UOL Notícias Internacional
 

07/01/2005

Culpa castiga pais de filhos mortos pelo tsunami

The New York Times
David Rohde

Soranpattu, Sri Lanka
Mary Jansia, 26, pensava que o lugar mais seguro para sua filha de 3 anos eram seus ombros. Thanaranjanim, 28, jura que nunca soltou sua filha de 4 anos. Bamini, 29, disse que deixou sua filha de 6 anos e seu filho de seis meses sozinhos por apenas cinco minutos.

As três mulheres do nordeste do Sri Lanka fazem parte de um grupo que pode se tornar a marca triste do tsunami que devastou as costas do Oceano Índico no dia 26 de dezembro. Os sobreviventes da catástrofe não são primariamente crianças órfãs, como é comum em muitos desastres naturais. Dezenas de milhares de pais perderam seus filhos para as ondas épicas, que levaram os mais fracos, jovens e menores.

Membros da Unicef e do governo do Sri Lanka estimam que, das 30.000 pessoas mortas pelo tsunami no país, ao menos 10.000 eram crianças. Martin Dawes, porta-voz da Unicef, disse acreditar que o número pode ser ainda maior.

Se a mesma proporção tiver se mantido no sul da Ásia, onde 150.000 pessoas morreram, pode-se imaginar que 50.000 crianças morreram no dia 26 de dezembro. Seriam deixados até 100.000 pais de luto, lutando para aceitar sua culpa e pesar, atormentados por sua incapacidade em cumprir o dever dos pais: proteger seus filhos.

"Sinto que devia ter morrido com as crianças", disse Thanaranjani, cuja filha de quatro anos foi arrancada de seus braços pelas ondas. "As pessoas me culpam. Elas dizem que eu deveria ter salvado ao menos uma."

Os pais dizem saber que não há nada que poderiam ter feito para combater as ondas que arrancaram casas de alvenaria de suas fundações, mas ainda são atormentados pela crença de que, de alguma forma, deveriam ter feito uma decisão rápida que salvasse seus filhos.

"Há alguém no mundo mais apegado a elas do que eu?" perguntou Thanaranjani, os olhos vermelhos e angustiados se enchendo de lágrimas novamente. "Eu não as deixaria morrer."

Os pais de luto disseram que encontraram uma fonte inesperada de consolo: uns aos outros. As mães que perderam seus filhos dizem que ter sido confortadas em conversas com mães que sofreram a mesma perda. Uma espécie de comunidade se formou.

O filho de Shanmuganathan, 33, de quatro anos, morreu enquanto visitava sua tia-avó. Ela disse que passou horas falando de seus filhos com as outras mães. Mallikadevi, avó do menino, disse que a irmandade era um bálsamo para os que sofrem.

"A situação é melhor aqui, porque podemos falar uns com os outros", disse ela. "Quando voltarmos, vai ser terrível. Vamos ficar sozinhas."

Athula Sumathipala, psiquiatra que chefia o esforço do governo para ajudar os sobreviventes a lidarem com o trauma psicológico, disse que primeiro se permitirá tempo para a rica tradição cingalesa de velório, envolvendo cerimônias religiosas, grandes famílias e expressões variadas de pesar.

"Não acho que se possa fazer nada para apressar o processo" do luto dos pais, disse ele. "Além de deixá-los expressar sua dor, chorar e falar."

Nancy Lindborg, presidente do grupo de ajuda Mercy Corps, com base em Portland, Oregon, disse que a ajuda para lidar com o trauma psicológico deve fazer parte dos esforços de longo prazo de reconstrução e reabilitação.

Aqui no nordeste do Sri Lanka, alguns pais sentem-se perseguidos por decisões inocentes. Bamini escolheu dar uma saída de cinco minutos. Segundos antes de voltar para casa, uma onda enorme entrou pela porta, afogando sua filha de seis anos e seu filho de seis meses, enquanto ela olhava sem poder fazer nada.

Jansia, uma mulher pequena e frágil, colocou sua filha de três anos nos ombros quando a água chegou a sua cintura. A de quatro anos, ela conseguiu elevar até um telhado baixo. Quando chegou a segunda onda, derrubou o menino de seus ombros para a água. Somente ela e a menina sobreviveram.

Thanaranjani, a última das três mulheres, parece sofrer mais. Ela estava sozinha com suas duas filhas, em sua pequena casa à beira do mar, quando o tsunami chegou. Seu marido, pescador de 34 anos chamado Prabakaran Uthayakumar, estava a alguns quilômetros no interior, trabalhando em uma construção.

Thanaranjani ouviu uma explosão do lado de fora e achou que era a guerra civil latente do Sri Lanka, entre o governo e os rebeldes tâmeis. Sua filha mais velha, Kintusha, 7, disse que era outra coisa.

"Mamãe, a água está chegando", ela disse.

Vendo a onda, Thanaranjani empurrou a menina de 7 anos para fora da porta, pegou sua filha de 4 anos Janitha e gritou: "Corra! Corra!"

A família deu poucos passos. Atrás de sua casa, a onda levou embora Kinthusha, de 7 anos, que estava segurando o sari da mãe. Depois, comprimiu Thanaranjani e Janitha, a menina de 4 anos que levava ao colo, entre a cerca de arame farpado do vizinho e as vigas da casa da família que já tinham caído.

Quando a água subiu mais, Thanaranjani teve dificuldades para respirar, mas segurou sua filha. Eventualmente, desmaiou.

"A mais jovem estava nos meus braços", jura. "Até eu perder a consciência."

Depois que as ondas retrocederam, seu marido encontrou as duas meninas primeiro, sem vida, enterradas sob a areia e destroços de casas e barcos. Depois, encontrou sua mulher semi-enterrada, vomitando água salgada, e levou-a para o hospital.

Uma mulher forte de ombros largos, com um rosto redondo e olhos expressivos, Thanaranjani agora anda irrequieta em um pequeno campo de refugiados.

Outros pais lamentam suas perdas de outras formas. Jansia, que salvou uma de suas filhas, concentra suas energias na criança que ainda vive. Bamini, que deixou seus dois filhos sozinhos em casa, não consegue falar quando lhe pedem que os descreva. Em vez disso, ela chora e faz movimentos com a mão no coração, em círculos frenéticos.

O marido de Thanaranjani, um homem pequeno e magro com uma cabeleira negra e olhos profundos, faz o seu melhor para evitar as emoções e, aparentemente, suas memórias. Ele concentra sua energia em como reconstruir a casa da família. Ele diz que ficar sofrendo a perda causará "efeitos psicológicos".

"Não é hora de desistir", disse Uthayakumar. "Temos que lutar."

Mas, quando perguntado, ele fala com amor das filhas "igualmente travessas". Kintusha adorava jóias e queria se tornar professora, disse ele. Ela planejava usar seu salário para comprar jóias para sua mãe. Janitha tinha acabado de começar a falar. Depois de alguns minutos de conversa, sua vergonha aparece.

"Se eu estivesse em casa naquele momento", disse ele, "poderia ter salvado as crianças". Estima-se que ao menos um terço das 150 mil vítimas eram crianças Deborah Weinberg

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