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10/01/2005

Compositor húngaro traz Franz Kafka como cantor

The New York Times
Jeremy Eichler

Em Nova York
Kafka e Kurtag. Essa parceria natural entre o escritor e o compositor comunica, com graça cheia de aliterações, uma condição espiritual sentida com profundidade e um clamor pela genuína expressão pessoal, através de tempos tão violentamente impessoais.

O compositor húngaro Gyorgy Kurtag nasceu em 1926, dois anos após a morte de Kafka. Mas, apesar de não serem exatamente contemporâneos, suas sensibilidades se entrelaçam num dos trabalhos mais completos de Kurtag, "Fragmentos de Kafka", para voz soprano e violino. Essa coleção de trechos curtos, inspirados nas cartas, diários e anotações de Kafka, será apresentada em Nova York, nos dias 10, 12 e 13 de janeiro, pela soprano Dawn Upshaw e pelo violinista Geoff Nuttall, numa nova montagem dirigida por Peter Sellars, como parte da série "Perspectivas em Upshaw", no Carnegie Hall.

Franz Kafka, o autor judeu tcheco que escrevia em alemão, dispensa maiores introduções. Mas Kurtag, vivo aos 78 anos, um recluso gigante da música contemporânea européia, não é tão conhecido assim nos Estados Unidos.

O corpo de sua obra, relativamente pequena, abrange música de superfícies ásperas e de ríspidas compressões emocionais. Ele é um mestre do aforismo, com sintéticas sequências de notas, cuja concisão weberniana pode encobrir vastas paisagens da mais escancarada e crua expressão pessoal. Ouvir a música de Kurtag é como observar o oceano pelo buraco de uma fechadura.

O concerto "Fragmentos de Kafka", concluído em 1987, é um dos mais extensos trabalhos de Kurtag, com quase uma hora de duração. É uma duração extenuante para uma música de tamanha concisão em sua capacidade de comunicação e de rígida honestidade. Imaginem se dispuséssemos 10 canções "normais" para recitais, e espremessemos suas essências emocionais num só concentrado, para depois servi-lo numa série de vigorosos e enxutos epigramas. Foi o bastante para afastar alguns ouvintes na sala de concertos de Tanglewood, em Boston, onde esse concerto foi apresentado em 1988.

A própria soprano Dawn Upshaw , falando recentemente de sua casa no condado de Westchester, em Nova York, disse que quando ouviu o concerto pela primeira vez, há alguns anos, atendendo a um pedido urgente de Sellars, ela o considerou quase impraticável: "Fiquei arrasada pela intensidade do trabalho, tanto pela obra de Kafka como pela resposta engendrada por Kurtag. Eu realmente não me sentia preparada para essa missão".

Ela então deixou o concerto um pouco de lado e foi conhecer outras obras compostas por Kurtag. Dawn também passou a ler mais a obra de Kafka, incluindo "Diários Azuis em Oitavo", de onde saíram vários dos textos dos "Fragmentos". Quando ela voltou aos "Fragmentos de Kafka", alguns anos depois, já estava totalmente tomada por eles: "O que eu inicialmente percebia como obscuro nessa obra, agora eu vejo como pureza e extrema clareza de pensamento".

Dawn Upshaw já trabalhou muitas vezes com Sellars. Ele recentemente a dirigiu na montagem de uma ópera do compositor finlandês Kaija Saariaho, "L'Amour de Loin", no Festival de Helsinki. Entre outros projetos dessa dupla, constam produções bem sucedidas de dois oratórios: "Theodora", de Handel e "El Nino" de John Adams. Segundo a cantora, depois desses anos todos de colaboração ela automaticamente confiou em Sellars quando ele sugeriu que os "Fragmentos de Kafka" estavam prontos para uma montagem.

Uma das idéias de Sellars era a de cercar cada um dos fragmentos com uma espécie de espaço negativo. Pausas, silêncios permitiriam espaços de respiração à música e daria aos ouvintes melhores possibilidades de absorver o poder concentrado dessa criação. Dawn Upshaw também poderia aproveitar melhor o tempo para se recuperar entre os fragmentos, já que as exigências técnicas do concerto- com mudanças radicais no andamento e na articulação - poderiam ser torturantes para uma cantora.

A parte do violino também não seria nem um pouco mais fácil. Geoff Nuttall, o carismático primeiro-violinista do Quarteto de Cordas de St. Lawrence, descreveu o concerto como "muitas vezes à beira do impraticável, com passagens das mais terríveis que já vi em termos de técnica instrumental".

Sellars planejava montar "Fragmentos de Kafka" já há mais de uma década, apesar de a obra não ter sido escrita especificamente para um palco.

"Kurtag é um compositor imensamente teatral", diz Sellars. "A carga dramática dele é como a de Beckett. É um teatro de contenções, de palavras e significados ocultos, de emoções ocultas, que irrompem inesperadamente, para depois sumirem sem vestígios".

Sellars revelou poucos detalhes sobre a montagem do Carnegie Hall, mas prometeu algo minimalista, que "se conecta, assim como Kafka, à textura do cotidiano". Dawn Upshaw até percebeu que poderia desempenhar tarefas mundanas, atividades domésticas como lavar prato enquanto canta ou mesmo entre os fragmentos do concerto.

