UOL Notícias Internacional
 

07/01/2005

Doenças poderão dobrar o nº de vítimas na Ásia

The New York Times
Scott Shane e

Raymond Bonner

Em Jacarta, Indonésia
O diretor geral da Organização Mundial de Saúde, Lee Jong Wook, disse nesta quinta-feira (6/1) que outras 150 mil pessoas poderiam morrer se houver um surto de doença. Ele estima que 5 milhões de pessoas em uma dúzia de países perderam suas casas, água e fonte de alimentos.

"Estamos extremamente preocupados com a contínua falta de acesso às necessidades básicas", disse ele.

A coordenadora especial da ONU para alívio do tsunami, Margareta Wahlstrom, afirmou que acredita que a contagem inicial de 150 mil vítimas aumentará. "Com a remoção dos destroços, mais corpos serão encontrados", disse ela. "Outros voltarão com as águas."

O secretário-geral da ONU fez um pedido urgente aos líderes mundiais reunidos aqui, nesta quinta. Kofi Annan pediu doações imediatas de US$ 977 milhões (cerca de R$ 2,9 bilhões) em dinheiro, para prover água, alimentos, abrigo e remédios às vítimas dos tsunamis nos próximos seis meses.

A reunião de cúpula foi organizada para coordenar o gigantesco esforço de assistência diante dos imensos problemas que enfrenta com logística, ameaças de doenças e da consciência de que a contagem inicial dos mortos é incompleta.

Um total de mais de US$ 3 bilhões (em torno de R$ 9 bilhões) foram prometidos por países em todo o mundo --até a empobrecida Coréia do Norte ofereceu US$ 150.000 (aproximadamente R$ 450.000).

No entanto, teme-se um comportamento comum em grandes desastres, no qual se fazem promessas --quando a questão domina os noticiários--, que depois não são cumpridas. Foi esse o caso, em dezembro de 2003, do terremoto de Bam, Irã, onde apenas uma pequena percentagem de centenas de milhões de dólares prometidos foram entregues.

Questionado sobre a diferença entre as promessas e as doações de fato, Annan disse: "Freqüentemente, tivemos disparidades no passado. Espero que isso não aconteça neste caso." Ele pediu que a mídia mantivesse "a pressão".

Em um sinal das complicações políticas de dar ajuda a uma região volátil, o secretário de Estado Colin L. Powell disse que, depois da reunião de cúpula, os EUA iam relaxar as restrições de ajuda militar à Indonésia. Assim, vão poder fornecer peças de reposição para os aviões de transporte C-130, que estão tendo um papel crítico na distribuição de mantimentos de emergência.

As restrições foram impostas pelo Congresso em 1999, por causa de preocupações com violações de direitos humanos na repressão ao movimento de independência do Timor Leste.

Até mesmo em junho do ano passado, grupos de direitos humanos reclamaram do uso de aviões C-130 e outros equipamentos militares americanos em ataques contra separatistas na província de Aceh, na ilha de Sumatra.

Mas agora, apenas sete dos 24 C-130 da Indonésia estão funcionando, disse Powell, e a necessidade de ajuda em Aceh superou as inquietações de mau uso dos equipamentos. Cerca de dois terços das vítimas do tsunami foram nessa província.

"A necessidade humanitária", disse ele, "supera nossas reservas".

Annan chamou o tsunami de "uma catástrofe mundial sem precedentes", o maior desastre natural que a ONU já enfrentou nos 60 anos de existência. Ele advertiu que 11 dias depois que o maremoto de 26 de dezembro gerou as ondas catastróficas, partes da costa devastada de Aceh ainda não foram mapeadas, de forma que o total estimado de 150.000 mortos em 12 nações atingidas pelo tsunami pode ser baixo.

Uma autoridade americana disse que helicópteros da Marinha iam começar, nesta sexta-feira (7/1), a avaliar as áreas remotas da costa oeste da Sumatra, em uma tentativa de obter uma idéia mais completa da extensão da destruição.

Powell disse que o "grupo central" de nações doadoras, organizado há oito dias pelos EUA, será dissolvido, deixando à ONU o papel principal no esforço humanitário. Alguns comentadores viram a medida inicial americana como uma tentativa de contornar a ONU, apesar de Powell e Annan dizerem que esse não foi o caso.

"O grupo central ajudou a catalisar a resposta internacional", disse Powell à reunião, organizada pela Associação de Nações do Sudeste asiático. "Mas agora, tendo servido seu propósito, o grupo vai se integrar nos esforços de coordenação mais amplos da ONU."

Powell disse que o Congresso indicou apoio à promessa do presidente Bush de US$ 350 milhões (em torno de R$ 1 bilhão) em fundos de assistência e expressou "uma disposição de fazer mais, na medida em que a dimensão total da catástrofe for compreendida".

Depois de ofertas iniciais de doações de US$ 15 milhões (em torno de R$ 45 milhões) e US$ 35 milhões (aproximadamente R$ 105 milhões), o governo Bush agiu agressivamente para criar uma resposta excepcional, inclusive fornecendo helicópteros militares para distribuição de mantimentos e um esforço de arrecadação de fundos liderado pelos ex-presidentes Bill Clinton e George H.W. Bush.

Quando o tsunami tornou-se uma preocupação geral de governos e organizações internacionais, alguns questionaram se outras crises estavam sendo ignoradas. Em resposta a uma pergunta de um repórter, Annan admitiu que a crise de refugiados em Darfur, no oeste do Sudão, estava recebendo menos atenção.

"Esse é um dilema com o qual convivemos", disse ele. "Essa crise gerou uma quantidade incrível de recursos, uma resposta generosa e espontânea, enquanto outras não recebem o tipo de resposta que precisamos."

Corrupção

A própria escala das verbas prometidas para o alívio ao tsunami gerou questões sobre como será administrado.

"Não precisamos de uma conferência de doadores, precisamos de uma conferência de logística", disse um embaixador europeu. "Todo mundo concorda com isso", disse uma autoridade americana. Ela acrescentou que os EUA estavam insistindo na questão de "contabilidade", que é a forma diplomática de admitir a possibilidade de corrupção.

A corrupção tem sido endêmica aqui, desde as mais altas autoridades e até os servidores civis que lidam com o público. Países doadores sabem que a corrupção significa que nem todo dinheiro doado atingirá os necessitados, disseram diplomatas de vários países.

"Sejamos realistas", disse a autoridade americana. A esperança é que US$ 0,95 de cada dólar doado chegue às pessoas, disse ele. Um diplomata asiático, com longa experiência em Indonésia, abaixou a estimativa para US$ 0,90.

Outro temor é que organizações de caridade afiliadas à Al Qaeda, Jemaah Islamiyah ou outras redes islâmicas usem a oportunidade para se infiltrar em Aceh.

"Esse assunto tem que ser vigiado com muito cuidado pelo governo da Indonésia", disse a autoridade americana. Ela falou sob condição de não ser identificada, pois não foi autorizada por Washington a falar com a imprensa.

A Indonésia é um de apenas seis países cujos regulamentos de combate à lavagem de dinheiro não correspondem aos padrões estabelecidos pela Força Tarefa de Ativos Financeiros e Lavagem de Dinheiro, uma organização internacional na qual os EUA têm importante papel. Ondas e remoção dos destroços poderão trazer outros cadáveres Deborah Weinberg

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