UOL Notícias Internacional
 

07/01/2005

Eleição é chance de revolução cultural no Iraque

The New York Times
Thomas L. Friedman

Em Nova York
NYT Image

Colunista Thomas Friedman
A cada dia que nos aproximamos das eleições iraquianas, mais vozes estão sugerindo que deveriam ser adiadas. Esta é uma decisão difícil, mas eu espero que as eleições sejam realizadas como previstas em 30 de janeiro. Nós temos que ter a devida eleição para que possamos ter a devida guerra civil lá.

Deixe-me explicar: nenhum destes países árabes --Líbano, Síria, Iraque, Arábia Saudita-- são baseados em contratos sociais voluntários entre cidadãos dentro de suas fronteiras.

Todos eles são o que outros chamam de "tribos com bandeiras" --não países reais no sentido Ocidental. Todos eles são guerras civis ou aguardando para acontecer ou sendo impedidas de acontecer pelo punho de ferro de uma tribo sobre as outras ou, no caso da Síria no Líbano, por um país sobre o outro.

O que a equipe de Bush fez no Iraque, ao derrubar Saddam, não foi "libertar" o país --uma imagem e linguagem importadas do Ocidente e inadequadas para o Iraque-- mas sim liberar a guerra civil latente naquele país. Pense em agitar uma garrafa de champanhe e então soltar a rolha.

Isto não quer dizer que a "libertação" do povo iraquiano é impossível. Mas diferente da Europa Oriental --onde uma maioria democrática já estava presente e clamando para sair, e tudo o que precisávamos era remover o muro-- no Iraque nós precisamos primeiro criar tal maioria democrática.

É disto que estas eleições se tratam e o motivo de serem tão cruciais.

Nós não queremos o tipo de guerra civil que temos no Iraque agora. Esta é uma guerra de militantes sunitas e islamitas contra os Estados Unidos e seus aliados iraquianos, muitos dos quais não parecem à vontade lutando ao lado, e aparentemente a favor, dos Estados Unidos. Os americanos não podem vencer tal guerra. Esta é uma guerra civil na qual rebeldes assassinos parecem estar visando acabar com a "ocupação do Estados Unidos no Iraque" e os Estados Unidos e seus aliados parecem estar sustentando tal ocupação.

A guerra civil que queremos é a de um governo iraquiano eleito democraticamente contra os militantes islamitas e baathistas (adeptos de Saddam Hussein).

É preciso estar claro que estes chamados rebeldes não estão lutando para libertar o Iraque dos Estados Unidos, mas sim para reafirmar a tirania da minoria sunita-baathista sobre a maioria do país. Os rebeldes estão claramente desesperados em não serem rotulados como combatendo um governo iraquiano democraticamente eleito --o motivo de estarem tentando desesperadamente pôr a pique a eleição. Afinal, se tudo o que quisessem fosse ter sua fatia de direito da torta, e nada mais, eles estariam participando das eleições.

Nós não podemos libertar o Iraque, e nunca pudemos. Apenas os iraquianos podem libertar a si mesmos, primeiro forçando um contrato social para divisão do poder e então saindo para defender tal pacto contra as minorias que tentarão resistir a ele. As eleições são necessárias para que tal processo se desenrole, mas não são suficientes. É preciso haver vontade --entre xiitas, sunitas e curdos-- para forjar tal contrato social eqüitativo e depois lutar por ele.

Resumindo, nós precisamos destas eleições no Iraque para ver se realmente há uma comunidade capaz de se autogovernar e pronta, e disposta, a libertar a si mesma-- tanto do antigo regime do Iraque quanto de nós. A resposta para esta pergunta não é evidente. Isto é sempre um tiro no escuro --mas um que eu argumentaria ser moralmente e estrategicamente digno de ser tentado.

Porque se é impossível para os povos de mesmo um único Estado árabe se organizarem voluntariamente em torno de um contrato social para uma vida democrática, então veremos ditadores e reis governando esta região até onde o olho é capaz de ver. E isto garantirá que esta região será um caldeirão de patologias e terrorismo financiados pelo petróleo pelo restante de nossas vidas.

O que é indesculpável é pensar que tal experiência seria fácil, que poderia ser realizada de forma barata, que poderia ser realizada com qualquer velho exército, qualquer velha coalizão, qualquer velha política fiscal e qualquer velha política de energia. Esta é a estupidez de George W. Bush, Dick Cheney e Donald Rumsfeld.

Minha estupidez foi pensar que nunca poderiam ser tão estúpidos.

Ainda assim, o jogo ainda não acabou. Nós sabemos que o povo iraquiano não quer ser governado por nós. Mas o que não sabemos é como eles querem governar a si mesmos.

Que tipo de maioria os xiitas iraquianos estão prontos para ser --uma tolerante e inclusiva, ou uma intolerante e exclusiva? Que tipo de minoria os sunitas iraquianos pretendem ser--rebelde e separatista, ou leal e compartilhadora?

As eleições são a única forma de descobrir. Ou, como Rumsfeld poderia dizer: você vai às eleições com o país que tem, não com o que gostaria de ter --porque esta é a única forma de descobrir se aquele que você deseja é possível. Governo democraticamente eleito tira a legitimidade de rebeldes George El Khouri Andolfato

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