UOL Notícias Internacional
 

11/01/2005

Acusações da CBS a Bush não têm fundamento

The New York Times
Bill Carter e

Jacques Steinberg

Em Nova York
Uma comissão independente criada pela rede de TV americana CBS para investigar o caso das reportagens sobre o serviço militar do presidente Bush na Guarda Nacional concluiu que a divisão de notícias da rede se precipitou ao colocar as reportagens no ar, em setembro, na ânsia frenética de suplantar os concorrentes.

O relatório diz ainda que a rede cometeu um erro ao não levar em conta as informações contraditórias surgidas não apenas antes de as matérias irem ao ar, mas também durante quase duas semanas após a exibição das reportagens.

Após divulgar um relatório de 224 páginas que lhe foi entregue pela comissão independente, Leslie Moonves, co-presidente e co-diretora de operações da Viacom, a subsidiária da CBS, anunciou nesta segunda-feira (10/01) que despediu Mary Mapes, a veterana produtora da rede, responsável pela preparação das matérias.

Moonves anunciou que está exigindo a renúncia de três executivos da CBS News que supervisionaram a reportagem. São eles Betsy West, vice-presidente e principal substituta de Andrew Heyward, presidente da CBS News; Josh Howard, que se tornou produtor-executivo da edição das quartas-feiras do programa "60 Minutes", apenas algumas semanas antes de a reportagem polêmica ter ido ao ar; e Mary Murphy, vice-produtora-executiva.

No seu relatório, os membros da comissão apresentaram evidências que, segundo eles, demonstram que Mapes enganou --ou pelo menos não informou de forma apropriada-- os seus superiores quanto à origem dos documentos ou aos resultados dos trabalhos para determinar a sua veracidade.

A reportagem, apresentada por Dan Rather, o âncora do programa "CBS Evening News" e correspondente da edição das quartas-feiras de "60 Minutes", tinha como objetivo levantar novas dúvidas quanto ao serviço militar de Bush na Guarda Nacional Aérea do Texas no início dos anos 70.

No decorrer das reportagens, foram apresentados quatro documentos, descritos como memorandos dos arquivos do comandante, sugerindo que o então tenente Bush recebeu tratamento preferencial.

"No que diz respeito às reportagens, o fato é que grande parte do que se colocou no ar em 8 de setembro era errado, incompleto ou injusto", disse Moonves, que é também presidente da CBS, em uma declaração. "Lamentamos profundamente o desserviço prestado ao povo norte-americano por essa falha do '60 Minutes'. O público tem o direito de exigir que a CBS News se paute pela justiça e pela precisão em tudo o que faz".

Os dois membros da comissão independente, Louis D. Boccardi, ex-diretor-executivo da "The Associated Press" e Dick Thornburgh, ex-procurador-geral dos Estados Unidos, disseram no seu relatório que não foram capazes se comprovar a autenticidade dos documentos nos quais a rede de televisão se baseou.

Em vez disso, eles identificaram uma seqüência de sinais de alerta durante a preparação das matérias, que, caso tivessem sido objetos de atenção, poderiam ter impedido que as reportagens fossem ao ar, ou pelo menos ter feito com que a sua divulgação fosse consideravelmente adiada. Os membros da comissão concluíram que houve pouca supervisão ou controles internos no âmbito da divisão de notícias da CBS.

"A investigação identificou rapidamente deficiências consideráveis e fundamentais relacionadas à divulgação e à produção da matéria de 8 de setembro e às declarações e reportagens que a ela se seguiram", escreveram os membros da comissão.

"Esses problemas foram causados basicamente por uma ânsia míope por parte da rede de ser a primeira organização de notícias a divulgar aquilo que se acreditava ser uma nova história sobre o serviço militar do presidente Bush na Guarda Nacional Aérea do Texas, e pela defesa rígida e cega do segmento após ele ter ido ao ar, apesar de numerosas indicações das suas deficiências".

Motivação política

No relatório, os autores pintaram um retrato da cultura empresarial da organização de notícias que contrasta intensamente com aquele do seu período de apogeu, quando a sua face conhecida pelo público era a de Edward R. Murrow, nos anos 50, e a de Walter Cronkite, no final dos anos 60 e início dos 70. Uma época em que a sua divisão de notícias era tida como a mais prestigiosa dentre as três principais redes de televisão.

Devido à natureza das alegações referentes a um presidente em exercício --e devido ao fato de Rather ser há muito tempo caracterizado pela direita como uma figura que periodicamente inclina o seu jornalismo para a esquerda--, os documentos que serviram de base para a matéria foram rapidamente injetados na campanha presidencial.

Embora os membros da comissão tenham dito que não encontraram evidências definitivas de que a rede preparou e divulgou a matéria com base em motivações políticas, eles citaram uma ocasião na qual Mapes "deu motivos para se acreditar que houve motivação política".

Enquanto a reportagem era divulgada, Mapes procurou os responsáveis pela campanha do senador John Kerry, o oponente democrata de Bush, e pediu que eles entrassem em contato com o ex-oficial da Guarda Nacional que mais tarde seria identificado como sendo a fonte dos documentos.

