UOL Notícias Internacional
 

07/01/2005

Democratas contestam a vitória de Bush em Ohio

The New York Times
James Dao e

Sheryl Gay Stolberg

Em Washington
O Congresso ratificou oficialmente nesta quinta-feira (6/1) a vitória eleitoral do presidente Bush, mas não antes de os democratas apresentarem uma contestação formal dos votos eleitorais de Ohio, forçando um debate extraordinário de duas horas, que abriu o 109º Congresso em um tom acentuado de animosidade partidária.

Esta foi apenas a segunda contestação de uma disputa presidencial desde 1877. Mesmo a amarga disputa de 2000 entre Bush e Al Gore não produziu uma contestação formal dos resultados da Flórida, local de um impasse de 36 dias. Apesar de os membros da Câmara terem feito objeção na época, nenhum senador se uniu a eles, como é exigido pela lei federal.

Mas nesta quinta-feira, uma única senadora --Barbara Boxer, democrata da Califórnia, que na cerimônia de posse de terça-feira iniciou seu terceiro mandato-- se juntou à deputada Stephanie Tubbs-Jones, democrata de Ohio, na contestação dos 20 votos eleitorais de Ohio para Bush, citando irregularidades eleitorais no Estado.

A ação transformou aquela que seria uma educada cerimônia constitucional em um drama político e histórico. Boxer disse que agiu "para apontar a luz da verdade para um sistema falho que deve ser consertado imediatamente".

Em vez de realizarem uma cortês sessão conjunta para certificar a eleição, os legisladores foram forçados a se retirarem para suas câmaras separadas para duas horas de debate e votação da contestação. Os democratas, quase todos reconhecendo que Bush foi o legítimo vencedor, disseram que a ação deu o devido destaque à questão dos direitos de votação. Os republicanos a chamaram de uma perda de tempo.

"Isto é uma farsa", disse o senador Rick Santorum, republicano da Pensilvânia e membro da liderança republicana, que foi forçado a convocar uma votação formal no Senado para obter as posições dos legisladores. Sobre os democratas, ele disse: "Eles ainda não superaram a eleição de 2000, muito menos a eleição de 2004".

O republicano Tom DeLay, republicano do Texas, o líder da maioria na Câmara, obteve uma salva de aplausos no plenário da Câmara quando condenou a ação dos democratas como "o grito de lobo quadrienal", enquanto outros republicanos da Câmara ridicularizavam as histórias de fraude eleitoral em Ohio como "inspiradas em Hollywood".

A contestação destacou as divisões entre os democratas, com os líderes do partido e muitos de suas fileiras se distanciando do esforço, enquanto legisladores negros e liberais a apoiavam entusiasticamente.

O candidato democrata, o senador John Kerry de Massachusetts, não apoiou a objeção e nem estava presente para testemunhá-la. Ele está no Oriente Médio, visitando as tropas.

No final, a Câmara votou por 267 a 31 votos contra a contestação. No Senado, onde a votação foi de 74 contra 1, Boxer ficou sozinha.

"Eu acho que esta é a primeira vez na minha vida em que votei sozinha no Senado dos Estados Unidos, e vou lhe dizer, acho que foi a coisa certa a se fazer", disse Boxer depois, acrescentando que acredita que forçou a liderança republicana no Congresso a escutar as preocupações sobre os direitos de votação.

A eleição em Ohio, um dos Estados mais fortemente contestados, foi tomada pelo Partido Verde, democratas liberais e defensores da reforma do sistema de votação por causa das longas filas, falta de políticas uniformes para votos provisórios e distribuição de máquinas de votação.

De muitas formas, o debate de quinta-feira ocorreu devido aos esforços incansáveis de um pequeno grupo de ativistas, advogados liberais, internautas denunciadores e grupos de direitos civis, que têm argumentado desde o dia da eleição que a votação em Ohio foi manipulada a favor de Bush.