O concerto está segmentado em 40 peças, com duração que varia entre menos de 20 segundos a mais de quatro minutos. Cada fragmento é composto por um trecho das anotações de Kafka, e todo esse ciclo apresenta flagrantes dos vários aspectos da obra desse escritor, alguns mais conhecidos que outros. Há descrições simples, porém evocativas, como o texto presente no segundo fragmento, que inclusive insinua a misteriosa capacidade que a música tem de esconder seus próprios desígnios: "Como uma clareira no outono, assim que ela é limpa, de novo lá está, com suas folhas secas".

Outros fragmentos são decididamente mais obscuros, nos fazendo lembrar de um Kafka mais familiar, aquele cronista mais direto da crueldade humana. Um dos fragmentos instaura uma frase inapelável: "Os transeuntes apenas olham, enquanto o trem está passando".

Há também olhares mais particulares sobre Kafka, o escritor tão obcecado em sua escrivaninha. Num dos trechos, a cantora soprano enuncia: "Não me permitirei ficar cansado. Mergulharei na minha história, ainda que machuque meu rosto". Numa observação semelhante, num texto dela que está em harmonia com o do escritor Kafka e o do compositor Kurtag, a soprano expressa em poucas palavras um sentimento radical e inapelável: "Minha prisão - oh, minha fortaleza".

Kurtag estabelece esses textos lapidares, cantados em alemão e que serão exibidos em inglês, com sensibilidade e vivacidade impressionantes, sem desperdício de uma nota sequer. A linha vocal é construída com agitação momentânea, às vezes atravessa violentamente intervalos gigantescos, às vezes cruza serenamente pelos conteúdos. No estonteante quinto fragmento, o violino suavemente apóia o fraseado vocal com um confortável naipe de cordas, enquanto a soprano enuncia "Agasalhe-se bem, ó sonho tão garboso, que abraça essa criança".

Por toda parte, o violino é muito mais que mero apoio. Não fica encobrindo o fraseado vocal com notas tranqüilizadoras porém sinistras , nem perturbando a paz com um som brutal, tonitroante e dilacerante. Em poucos fragmentos, depois que a voz se silencia, o instrumento já está lá, voando, por uma noite densa que oculta sons de Bartok.

No final das contas, o poder da música de Kurtag está presente em sua habilidade de comunicar suas emoções numa linguagem direta, rude e sem rodeios. Não há nada aqui de transcendente nem de místico; é uma demonstração de vanguarda de intelecto tenaz, mas também há um coração bem grande. A música reflete uma realidade fraturada e desencantada, profundamente honesta em relação a esse mundo refletido, e preservando a possibilidade de uma verdade bem pessoal.

Grande parte da música de Kurtag contém essas qualidades. Mas essa obra sobre Kafka tem como vantagem uma rara sinergia entre o escritor e o compositor. Embora tenha morrido em 1924, Kafka antecipou as condições do mundo que Kurtag habitou - o compositor permaneceu na Hungria sob o comunismo, até depois da revolução de 1956. Fosse por razões políticas ou pessoais, o ato de compor se tornou um processo extremamente desgastante para Kurtag, a ponto de ele entrar em silêncio por longos períodos, gahando a vida como professor.

Alguns dos trabalhos de Gyorgy Kurtag abordam, como tema explícito, os perigos e as emoções dos atos mais radicais e expressivos. Em "Samuel
Beckett: Qual é a Palavra?", uma atriz gaga tenta recuperar a voz, perdida num acidente automobilístico. Até mesmo nesses "Fragmentos de Kafka", há um texto, próximo ao final da obra, que compara o ato de se narrar uma história com o esforço de um criança que tenta seus primeiros passos. A música de Kurtag nesse momento insinua suavidade e vulnerabilidade impressionantes.

Esse é um momento profundamente intenso. Mas, não surpreendentemente, o que poderá ser o maior desafio na montagem dos "Fragmentos de Kafka" é a unificação de todas as suas partes disparatadas. O problema reflete uma tensão maior no concerto já que, afinal de contas, Kafka raramente escreveu em fragmentos. Sua força como escritor se ergue cumulativamente através de sua prosa calculada , infatigável e paciente.

De certo modo, Kurtag impôs sua própria estética fragmentada a um mundo cuja assustadora desintegração Kafka encobriu (e amplificou) com o impressionante equilíbrio e precisão de suas palavras, com a natureza não-fraturada das burocracias que seus personagens enfrentaram e com os semblantes impessoais que conceberam atos de crueldade e barbaridade.

Upshaw é justamente aclamada como uma intérprete corajosa da música contemporânea, e provavelmente será fascinante ver como ela se aproxima da música de Kurtag. De Sellars, por sua vez, podemos esperar algo emocionante e provocador. Numa conversa prévia, no entanto, ele rapidamente muda o foco dos refletores para sua vocalista.

"Dawn Upshaw está no auge do vigor como intérprete", conta o diretor. "Nesse trabalho, ela visita lugares raros. Chegamos a um momento em que o mundo precisa ouvi-la". Tcheco é autor de clássicos como "O Processo" e "A Metamorfose" Marcelo Godoy

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