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09/01/2005

Para Abbas, eleição palestina pode ser fase fácil

The New York Times
Steven Erlanger

Em Jerusalém
Se Mahmoud Abbas vencer a eleição de domingo para sucessão de Iasser Arafat como presidente da Autoridade Palestina, como esperado, ele enfrentará enormes desafios quando se sentar para trabalhar na manhã de segunda-feira.

Apesar das relações com Israel serem urgentes, suas dificuldades mais profundas são internas. Seu trabalho será o de restaurar uma aparência de honestidade, eqüidade, segurança e estabilidade para as instituições que alegam representar os palestinos e que administrarão qualquer futuro Estado palestino.

A mais recente pesquisa mostra Abbas, 69 anos, vencendo por algo entre 52% e 59% das intenções de voto em uma disputa com sete candidatos, com o dr. Mustafa Barghouti em segundo lugar, com cerca de 25%.

Quando Arafat morreu em 11 de novembro, Abbas, também conhecido como Abu Mazen, contava com cerca de 2% de apoio nas mesmas pesquisas. A diferença entre os dois momentos não representa uma nova injeção de carisma, mas um aumento das expectativas de mudança entre um povo palestino cansado de violência, corrupção, pobreza e da presença de tropas israelenses.

"As pessoas esperam que Abu Mazen tome as decisões difíceis e corajosas para colocar toda a casa palestina em ordem e que farão uma verdadeira diferença na vida palestina", disse Khaled Yazji, um ex-assessor de Arafat. "Este é o motivo dele estar recebendo tamanho apoio."

"O trabalho de Abbas é criar um país", disse Yazji. "Será muito difícil para ele, até mesmo perigoso. Mas na verdade é simples -ele é um líder ou não?"

Os principais desafios de Abbas serão quem comandará a segurança, as reformas institucionais e pessoais, os militantes palestinos e as relações com Israel, concordam analistas palestinos e israelenses. Eles também concordam que há aqueles que não querem que ele tenha sucesso, que o querem morto.

Uma área chave é a operação de segurança palestina. Israel diz que há cerca de 14 serviços de segurança palestinos rivais, sem incluir os combatentes do Hamas e da Jihad Islâmica, somente na Autoridade Palestina. Abbas diz que deseja enxugá-las e reformá-las até sobrarem três, sob um comando central, um passo por muito tempo cobrado de Arafat pelos Estados Unidos e pela Europa.

As rivalidades e os conflitos de interesse entre muitas das forças -freqüentemente encorajados por Arafat, para lançar um forte contra outro - produziram senhores da guerra, corrupção com dinheiro de doadores e do Estado e ruptura da ordem pública.

Na semana passada em Gaza, ocorreu uma troca de tiros entre as forças de segurança rivais de Moussa Arafat, que é parente de Iasser Arafat e deveria estar encarregado das forças palestinas em Gaza, e de Mahmoud Nashabat, que comanda as Brigadas de Jenin, baseadas nos campos de refugiados no centro de Gaza.

Nashabat acusou Moussa Arafat de enviar alguém para matá-lo. Em resposta, ele invadiu um dos postos militares de Arafat, amarrou os soldados lá e roubou suas armas, que pertenciam à Autoridade Palestina. Arafat então enviou tropas contra Nashabat, mas este foi protegido pelos refugiados e por sua própria milícia, e finalmente os anciãos do campo intervieram.

Nos últimos dois meses em Gaza, cerca de 50 pessoas foram mortas em casos que variaram de disputas comerciais até rivalidades militares, segundo moradores de Gaza e jornalistas locais. Ninguém foi preso; a polícia da Autoridade Palestina é relativamente impotente contra os senhores da guerra, que alegam agir visando o interesse da luta contra Israel.

No mês passado, durante o Ramadã, um comandante de uma das forças de segurança de Gaza pediu a um mecânico para consertar seu carro pouco antes do iftar, a quebra do jejum diário. O mecânico disse que consertaria o carro no dia seguinte. O comandante o matou com um tiro e saiu andando.

"As pessoas conhecem os assassinos, mas ninguém toca neles", disse Salah Abdel Shafi, um profissional de saúde de uma das famílias fundadoras da Organização para Libertação da Palestina. "Se você não tiver laços com um grupo de segurança ou uma grande família ou tribo, você está encrencado. Uma briga de trânsito pode resultar em morte."

Também na Cisjordânia, onde Israel permite que a polícia palestina porte armas apenas em raras circunstâncias desde a primavera de 2002, quando as tropas israelenses voltaram em peso, há pouco senso de ordem pública.

"Os serviços de segurança devem ser leais ao Estado, não aos seus líderes", disse Yazji. "Não pode ser apenas na aparência. Isto significa a necessidade de mudança drástica daqueles líderes." Mas aqueles líderes têm armas e homens leais para empunhá-las.

A especulação é que Abbas nomeará um comandante respeitado, o general Nasser Youssef, membro do comitê central do Al Fatah, como chefe geral dos serviços de segurança palestinos, e possivelmente como ministro do Interior, um cargo que Arafat não queria que ele ocupasse. Outro candidato para o Ministério do Interior seria Tayeb Abdul Rahim, que já foi secretário-geral da Autoridade Palestina.

