UOL Notícias Internacional
 

08/01/2005

Guerra dificulta ajuda para vítimas do maremoto

The New York Times
Jane Perlez

Em Lamlhom, Indonésia
À sombra de um coqueiro, Basri Ahmad enterrou seu filho de 19 anos, nesta sexta-feira (7/1). O rapaz não foi vítima do terremoto ou dos tsunamis, mas do conflito civil que semeia a morte em Aceh desde muito antes da recente devastação.

"Esse é um mal-entendido. Planejo pedir explicações do exército", disse Basri sobre a morte de seu filho, Andriasyah, um dos sete homens mortos por soldados na quinta-feira.

O comandante militar da província de Aceh, general Endang Suwarya, disse que ia investigar o caso, mas também tinha uma resposta pronta pelas mortes. Apesar da devastação, "Aceh ainda é área de conflito", disse ele.

Tais assassinatos são característicos da longa guerra civil em Aceh, mas foram pouco divulgados nos últimos dois anos, já que os militares fecharam a província e reprimiram o movimento rebelde, que pede a independência da região.

Agora, depois do desastre, há cada vez mais preocupação de que novos confrontos dificultarão o esforço de ajuda. Além disso, teme-se a intensificação dos combates, se os militares tentarem tirar vantagem do desastre para cimentar seu controle da região.

As mortes demonstram que o exército indonésio, no mínimo, continua a patrulhar com a mão no gatilho uma província que perdeu 10.000 pessoas em mais de 25 anos de confrontos. Apesar de seu pai e sua mãe dizerem que Andriansyah não fazia parte do movimento rebelde, as tensões em Aceh são evidentes. Muitos analistas esperavam que o desastre fosse unir os lados.

"Os soldados atiram facilmente nas pessoas. Eles deveriam perguntar [antes] se são rebeldes ou não", disse a mãe de Andriansyah, Mariana, que usa só um nome, como muitos indonésios.

Apesar de 40.000 soldados terem ajudado nos esforços de resgate em Aceh imediatamente após o tsunami de 26 de dezembro, o exército claramente continua pouco popular nesta aldeia, a 40 km sudoeste da capital da província, Banda Aceh. Lamlhom salvou-se do pior da destruição e tornou-se um ponto de reunião de refugiados.

Antes de o tsunami chegar, o governo tinha declarado que Aceh estava definitivamente fora dos limites para grupos de direitos humanos, agências da ONU, jornalistas e estrangeiros. No entanto, a natureza reverteu em dias o que anos de lutas não conseguiram.

Nos últimos anos, o exército debilitou os rebeldes, que fugiram para as montanhas e perderam sua rede de inteligência. Muitos líderes guerrilheiros foram presos quando a lei marcial foi imposta, há dois anos.

Em maio último, o governo suavizou a lei marcial para um "estado de emergência civil", que, oficialmente, passou o comando dos militares para a polícia. No entanto, de fato, os moradores de Aceh dizem que o exército continua sendo a maior autoridade.

O secretário de Estado americano, Colin L. Powell, anunciou, nesta semana, que os EUA relaxarão as restrições à ajuda aos militares indonésios, que têm violações de direitos humanos em seu histórico. Os EUA fornecerão peças para aviões de carga que podem ser usados para transportar mantimentos para Aceh. Apesar de as autoridades americanas dizerem ter recebido garantias de que os aviões serão usados apenas para propósitos de ajuda, pode ser difícil confirmá-lo em meio ao caos que prevalece em Aceh.

Alguns esperam que o desastre mude a dinâmica em Aceh, uma área rica em gás natural, mas que continua sendo uma das mais pobres da Indonésia.

"Se bem administrado, o esforço de alívio pode melhorar a imagem do governo e aliviar o ressentimento dos moradores de Aceh em relação à Jacarta. Isso pavimentaria o caminho para resolução das queixas, incluindo justiça por abusos prévios", escreveu na sexta-feira no "The Asian Wall Street Journal" Sidney Jones, especialista em Indonésia.

No entanto, no início da semana, Suwarya, comandante regional, não deixou dúvidas de que os militares pretendiam manter um rígido controle da província quando anunciou que os soldados matariam saqueadores.

O exército parece ter amplo papel na região --até no esforço humanitário de longo prazo: o oficial responsável pela missão, general Bambang Darmono, disse que os soldados vão vigiar os grandes campos de refugiados que a ONU planeja montar para prover abrigo mais permanente do que as tendas rasgadas que atualmente protegem muitos sobreviventes.

Mortes sem sentido

Nesta semana, o chefe do exército, general Ryamizard Ryacudu, deu ordens para que os soldados em Aceh dessem segurança a todas as rotas de transporte e impedissem atividades rebeldes. Membros das organizações de assistência esperam que a ordem não seja um prelúdio a escoltas militares de suas missões.

Um membro dos Serviços de Alívio Católicos, Wayne Ulrich, disse nesta sexta-feira que estava preocupado que as lutas entre os rebeldes e militares poderiam prejudicar os esforços humanitários.

"Espero que não atemorize a comunidade de assistência a ponto de não conseguirmos fazer nosso papel", disse ele. Até agora, os indonésios têm sido generosos, permitindo que os caminhões de ajuda trafeguem em qualquer parte, disse ele, mas não está claro quanto tempo isso vai durar.

Vários parentes dos homens mortos aqui perto deram relatos similares do acontecido.

A mãe de Andriansyah, Mariana, disse que ele saiu de casa por volta das 9h da manhã, na quinta-feira, dizendo que ia com uns amigos resgatar uma motocicleta que ficara enterrada na lama.

Perto das 13h, alguns aldeões vieram à casa com notícias que os soldados tinham matado seu filho e exigiam que um parente fosse identificar e coletar o corpo.

Mariana enviou o tio do filho, Fadli, que voltou pouco depois do pôr do sol com o corpo. Este tinha um tiro no topo da cabeça e outro debaixo do joelho direito, disse ela.

"Houve tiroteio em Lampuuk entre o exército e o GAM" explicou Suwarya, usando a sigla para o Movimento de Liberação de Aceh. "Pegamos duas armas deles."

Em um campo de refugiados masculino perto da sua casa, um homem, Zainun, disse que o líder da aldeia tinha lhe pedido que fosse ao local onde os homens foram mortos. Seu irmão, Basir, deixou o campo naquela manhã dizendo que ia voltar a sua aldeia para salvar o que pudesse das ruínas da casa.

Zainun perdeu sua casa, sua mulher e uma criança no tsunami. A perda de seu irmão no tiroteio pareceu demais.

Ele chorou quando o chefe da aldeia, Ali, pediu que fosse identificar o corpo do irmão. "Eles estavam jogados no campo de arroz", ele disse dos corpos. "Estavam só de cuecas."

Zainun e outro homem do campo de refugiados, cujo primo também foi morto, disseram que enterraram os homens em um túmulo improvisado. Mas Ali apresentou uma versão diferente sobre o que estavam fazendo os homens que morreram. Basicamente, acusou-os de serem mensageiros.

"Eles foram pegar alguns suprimentos, inclusive cigarros, para outros rebeldes", disse ele. Ele tinha certeza de que Andriansyah era membro do movimento. As missões de assistência são impedidas de circular na Indonésia Deborah Weinberg

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