UOL Notícias Internacional
 

10/01/2005

Abbas declara vitória em eleição da Palestina

The New York Times
Steven Erlanger

Em Ramallah, Cisjordânia
Mahmoud Abbas, que se opõe à continuidade da violência contra Israel, declarou vitória na noite deste domingo (9/1) na eleição para a escolha do novo presidente da Autoridade Palestina, após as pesquisas de boca de urna indicarem que ele ganharia por uma ampla vantagem.

"Oferecemos esta vitória à alma do irmão e mártir Iasser Arafat, ao nosso povo, aos nossos mártires e aos 11 mil palestinos encarcerados em prisões israelenses", disse Abbas, 69, aos seus correligionários locais.

Os partidários de Abbas comemoraram a sua vitória já esperada buzinando pelas ruas, agitando bandeiras e disparando tiros para o alto. Mas a magnitude dessa vitória deverá proporcionar ao discreto e cerebral Abbas um mandato extremamente necessário para promover as mudanças essenciais no sentido de refazer e revigorar a Autoridade Palestina e colocar um fim ao terrorismo.

Segundo as pesquisas de boca de urna, cujos resultados foram divulgados momentos após o fechamento das urnas às 21h locais, Abbas deverá vencer a eleição com cerca de 65% dos votos, ficando mais de 40 pontos percentuais à frente do seu concorrente mais próximo, em uma disputa da qual participaram sete candidatos.

Essa foi a primeira eleição presidencial palestina em nove anos, que se tornou necessária após a morte de Arafat, em 11 de novembro do ano passado. Apesar da eleição ter ocorrido sob a ocupação israelense, o processo eleitoral foi considerado, de maneira geral, livre e justo pelos observadores internacionais, tendo havido pouca interferência de Israel, que relaxou as restrições à movimentação dos palestinos e praticamente suspendeu as suas atividades militares nos territórios ocupados.

Mas houve preocupação com um índice de comparecimento às urnas menor do que o esperado em um dia de inverno frio mas ensolarado, e, por isso, as autoridades eleitorais palestinas decidiram manter as urnas abertas à votação por duas horas adicionais.

A princípio essas autoridades informaram que as restrições impostas por Israel nos postos militares de checagem e a confusão nas sessões eleitorais de Jerusalém foram os motivos para a prorrogação do horário da votação até às 21h. Mas esse anúncio ocorreu depois dos relatos de baixo comparecimento de eleitores em algumas cidades, incluindo esta, onde funcionários da justiça eleitoral em uma sessão, a Escola Al Qarami, disse que somente 30% dos eleitores registrados haviam votado até às 4h30. Os funcionários admitiram então que desejavam que mais eleitores votassem, já que somente 30% dos cerca de 1,8 milhão de eleitores tinham votado até o meio-dia.

Eles também declararam no final da tarde que aqueles eleitores impossibilitados de chegar até o seu distrito eleitoral devido às dificuldades relacionadas às restrições israelenses poderiam votar assim mesmo, apresentando simplesmente as suas carteiras de identidade.

No mês passado, o horário para votação foi ampliado para as eleições municipais, assim como em 1996, quando ocorreu a última eleição presidencial. Naquela época, como desta vez, os grupos radicais islâmicos Hamas e Jihad Islâmica pediram aos seus seguidores que boicotassem a eleição.

Segundo uma das pesquisas de boca de urna o comparecimento dos eleitores foi de cerca de 65%, mas, novamente, os verdadeiros números não estarão disponíveis até segunda-feira. Nas eleições municipais parciais do mês passado, realizadas em apenas 26 cidades e vilarejos, o índice de comparecimento foi de 81%.

Abbas, presidente da Organização para a Libertação da Palestina (OLP) e candidato pela principal facção palestina, a Fatah, enfrentou pouca concorrência. O seu principal adversário foi um candidato independente, Mustafa Barghouti, 50, médico e ativista dos direitos humanos.

Abbas buscava um mandato popular baseado em um grande número de votos para que contasse com a legitimidade e a autoridade para promover as difíceis reformas internas, reorganizar os serviços palestinos de segurança e negociar com Israel.

Apesar do pedido de um boicote, o porta-voz do Hamas deixou claro no domingo que o grupo trabalhará em conjunto com o presidente eleito. Mahmoud Zahar, um líder do Hamas na Faixa de Gaza, disse aos jornalistas que o grupo poderia ter disputado a eleição com o seu próprio candidato caso quisesse realmente enfraquecer Abbas. "A nossa idéia não é enfraquecê-lo", afirmou, embora insistisse em dizer que a resistência armada a Israel prosseguirá. Abbas pediu um cessar-fogo.

Abbas, conhecido como Abu Mazen, disse que a eleição é uma fonte de orgulho para os palestinos, ao votar aqui nesta manhã, no ex-quartel-general de Arafat, a Muqata. "Este processo está transcorrendo de forma maravilhosa, e é uma demonstração de como o povo palestino aspira à democracia", afirmou. Ele fez um apelo especial às mulheres palestinas para que exercitassem o seu direito ao voto.

