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08/01/2005

Canalhas, hipócritas e rabugentos governam EUA

The New York Times
Paul Krugman

Em Nova York
NYT Image

Paul Krugman é colunista
Eu venho pensando em escrever um romance político. Será um romance ruim porque não haverá nuances: não é uma questão de discordar dos vilões --eles serão hipócritas, rabugentos e canalhas.

No meu romance ruim, será revelado que um famoso moralista --que exigia ultraje nacional diante de um caso amoroso e que escreve livros best seller sobre virtude-- esconde um dispendioso vício de jogo. Será revelado que um apresentador de programa de rádio --que defende penas mais duras para infratores das leis de drogas-- esconde seu próprio vício.

No meu romance ruim, defensores dos valores morais serão movidos por estranhas obsessões. O discurso violento de um senador contra o casamento gay associará este a sexo de "homem com cachorro". Outro falará sobre os riscos de lésbicas em banheiros de escolas.

No meu romance ruim, o presidente escolherá como chefe da segurança interna um "bom homem" que, como será revelado, foi alvo de um mandado de prisão, que transformou um apartamento destinado a membros de equipes de resgate em seu próprio ninho de amor pessoal e que perseguiu pelo menos uma de suas ex-amantes.

No meu romance ruim, uma personalidade de TV que alega defender o americano comum contra a elite pagará um grande acordo em um caso de assédio sexual, no qual ele usou sua posição de poder para --pensando melhor, esta história é embaraçosa demais até mesmo para um romance ruim.

No meu romance ruim, apologistas do governo acusarão os críticos da política externa de anti-semitismo. Mas eles se silenciarão quando um proeminente conservador declarar que "Hollywood é controlada por judeus seculares que odeiam o cristianismo em geral e o catolicismo em particular".

No meu romance ruim, o governo usará o slogan "apóie nossas tropas" para silenciar as críticas à sua política de guerra. Mas ignorará as queixas repetidas de que as tropas carecem de blindagem.

O secretário de Defesa --outro "bom homem", segundo o presidente-- nem mesmo se dará ao trabalho de assinar as cartas para as famílias dos soldados mortos em ação.

E finalmente, no meu romance ruim o presidente, que retrata a si mesmo como defensor do bem contra o mal, presidirá em meio ao uso disseminado de tortura.

A realidade é pior que a ficção

Como é que nos encontramos vivendo em um romance ruim? Mas nem sempre foi assim. Hipócritas, rabugentos e canalhas sempre estiveram conosco, em ambos os lados do espectro político. Mas 11 de setembro criou um ambiente que alguns liberais resumem com a acrossemia IOKIYAR: It's OK if you're a Republican (Está tudo bem se você for republicano).

A população parece não disposta a acreditar em coisas ruins sobre aqueles que alegam estar defendendo a nação contra o terrorismo. E os hipócritas, rabugentos e canalhas da direita, fortalecidos pela credulidade da população, emergiram com força sem precedente.

Os apologistas do governo gostariam que esquecêssemos tudo sobre o caso Kerik, mas Bernard Kerik simboliza perfeitamente os tempos em que vivemos. Como Rudolph Giuliani e, sim, o presidente Bush, ele não foi um herói de 11 de setembro, mas ele interpretou um na TV. E como Giuliani, ele agiu rápido para faturar, literalmente, em cima de sua reputação não merecida.

Assim que os jornais de Nova York começaram a investigar, ficou claro que Kerik é, profissionalmente e pessoalmente, uma verdadeira farsa. Mas isto não é incomum atualmente entre pessoas que se passam com sucesso como patriotas e defensores dos valores morais. Kerik ainda deve estar se perguntando por que ele, diferente de tantos outros, não escapou impune disto.

E Alberto Gonzales deve estar torcendo para que os senadores não levantem o assunto. A principal objeção a tornar Gonzales secretário de Justiça é que ao fazê-lo, isto dirá ao mundo que os Estados Unidos acham aceitável torturar pessoas. Mas sua confirmação também será uma declaração sobre ética.

Como conselheiro da Casa Branca, Gonzales estava encarregado de vetar Kerik. Ele deve ter percebido com que tipo de homem estava lidando --mas ainda assim declarou Kerik apto a comandar a segurança interna.

Será que Gonzales atendeu ao desejo do presidente, que queria Kerik de qualquer forma, ou decidiu que seu chefe não ia querer saber? (O "Nelson Report", um respeitado boletim, já relatou que Bush deixou claro para seus subordinados que não quer saber de más notícias sobre o Iraque.)

De qualquer forma, quando o Senado confirmar Gonzales, isto significará que IOKIYAR continua em vigor, que as regras básicas de ética não se aplicam a pessoas alinhadas com o partido do governo. E a realidade continuará sendo pior do que qualquer ficção que eu possa escrever. Trajetória do país é um romance no qual só há personagens ruins George El Khouri Andolfato

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