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08/01/2005

Hamas boicota eleição, mas quer parte do poder

The New York Times
Steven Erlanger

Na Cidade de Gaza
Os meninos do Hamas estavam ocupados arrancando os cartazes da eleição palestina para colocar uma mensagem própria, sob as bandeira verdes do Islã.

Mas a mensagem deles não era sobre a eleição presidencial deste domingo (9/1); era a comemoração de um herói do Hamas, Yehya Ayyash, um fabricante mestre de bombas conhecido como o Engenheiro, que foi morto por Israel, nove anos atrás nesta semana, com um celular sabotado.

O Hamas, que busca a destruição de Israel, está pedindo aos seus simpatizantes que boicotem a eleição, que visa substituir Iasser Arafat. Mas a eleição é um teste tão grande para o Hamas quanto para os que de fato estão concorrendo. Por vários anos, sua popularidade esteve em ascensão. Mas agora, após quatro anos de violência e a morte de Arafat, o Hamas está lutando contra uma mudança de sentimento político para o "mainstream" e uma nova possibilidade de melhores relações com Israel.

As pesquisas de opinião mostram um claro distanciamento do Hamas. Analistas políticos dizem que o grupo está em um estado de confusão.

Mahmoud Abbas, que sucedeu Arafat como líder da Organização para Libertação da Palestina (OLP) e que é o candidato do Fatah, a maior facção palestina, deverá ser o vencedor entre os sete candidatos. O único adversário real de Abbas, que tem 69 anos e é conhecido como Abu Mazen, é o dr. Mustafa Barghouti, que dirige uma agência de atendimento de saúde na Cisjordânia.

Mas a margem de vitória de Abbas, e o comparecimento, serão examinados atentamente para avaliar o equilíbrio de poder entre o Fatah e o Hamas.

A ascensão do Hamas coincidiu com o declínio e corrupção da Autoridade Palestina e o pessimismo diante do processo de paz. O Fatah está apostando em Abbas para a continuidade da reversão destas tendências, agora que há novas possibilidades de diálogo e paz com os israelenses e uma chance de reformar a disfuncional Autoridade Palestina. Na sexta-feira, Abbas repetiu seu pedido de negociações com Israel.

O Hamas quer um Abbas enfraquecido, concordam tanto os analistas palestinos quanto israelenses. O Hamas espera que mesmo se Abbas vencer com 60% dos votos, um baixo comparecimento minará sua legitimidade. Mesmo um comparecimento de 70% lhes permitiria alegar que 30% dos eleitores atenderam ao pedido de ficarem em casa.

"Ninguém ousa colocar um cartaz de Barghouti ou Abu Mazen aqui", disse um jovem do Hamas que parecia estar encarregado dos cartazes na parede. "Não havia nada e não haverá nada", apenas o tributo ao Engenheiro.

Ele serve para lembrar aos habitantes de Gaza que o Hamas está combatendo os israelenses enquanto Abbas está pedindo pelo fim da violência, a chamando de contraproducente para a meta de um Estado palestino independente, negociado.

O Hamas --a palavra é uma acrossemia em árabe para Movimento Islâmico de Resistência e significa "zelo" ou "bravura"-- ordenou que seus membros não votem no domingo, sob o argumento de que a Autoridade Palestina é uma extensão dos acordos de Oslo de 1993 com Israel, cuja legitimidade como Estado é rejeitada pelo Hamas.

O Fatah foi fundado por Arafat. O nome significa "conquista", e é uma acrossemia reversa para Movimento para a Libertação Nacional da Palestina. Ele tem uma base nacionalista em vez de islamita, com a meta declarada de colocar um fim à ocupação israelense na Cisjordânia, Gaza e Jerusalém Oriental, levando a Estados israelense e palestino lado a lado.

O Hamas participou no mês passado de algumas eleições locais na Cisjordânia, onde se saiu razoavelmente bem em áreas onde o Fatah era forte. O Hamas também está se concentrando na eleição legislativa, a primeira desde 1996 e também integral para a Autoridade Palestina, que poderá ocorrer já em maio.

As contradições na posição do Hamas não param aí, disse Taher Al Nounou, o correspondente em Gaza do "Al Khaleej", um jornal dos Emirados Árabes Unidos. "O Hamas está obrigado a entrar no processo político", disse ele. "Ele não tem outra opção, e seu pensamento está se desenvolvendo. Ele quer uma parcela do poder, e não ser apenas uma simples oposição."

Liderança do Fatah

Seus principais líderes foram assassinados por Israel ao longo do ano passado, de forma que o Hamas não tinha nenhum candidato bem conhecido para disputar a eleição, mesmo se quisesse. E a morte de Arafat já produziu um aumento da popularidade do Fatah em comparação ao Hamas, como indicado por todas as pesquisas de opinião palestinas respeitáveis.