"A comissão averiguou esse episódio e descobriu certas ações que poderiam conferir apoio a tais acusações", escreveram os responsáveis pelo relatório. "No entanto, a comissão não pode concluir que uma agenda política no programa '60 Minutes' tenha determinado o momento da divulgação da matéria ou o seu conteúdo".

A comissão não criticou demasiadamente Rather. Apesar de reconhecerem que Rather foi pressionado até o limite quando trabalhou em partes da reportagem sobre a Guarda Nacional --ele chegou a deixar o local atingido pelo furacão Frances, na Flórida, para fazer uma entrevista importante--, eles o descrevem como um participante distraído que sequer viu a matéria completa antes de esta ter ido ao ar.

Rather anunciou em 23 de novembro que deixará o cargo de âncora e de editor do "CBS Evening News" em 9 de março, o 24º aniversário do dia em que sucedeu Walter Cronkite. Ele deverá se tornar correspondente das edições de quarta-feira e domingo do programa "60 Minutes".

À época, ele e Moonves frisaram que a sua saída do cargo não tinha nenhuma relação com a investigação conduzida pela comissão, embora Rather tenha reconhecido em uma entrevista que tentou fazer com que o anúncio da sua saída precedesse a divulgação do relatório.

A rede anunciou em 21 de setembro que encarregaria a comissão de investigar as falhas que possibilitaram que as matérias fossem ao ar. No mesmo dia, Rather e a CBS News identificaram um ex-oficial da Guarda Nacional como sendo a fonte dos memorandos --o seu nome é Bill Burkett-- e reconheceram não ser capazes de comprovar a autenticidade dos quatro documentos que o âncora e os seus produtores utilizaram como base principal para as reportagens.

Autenticidade

"Esse foi um erro que nós lamentamos profundamente", disse naquele dia, em uma declaração pública, Heyward, o presidente da CBS News. O fato de a rede ter admitido o erro representou uma reversão abrupta, após quase duas semanas nas quais Rather-- da sua mesa de âncora e nas suas entrevistas concedidas a outras organizações de notícia-- defendeu ferrenhamente a autenticidade dos documentos. Da mesa de apresentador ele afirmou que aqueles que criticavam os documentos eram "operadores político-partidários".

"A CBS News e eu garantimos a consistência e a precisão desses documentos, ponto", afirmou Rather, dois dias após a difusão da primeira matéria. "A nossa história é verdadeira".

A reportagem inicial do "60 Minutes" foi apresentada pela CBS como sendo um furo jornalístico por parte de Rather, que, aos 72 anos, parecia estar passando por uma improvável ascensão em sua carreira. No início do ano, ele e Mapes foram os primeiros jornalistas a revelarem as atualmente infames fotos dos abusos cometidos por militares norte-americanos na prisão Abu Ghraib, no Iraque.

Mas quase que imediatamente após a reportagem inicial ter ido ao ar em 8 de setembro --em uma versão abreviada no noticiário noturno, e, a seguir, de forma integral na versão da quarta-feira do "60 Minutes"--,os documentos passaram a ser alvos de ataques, especialmente de blogs.

Nas reportagens, Rather descreveu os documentos como memorandos retirados dos arquivos pessoais de um dos comandantes de Bush quando este era tenente da Guarda Nacional. Nos memorandos, o comandante, tenente-coronel Jerry B. Killian, pareceu indicar que Bush deixou de se submeter a um exame físico, contrariando as suas ordens. O tenente-coronel também pareceu sugerir ter sido pressionado a "suavizar" a sua avaliação do jovem tenente Bush devido à influência exercida por Bush Pai, à época um ex-parlamentar pelo Texas.

Os assessores de Bush garantiram que o presidente cumpriu com as suas obrigações militares. Mas o relatório oficial continha lacunas, incluindo questões relativas ao fato de Bush não ter feito um teste físico para piloto.

A maior crítica aos documentos --todos eles fotocópias, e nenhum dotado de um cabeçalho oficial-- foi feita por especialistas em impressão gráfica que garantiram que eles só poderiam ter sido escritos com um moderno processador de palavras. Rather, respondendo a esses argumentos em outras reportagens, apresentou outros especialistas que disseram que o material poderia ter sido redigido com máquinas de datilografar do início dos anos 70.

Quatro dias após a reportagem inicial ter sido publicada, Heyward disse: "Estou firmemente convencido de que os documentos são autênticos e as histórias verdadeiras".

E embora a CBS não tivesse dito inicialmente como obteve os documentos, Heyward afirmou na mesma entrevista: "Temos confiança no processo de custódia; na forma como garantimos a segurança dos documentos".

Mas a confiança exibida por Heyward e outros dirigentes da CBS acabou sofrendo abalos.

Dois especialistas em documentos que foram consultados pela CBS antes de as reportagens iniciais irem ao ar disseram, em entrevistas posteriores, que levantaram dúvidas quanto à autenticidade do material. Um deles, Marcel B. Matley, disse que só comprovou a autenticidade da assinatura do coronel Killian, e não a dos documentos como um todo. Em uma entrevista, ele não descartou a possibilidade de a assinatura do coronel Killian ter sido retirada de um outro documento e inserida nos polêmicos memorandos. Comissão conclui que reportagens usaram documentos inautênticos Danilo Fonseca

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