Nas semanas que se seguiram, estes grupos organizaram comícios e audiências públicas em Ohio condenando a votação, impetrando processos contestando a vitória de Bush e exigindo uma recontagem estadual que resultou no encolhimento da margem de vitória de Bush de cerca de 118.450 para 300 votos. Eles também protestaram em Washington nesta quinta-feira.

E levantaram dinheiro. Juntamente com Michael Badnarik, o candidato presidencial libertário, David Cobb, o candidato do Partido Verde, levantou mais de US$ 350 mil para a campanha de recontagem --duas vezes mais do que ele levantou para sua candidatura à Casa Branca.

"Eu acho que estamos vendo a ocorrência de um realinhamento político", disse Cobb na quinta-feira, em um comício realizado em frente à Casa Branca. "Os soldados rasos do Partido Democrata são bem mais progressistas do que os líderes corporativistas do partido."

Mas mesmo a liderança democrata em Ohio disse que apesar de querer ver uma melhora nas práticas eleitorais, ele teme que o partido desperdice tempo e dinheiro travando novamente a última eleição.

"Até certa altura isto serviu a um propósito", disse Susan Gwinn, presidente do Partido Democrata de Athens County, em Ohio. "Mas eu acho que passamos daquele ponto. Nós precisamos seguir em frente."

Mas Tubbs-Jones, uma ex-promotora e juíza, não estava disposta a seguir em frente; ela disse aos repórteres na quinta-feira que apesar de alguns terem considerado tolice a sua objeção, seus pais "não criaram uma tola". Ela disse estar promovendo a contestação "em nome dos milhões de americanos que acreditam e valorizam nosso processo democrático e o direito de votar".

Fahrenheit 11 de Setembro

A ação dela atrasou o fim constitucional formal da campanha presidencial de 2004 em mais de quatro horas. Os legisladores se reuniram precisamente no plenário da Câmara às 13h, como prescrito pela lei federal, com o vice-presidente Dick Cheney presidindo.

Em uma cerimônia tão antiga quanto a própria Constituição, quatro funcionários do Congresso acompanharam Cheney, carregando duas caixas de madeira contendo uma pilha de envelopes lacrados em cada --os resultados dos votos do Colégio Eleitoral nos Estados.

Cheney leu os nomes em voz alta, em ordem alfabética. Quando ele chegou a Ohio, Tubbs-Jones e cerca de uma dúzia de outros membros da Câmara se levantaram silenciosamente de suas cadeiras, assim como Boxer. De forma educada mas firme, Tubbs-Jones disse que tinha uma objeção.

"E eu tenho uma senadora", ela declarou. A última vez em que isto aconteceu foi em janeiro de 1969, quando um eleitor da Carolina do Norte, designado para Richard M. Nixon, votou em George Wallace. Antes disto, a eleição contestada de 1876 entre Rutherford B. Hayes e Samuel J. Tilden provocou a convocação de uma comissão especial, que deu a eleição para Hayes (republicano).

Apesar do debate de quinta-feira na Câmara ter sido vigoroso, no Senado apenas dois republicanos, os senadores Mike DeWine e George Voinovich de Ohio, participaram, deixando aos democratas a tarefa de ocupar o tempo com discursos apaixonados, mas relativamente contidos, sobre a forma como o sistema de votação precisa ser aprimorado.

O astro e calouro democrata, o senador Barack Obama de Illinois, aproveitou a ocasião para fazer seu primeiro discurso.

Para muitos democratas, incluindo Boxer, a objeção trouxe lembranças da mesma cerimônia em janeiro de 2001, uma cerimônia que forneceu a cena de abertura de "Fahrenheit 11 de Setembro", o documentário de Michael Moore.

Há quatro anos, após Gore ter vencido no voto popular mas Bush ter prevalecido após seis semanas de luta pela Flórida, os deputados negros da Câmara protestaram contra os resultados e imploraram para que um senador apoiasse suas objeções, mas nenhum o fez.

Boxer disse que, olhando para trás, "foi um erro não ter feito a objeção quatro anos atrás". Reeleição foi legalmente ratificada pelo congresso do país nesta 5ª George El Khouri Andolfato

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