O Al Fatah, o principal movimento político palestino, se uniu em torno de Abbas após a morte de Arafat, seu fundador. Mas se Abbas pretende mudar as vidas dos palestinos comuns, ele terá que agir rapidamente para mudar os membros do movimento que ele diz representá-los. Ele não pode controlar as respostas de Israel, os eleitores sabem, mas ele pode promover mudanças internas para promover a democracia, a transparência e a justiça.

Hanan Ashrawi, um legislador e reformador do Fatah, disse: "O problema dos palestinos não é a ausência de democracia -é a ausência de liberdade".

Mas Abbas enfrentará grande resistência de dentro do próprio movimento que lhe entregará a presidência, um movimento ainda dominado por pessoas leais a Arafat, muitas das quais são consideradas corruptas.

Abbas tem feito campanha prometendo que as instituições governarão, e não um líder, e que a lei será a regra, não a arma. Agora ele terá que cumprir.

"Se Abu Mazen fala sério sobre reformas, e eu acredito que sim, ele terá que realizar algumas mudanças rápidas e visíveis na velha liderança do Fatah", disse Shafi. "Se ele fala sério sobre combater a corrupção, e está, isto afetará não um setor mínimo da Autoridade Palestina e da burocracia."

Ismail Sommad, um líder da Organização Fatah Jovem, disse: "O maior perigo para a Fatah é a corrupção interna. Você já viu o caos. Você acha que o Hamas é parte dele ou o responsável? Eu não acho. Nossos líderes foram os responsáveis".

Espera-se que Abbas aposente vários daqueles que cercavam Arafat e que voltaram com ele do exílio em 1994, tentando ao mesmo tempo recrutar e promover uma geração mais jovem, na faixa dos 40 anos, que cresceu após a guerra do Oriente Médio de 1967, na qual Israel tomou e ocupou a Cisjordânia e a Faixa de Gaza.

Entre seus líderes estão Muhammad Dahlan, uma poderosa figura política em Gaza, e Jibril Rajoub, seu ex-par como chefe da segurança preventiva na Cisjordânia. Mas também incluem Marwan Barghouti, que está cumprindo cinco penas perpétuas consecutivas em uma prisão israelense e que apóia a continuidade da resistência armadas contra Israel.

Abbas promete eleições internas do Fatah pela primeira vez em décadas, para reformar o comitê central e o grande conselho revolucionário; alguns estão pressionando por eleições primárias internas para seleção de candidatos para as primeiras eleições legislativas desde 1996, que agora estão provisoriamente previstas para 17 de julho.

"O coitado terá a presidência mais desagradável do mundo", disse Shafi. "E além disso há o Hamas e os israelenses."

Abbas tem sido direto durante a campanha sobre suspender o atual levante, que considera contraproducente, e em vez disso negociar com Israel para se chegar à meta de um Estado palestino independente, viável. Na segunda-feira, ele poderá alegar que os eleitores deram apoio e legitimidade a ele e seu programa -um motivo pelo qual seu sucesso no domingo será medido tanto pela sua margem de vitória quanto pelo comparecimento dos eleitores.

Na verdade, Abbas poderá alegar dispor das credenciais mais democráticas de qualquer líder árabe no mundo.

Mas seu programa é um desafio direto a uma geração de combatentes armados que definiu a si mesma pela sua resistência a Israel. Muitos destes combatentes, nas Brigadas dos Mártires de Al Aqsa, são afiliados do Fatah e leais a Barghouti.

Se receberem empregos, salários e uniformes em um serviço de segurança reformado, muitos destes combatentes acompanharão, acreditam os analistas, especialmente se forem convencidos de que estão servindo a uma nova Palestina. E uma recuperação da economia absorveria um grande número deles em empregos reais.

Muitos outros representam uma verdadeira oposição -pertencentes a organizações islâmicas militantes como Hamas e Jihad Islâmica, que rejeitaram o pedido de Abbas para um cessar-fogo real e exigem que ele peça desculpas por criticar aqueles que dispararam foguetes contra os assentamentos israelenses. Outros, em gangues armadas chamadas Comitês de Resistência Popular, compostas de militantes de várias facções, não ganham nada com a estabilidade.

"Estes combatentes não querem uma melhora da situação e são contra a aplicação da supremacia institucional na vida e política palestina", disse Sommad, o líder da Organização Fatah Jovem.

Abbas disse que deseja incluir tanto militantes quanto islamitas como parte da nação palestina. Ele está tentando abrir um diálogo político sério com todas as facções para se chegar a regras fundamentais e um programa político que possam ser aceitos tanto pelo Hamas quanto pelo Fatah.

Isto também será um desafio extraordinário. Mas apenas quando ele tiver alguma forma de consenso interno ele será capaz de conversar seriamente com Israel sobre como transformar um período relativo de calma em algo mais permanente.

"Eu estou mais otimista do que antes, mas as coisas são muito frágeis", disse Shafi. "Basta alguém atirar em Abu Mazen para produzir o caos. Os estrangeiros estão felizes pelas coisas estarem transcorrendo tranqüilamente após Arafat e tivemos esta bela campanha eleitoral. Mas povos, instituições e culturas não se tornam democráticos do dia para a noite." George El Khouri Andolfato

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