UOL Notícias Internacional
 

13/01/2005

Rebeldes matam funcionários eleitorais no Iraque

The New York Times
Christine Hauser

Em Bagdá, Iraque
Desconhecidos batem a sua porta à noite. Seus amigos pedem que não os visite. Ele não permite nem mesmo que seu primeiro nome seja divulgado. Esse jovem esquivo, um sunita de Bagdá, não é espião, nem criminoso. É um funcionário que está ajudando o Iraque a se preparar para a votação histórica nacional, marcada para o fim do mês.

Ameaçados, atacados, seqüestrados e assassinados, os membros da comissão eleitoral estão descobrindo que estar à frente do processo significa sobreviver a uma insurgência determinada em impedir a votação.

As coisas estão tão ruins que um dos membros da Comissão Eleitoral Independente, Adil Al Lami, comparou a vida dos funcionários a um movimento político clandestino. "Eles funcionam em um submundo", disse em entrevista.

Esse funcionário em particular disse que assume os riscos para servir ao país. "Há muitas pessoas que também lutariam pelo o que luto", disse, depois de terminar seu dia de trabalho recentemente. "Acredito na democracia."

Outros funcionários dizem que foram inspirados por pedidos de líderes religiosos para votarem e pela promessa de salário por alguns meses.

Por cerca de R$ 600 por mês, um excelente salário para o país, milhares de iraquianos, homens e mulheres, estão preparando as eleições de 30 de janeiro, para escolher uma Assembléia Nacional. Assim, organizam urnas, preparam panfletos explicativos sobre como votar, distribuem cartazes promovendo as eleições, trabalham com modelos de cédulas e enviam formulários de inscrição

Fumando nervosamente, sem parar, depois de seu expediente na Zona Verde altamente policiada no centro da cidade, o funcionário sunita pensava em seu próximo passo, lembrando dos perigos de passar pelas ruas da cidade onde seus colegas foram emboscados ou assassinados à luz do dia.

O sol ainda estava alto no céu, então decidiu pegar o caminho longo para casa. Assim, chegaria depois de a noite cair, na esperança que os homens que pareciam estar vigiando sua casa, do outro lado da rua, não o vissem chegar.

Não demorou muito para que seus perseguidores aparecessem, disse. Desde que aceitou o serviço, segundo sua mulher, homens estranhos começaram a ligar, chamando por ele. Bateram na porta da sua casa à noite duas vezes, por volta das 22h. Ele e sua família nunca responderam, e os homens foram embora.

"Minha família me pediu para me demitir", disse ele, tragando mais um cigarro. "Acho que vou fazer isso, assim como outros, com a aproximação das eleições."

Os mais de 6.000 funcionários das eleições em torno do país serão acrescidos de outros milhares, recrutados para o dia da votação, em contratos de um mês de cerca de R$ 600, para trabalhar em mais de 5.200 postos de votação, de acordo com a comissão eleitoral.

Em Bagdá, muitos funcionários das eleições estão trabalhando na Zona Verde, por trás de muros de concreto e guaritas de polícia. Para os milhares de outros nas províncias, há menos segurança.

A violência pré-eleição, entretanto, vem crescendo em toda parte e deve piorar. Funcionários foram atacados e mortos por insurgentes que também estão atingindo forças de segurança iraquianas e membros do governo que vêem como colaboradores dos militares americanos.

"Definitivamente, somos alvos dos terroristas", disse Muhammad, diretor de um escritório eleitoral no Iraque, que anda acompanhado de guarda-costas e pediu para ser citado apenas pelo primeiro nome, por questões de segurança.

Nesta semana, inúmeros ataques contra a comissão eleitoral e seus escritórios evidenciaram os perigos do setor. Na terça-feira (11/01), um homem-bomba atacou o escritório eleitoral em Basra, no Sul, mas só matou a si mesmo. Uma autoridade eleitoral foi seqüestrada em Baquba, ao norte de Bagdá. Militantes em Diyala atacaram a casa de outra autoridade eleitoral, Amed Majeed, segundo disse a polícia ao jornal Azzaman. Não houve baixas no ataque, que foi frustrado pelos guardas, disse Majeed.

