo melhor na ajuda aos países pobres que o presidente Clinton.

Mas se levarmos em conta a dimensão de nossa economia, nossa contribuição nos deixa apenas na 22ª posição entre os principais países doadores.

De cada US$ 100 da renda nacional, doamos apenas US$ 0,15 aos países pobres. A Dinamarca doa US$ 0,84; a Holanda, US$ 0,80; a Bélgica, US$ 0,60; a França, US$ 0,41 e a Grécia doa US$ 0,21 (na posição imediatamente acima dos americanos).

Às vezes se alega que os americanos compensam a pequena contribuição oficial com as doações particulares para instituições de caridade. Não é bem assim.

Segundo os cálculos da Organização para o Desenvolvimento e Cooperação Econômica, as doações particulares acrescentam US$ 0,06 por dia ao total americano oficial --o que quer dizer que ainda assim estamos doando apenas US$ 0,21por dia por pessoa.

Um dos motivos para a sovinice americana, eu acredito, é a percepção de que essa ajuda ao estrangeiro se transforma em dinheiro que foge pelo ralo. É verdade, muitas doações já foram desperdiçadas. Mas também há cada vez mais certeza do que efetivamente funciona e tem boa relação custo-benefício --como os programas de saúde e programas educacionais para as meninas.

Uma das pessoas mais inesquecíveis que já conheci é Nhem Yen, uma avó cambojana cuja filha havia morrido de malária, deixando duas crianças pequenas. Então coube a Nhem Yen cuidar de suas quatro crianças e dos dois netos, e ela só podia arcar com apenas uma tela protetora para protegê-los dos mosquitos transmissores da malária. A cada noite, ela tinha que escolher quais das seis crianças dormiriam sob a tela.

Será que dá para acreditar que gastar US$ 5 (cerca de R$ 14) numa tela anti-mosquitos para manter vivas as crianças de Nhem Yen seria dinheiro desperdiçado?

Quando eu contraí a forma mais letal de malária, no Congo, eu me curei com facilidade porque podia pagar pelos melhores remédios. Mas, para economizar dinheiro, as crianças africanas recebem remédios que custam apenas US$ 0,05 a dose, mas que são drogas pouco eficazes. Os remédios que realmente poderiam salvá-los custam cerca de US$ 1, ou menos de R$ 3, a dose.

Será que achamos mesmo que gastar US$ 1 por dose de remédios eficazes para se salvar uma criança seria um dinheiro que escorreria pelo ralo?

Jeffrey Sachs, o economista da universidade de Columbia, calcula que gastar de US$ 2 bilhões a US$ 3 bilhões contra a malária poderia salvar mais de 1 milhão de vidas por ano: "Seria provavelmente a melhor pechincha do planeta".

São maravilhosas as doações americanas, privadas e públicas, às vítimas do tsunami. Francamente, as nações afetadas irão receber todo o dinheiro que podem absorver nesse momento, mas devemos lembrar que Tailândia, Indonésia e Sri Lanka estão longe das piores posições no mundo.

"O dinheiro realmente substancial poderia ser mais bem absorvido e mais útil se fosse aplicado no desenvolvimento de programas voltados para a boa saúde e a educação nos países mais pobres", observa Nancy Birdsall, presidente da organização Centro para o Desenvolvimento Global. "Mas isso não seria tão visível nem tão heróico".

Com a imagem americana tão danificada no mundo inteiro, um dos passos mais eficazes que o presidente Bush poderia tomar para recuperá-la seria liderar uma campanha global para vencer desafios atuais, como a malária.

Isso também daria a Bush mais credibilidade, ao sugerir que a "cultura da vida" de que ele tanto fala não abrange apenas fetos, mas também crianças africanas que choram de fome.

A melhor resposta às acusações de sovinice não vem de uma postura defensiva, vem no ato de ser generoso. E a medida de generosidade não é o que você oferece quando tem as luzes sobre você, mas o que faz quando os refletores se movem em outra direção. Não adianta ser generoso só quando tem muita gente olhando Marcelo Godoy

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