Barghouti, que reclamou de várias irregularidades eleitorais, também elogiou a eleição. "Senti que o meu sonho está se realizando", disse. "Este é um grande passo para o povo palestino, um bom teste para as nossas instituições e uma prova para o mundo de que somos capazes de estabelecer um Estado independente".

"A eleição foi livre, e eu espero que tenha sido honesta", concluiu Barghouti.

Ekram Quraan, uma desenhista gráfica que atuou como fiscal de urna em uma escola daqui, afirmou que o dia foi histórico. "Para nós, isso é algo que só acontece uma vez na vida, por isso é tão importante", disse ela.

Waleed Obeidallah disse: "Este é um marco em nossas vidas e esperamos que o processo de paz tenha sido reiniciado. Os israelenses sempre dizem que não contam com um parceiro para a paz, e agora estamos elegendo um presidente, de forma não há mais desculpas".

Hanan Ashrawi, integrante do parlamento palestino, falou de um novo processo democrático para fazer com que os líderes sejam responsáveis por seus atos. Mas ela se disse chocada com o contexto da eleição. "Este é um caso único em que se pede a um povo sob ocupação que realize uma eleição livre e justa, quando este próprio povo não é livre", criticou. "Creio que este é um caso único na história. Mas esta é uma nação determinada a votar. Trata-se de um teste interno importante, e creio que é um ponto de virada".

Michel Rocard, líder do maior grupo de observadores internacionais, da União Européia, disse que houve poucos problemas com a eleição, apesar das reclamações de Barghouti a respeito do suposto uso de tinta removível nos dedos polegares dos eleitores. Houve dificuldades para os eleitores em Jerusalém Oriental, já que Israel exigiu que eles votassem em agências de correio, devido à reivindicação de soberania israelense sobre esta região ocupada. Mas o problema foi resolvido depois que o ex-presidente Jimmy Carter, que está aqui como observador eleitoral, telefonou para o escritório do primeiro-ministro israelense Ariel Sharon.

Os senadores Joseph Biden, democrata de Delaware, e John Sununu, republicano de New Hampshire, lideraram uma delegação do Comitê de Relações Exteriores do Senado.

Biden disse que a eleição foi bem organizada. "É um fato importante para os palestinos e uma declaração de seu orgulho e maturidade, e isso pode mudar a atitude do mundo com relação a eles após a morte de Arafat", comentou o senador.

"Se Abbas conquistar um mandato, consolidar o seu poder e trabalhar no sentido de conter o terrorismo, a saída dos israelenses da Faixa de Gaza poderia ser o início, e não o fim, de um processo. Não sei se há uma forma de acabar com esse problema. O processo pode ditar o resultado. Mas tudo isso será inútil caso Abu Mazen não colocar um fim à intifada e controlar o terrorismo", disse Biden.

"Esta é uma eleição democrática no mundo árabe, e isso, por si só, já é algo histórico. Uma liderança eleita pós-Arafat contará com um novo patamar de credibilidade para dialogar com os israelenses e impor reformas e reorganização das forças de segurança, de forma que há motivos para otimismo", disse o senador Sununu.

Javier Solana, diretor de política externa da União Européia, disse: "Este foi um dia muito bom. O momento é histórico". Ele prometeu mais ajuda européia à nova liderança.

As autoridades israelenses deixaram claro nos últimos dias que apóiam Abbas e que Sharon e seus principais ministros gostariam de se reunir com ele o mais rapidamente possível, após a posse. Os israelenses dizem estar dispostos a libertar mais prisioneiros palestinos e a falar com Abbas sobre um relaxamento das medidas de segurança em caráter mais permanente.

Sharon ficará fortalecido por um novo governo de união com o Partido Trabalhista e um pequeno partido religioso, que deve ser oficializada nesta segunda-feira.

O ministro da Defesa de Israel, Shaul Mofaz, disse na semana passada em uma entrevista que está disposto a deixar que uma nova liderança palestina assuma responsabilidade pela segurança na Faixa de Gaza e nas grandes cidades da Cisjordânia, tão logo essa liderança esteja pronta para a tarefa.

Mas Israel quer também que Abbas aja rapidamente no sentido de reorganizar os serviços de segurança e de reprimir os militantes palestinos que atacam o país e a sua população, conforme os palestinos prometeram fazer no primeiro estágio do plano de paz conhecido como "Mapa da Estrada". Os israelenses prometeram interromper as atividades relacionadas a novos assentamentos nos territórios palestinos ocupados.

Em um possível sinal de solidariedade com os palestinos que se opõem à eleição, no domingo a facção libanesa Hezbollah explodiu uma bomba sob um jipe de Israel que patrulhava a fronteira norte de Israel, matando um soldado israelense. Israel respondeu com disparos de artilharia e um bombardeio aéreo, e estava investigando relatos de que um membro da força de monitoramento das Nações Unidas teria sido morto devido à ação bélica. Novo líder substitui Iasser Arafat, morto em dezembro de 2004 Danilo Fonseca

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    -0,54
    3,235
    Outras moedas
  • Bovespa

    18h20

    -0,10
    74.518,79
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host