Na terça-feira, o primeiro-ministro Ayad Allawi disse que "alguns bolsões" do Iraque serão perigosos demais para os eleitores, admitindo pela primeira vez a profundidade da situação.

A perspectiva de eleições é especialmente sinistra em áreas dominadas pela minoria sunita, cujos membros foram beneficiados durante o domínio de Saddam Hussein e que aparentemente estão liderando a insurgência.

Em Fallujah, no coração sunita, um número de funcionários eleitorais se demitiu nesta semana, de acordo com Lami, que trabalha no setor. "Alguns saíram porque foram ameaçados", disse ele. Bagdá enviou substitutos.

Muitos membros da comissão eleitoral disseram que nunca contam o que fazem aos seus vizinhos, amigos ou até familiares.

A intimidação parece estar funcionando. "Demiti-me agora por causa de todos os atentados e ameaças. É perigoso demais", disse uma jovem, advogada xiita, ex-diretora de um escritório eleitoral, ao deixar a sede da Zona Verde recentemente.

Ela disse que tinha entrado para o esforço porque, como advogada, era motivada pelo serviço público. Apesar de não ter sido pessoalmente ameaçada, ficou aterrorizada demais, disse ela.

Outro membro dos escritórios eleitorais em Bagdá, um sunita de 24 anos de Baquba, admitiu o perigo, mas disse que seria difícil encontrar outro emprego.

Um iraquiano disse que dormia no escritório, em vez de ir para casa. A única pessoa que sabe o que ele faz é sua mãe. "Só o que preciso é de ao menos uma pessoa que saiba no que eu acredito, caso eu perca a vida" disse o homem, que tem 20 e poucos anos.

Alguns funcionários e eleitores xiitas disseram ter sido inspirados pelo alto clérigo xiita aiatolá Ali Al Sistani, que apóia as eleições.

"Sempre haverá a possibilidade de uma bomba ou tiros, mas temos que votar de qualquer forma", disse Um Ahmed, 57, mãe da advogada que acaba de renunciar. "É isso que nossos líderes religiosos dizem que precisamos fazer, porque isso vai nos dar poder."

No entanto, ataques recentes em Bagdá aumentaram as incertezas quanto à segurança dos postos de votação no dia das eleições, e mais ainda dos funcionários nos dias anteriores às eleições.

Um dos ataques mais descarados e bem organizados a um membro da comissão eleitoral ocorreu no trânsito, há algumas semanas.

Atentado

Hatem Musawi, como outros membros da comissão, tentou manter um perfil discreto. Frequentemente viajava com guarda-costas e não contava a muitos sobre seu trabalho em um dos escritórios eleitorais de Bagdá. Ele estava sempre alerta. No entanto, no dia 19 de dezembro, de acordo com uma testemunha, Musawi estava sentado no banco ao lado do motorista. Três homens, inclusive os guarda-costas, estavam no banco de atrás. Quando se aproximaram do cruzamento, viram jovens rapazes na rua, que pareciam ser adolescentes.

Os jovens pararam o carro e pareceram reconhecer que os ocupantes trabalhavam nas eleições. Um dos jovens tirou uma arma do bolso da jaqueta e atirou duas vezes para cima. Repentinamente, uma segunda linha de atacantes se formou, composta por homens que estavam esperando na esquina, de acordo com testemunha, que falou sob condição de anonimato por medo.

O segundo grupo levava metralhadoras escondidas. Alguns jogaram granadas. Um dos guarda-costas, Sami Moussa, saiu do carro e atirou com uma pistola. Ao final do ataque, Moussa, Musawi e outro funcionário, Mahdi Subeih, estavam mortos.

Duas semanas antes, no distrito de Mansour, em Bagdá, homens mascarados atacaram o escritório eleitoral com pistolas e metralhadoras, matando três pessoas e ferindo uma quarta, que morreu posteriormente.

Os ataques revelam as únicas circunstâncias nas quais os nomes de muitos trabalhadores das eleições do Iraque podem ser publicados: na morte, quando aparecem nos obituários dos jornais. Depois das mortes, a comissão eleitoral publicou uma nota nos jornais dizendo que os homens tinham se tornado "mártires", desenvolvendo uma missão "sagrada". Os trabalhadores são hostilizados por insurgentes e pelos clérigos Deborah Weinberg

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