"O cenário é o mesmo que após Oslo em 1993, quando cresceu o otimismo entre os palestinos", disse Salah Abdel Shafi, um economista de uma das famílias fundadoras da OLP. "Na época, o Hamas encolheu. Mas ele esperou, confiante de que a certa altura as coisas piorariam e explodiriam, e foi o que aconteceu."

Mas a principal diferença agora, disse Shafi, é vital: "O Hamas agora é um poder militar nas áreas palestinas, e você não pode ignorá-lo".

Ainda assim, ele disse, o Hamas parece estar confuso --surpreso com a morte repentina de Arafat, surpreso com o Fatah ter escolhido rapidamente e tranqüilamente Abbas, surpreso pelo Fatah parecer mais forte e mais unido agora. "O Hamas esperava uma crise de liderança e caos após a morte de Arafat", disse Shafi.

Até mesmo o pedido de boicote do Hamas veio tarde, quando a liderança mais dispersa do grupo percebeu que muitos de seus simpatizantes, que se registraram para votar nas eleições locais, provavelmente votariam em Abbas em nome da unidade palestina.

O Hamas também ampliou suas críticas a Abbas apenas nos últimos 10 dias, à medida que também intensificou sua campanha de foguetes e morteiros contra Israel em rejeição direta ao pedido de Abbas para pará-la.

Abbas tem relações decentes com os líderes do Hamas há muitos anos, e declarou sua intenção de se encontrar com eles aqui após a morte de Arafat para discutir suas exigências e desejos para uma parcela do poder, e para pedir que mantivessem a situação calma e a violência em baixa, pelo menos durante a campanha.

Mas quando Abbas visitou Gaza no início desta semana, o Hamas se recusou a se encontrar com ele, exigindo que retirasse seu pedido para o fim dos ataques de foguete contra Israel e que pedisse desculpas.

"Estes ataques contra nossos combatentes não atendem os interesses da população", disse o Hamas em uma declaração. "O inimigo está explorando estes comentários para promover sua agressão ao nosso povo."

A tensão cresceu a ponto do Comitê Central do Fatah emitir uma declaração na última quinta-feira (6), pedindo especificamente para o Hamas suspender os ataque contra Abbas, o acusando de "incitamento aberto contra Abu Mazen" e exigindo que o grupo respeitasse a "unidade palestina".

Uma pesquisa de opinião realizada uma semana atrás por Khalil Shikaki, do Centro Palestino para Pesquisa e Observação Política, mostrou o apoio ao Fatah em 41% e ao Hamas em 20%, com uma margem de erro de 3 pontos percentuais. O apoio ao Hamas na Cisjordânia é de cerca de 15%, e em Gaza, de cerca de 28%.

Ainda assim, o apoio a Abbas em Gaza é de cerca de 70%, segundo a pesquisa, em comparação a 62% na Cisjordânia, um indício de quão cansados os cidadãos de Gaza estão do último ciclo de violência e destruição.

Ainda assim o Hamas, uma organização disciplinada e com visão de longo prazo, está preparado para trabalhar com uma nova Autoridade Palestina para assumir o que considera seu próprio papel de liderança. Sob o slogan, "Parceiros em sangue, parceiros na tomada de decisão", o Hamas tem pedido por um "governo de unidade", incluindo ministros.

O Hamas quer um papel negociado, mas Abbas e o Fatah responderam que o Hamas deve concorrer nas eleições e ter o tamanho de seu papel determinado pelos eleitores. Mas o Fatah também sabe que se sairá melhor nas eleições legislativas se tiver suas próprias eleições internas primeiro, para substituir alguns líderes ricos e velhos que voltaram do exílio com Arafat e para atrair uma geração mais jovem, nascida nos territórios palestinos.

Os cidadãos de Gaza querem uma vida mais tranqüila, disse Ismail Sommad, 33 anos, um líder da organização Fatah jovem daqui. "As pessoas estão cansadas destes provocações a Israel, desta política de resistência e foguetes", disse ele. "As pessoas realmente sofreram com tal política, e há uma grande voz para parar."

O Hamas também não quer um confronto militar com o mais forte Fatah.

"Se o Hamas sentir alguma segurança com Abu Mazen, ele se comprometerá com um cessar-fogo de longo prazo", disse Sommad. "Mas isto terá que ser acompanhado de um entendimento político claro com o Fatah sobre muitas questões, incluindo como reagir às incursões israelenses, demolições de casas e assassinatos planejados, caso continuem. Mas o que estamos falando é da abertura da porta para negociações reais."

O Hamas, ele disse, "está disposto a acompanhar por ora, por motivos internos". Quanto ao Fatah, "nós precisamos atingir uma vida estável, segura e democrática", disse ele. "Para ser honesto, é a nossa última chance." Influência do grupo radical diminui com perspectiva de estabilidade George El Khouri Andolfato

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