UOL Notícias Internacional
 

14/01/2005

Tsunami faz cidade inteira desaparecer na Ásia

The New York Times
Ian Fisher

Em Calang, na Indonésia
Esta cidade não foi apenas destruída. Ela desapareceu, quase inteiramente. Após quase três semanas, apenas 323 corpos foram encontrados. Antes de 26 de dezembro, quando o maremoto a varreu vindo de ambos os lados da bela península tropical que antes embalava Calang, 7.300 pessoas viviam aqui. Não há sinal das 5.627 pessoas desaparecidas, e a realidade que desponta é que 8 em cada 10 pessoas de Calang foram levadas sem deixar rastros.

"Parece impossível", disse um estudante daqui, Suhardi, 20 anos, ainda atônito.

As ondas deixaram pouco para trás, nem pessoas e nem casas. Não resta quase nada para se ver. Fundações de concreto foram expostas. Há alguns escombros, apesar de bem menos do que poderia se esperar dado que cada casa, cada café, restaurante e mesquita foi derrubado, exceto a mansão de um homem rico, agora um esqueleto de dois andares de paredes parciais e colunas brancas.

"Só restou uma", disse o coronel Ikin Sodikin, um oficial do exército indonésio, enquanto apontava para a única casa restante. Ele riu em resignação, como as pessoas às vezes fazem diante de coisas que ninguém realmente consegue entender. "Toda Calang simplesmente desapareceu."

Calang é uma das muitas aldeias na costa oeste da província de Aceh que foram riscadas do mapa da Indonésia, onde o sofrimento nas áreas mais próximas do epicentro do terremoto foi aumentado pelo seu isolamento. Na aldeia seguinte ao sul, Kreung Sabe, metade dos habitantes da cidade morreu, e fora 500 das 4.400 pessoas que viviam lá antes do maremoto, todas estão desabrigadas. Elas agora precisam caminhar cerca de 11 quilômetros até um porto onde são distribuídos suprimentos de ajuda, mas eles dizem que ainda não há alimentos e medicamentos suficientes.

Ao sul dali, uma aldeia de pescadores chamada Panga e três outras vizinhas foram totalmente arrasadas, não restando nenhuma casa em pé. Em Panga, 793 dos 1.108 habitantes morreram, disseram líderes locais, em um local sem pista de pouso, sem portos e com as estradas totalmente destruídas. Levou uma semana para que a primeira ajuda chegasse aqui. Talvez 100 corpos, disseram os soldados, ainda estejam espalhados no pântano.

"Eu tenho encorajado as pessoas a irem buscá-los", disse o tenente coronel Reza Utama, que perdeu 20 de seus homens dispostos aqui. Mas não foram entregues sacos de corpos ou luvas de borracha, e assim, disse Utama, "as pessoas estão um tanto relutantes".

Este trecho da costa sudoeste da capital regional, Banda Aceh, também devastada pelo maremoto, parece ter sofrido as piores perdas proporcionais em 26 de dezembro. Este também foi um dos últimos locais a receber ajuda. E tal assistência, quase três semanas depois, parece tanto heróica quanto insuficiente.

As pessoas reclamam de sobreviver apenas com arroz e macarrão instantâneo. Um líder local em Panga, chamado Ismaelis, disse que as crianças estavam sofrendo de febre, vômito e diarréia.

"Nós não nos importamos em sermos órfãos se a ajuda estiver chegando", disse Sharudin, 18 anos, que perdeu seus pais e quatro irmãos quando as ondas arrasaram Calang. "Se a ajuda não vier, seria melhor se tivéssemos morrido com nossos pais."

Mas não é por falta de tentativa: helicópteros militares americanos, navios e aeronaves indonésias, juntamente com uma flotilha de embarcações privadas de ajuda estão chegando à maioria dos locais. (Um diretor de ajuda informou ter encontrado uma aldeia perto de Panga, na quarta-feira, onde os moradores disseram que não viram nenhuma ajuda externa.)

Mas a devastação é grande demais, o número de necessitados imenso, e grande parte do território é acessível apenas por helicóptero. Na quarta-feira, duas embarcações de ajuda viraram, disseram moradores, na costa traiçoeira de Panga.

Ausência de cadáveres

"É muita gente em alguns locais realmente remotos, que não são acessíveis", disse Maurice Knight, da empresa privada de consultoria International Resources Group, de Washington, D.C., durante uma viagem de barco nesta semana ao longo da costa, como parte de seu trabalho de coordenação da ajuda entre os governos americano e indonésio, assim como dos grupos privados de ajuda. "Eu acho que o fato é que a escala terá que ser aumentada, e isto levará dois meses."

Mas o tempo não é ilimitado: Rick Brennan, o diretor de saúde do grupo de ajuda International Rescue Committee, disse que chegaram suprimentos suficientes para manter as pessoas basicamente alimentadas e com saúde. Não há sinais de crianças desnutridas ou surtos de doenças graves como cólera.

Mas ele estimou que 80% das crianças sofreram de diarréia, e o saneamento no campos de refugiados cada vez mais lotados está longe de ser adequado para assegurar a saúde ou prevenir grandes surtos de doenças.

"Do ponto de vista humanitário, nós precisamos agir rapidamente", disse ele.

Talvez mais do que em qualquer outro lugar atingido pelo maremoto, o foco aqui é direcionado aos vivos --em entregar alimentos e medicamentos aqui mais rapidamente, em esboçar planos para estabelecer os desabrigados em campos de refugiados seguros, limpos e acessíveis.

E talvez mais do que qualquer outro lugar, não há opção a não ser pensar nos vivos, porque poucos mortos foram encontrados. Diferente de outros lugares, não há valas comuns nesta cidade, nenhuma patrulha encontrando dezenas de corpos por dia. Os poucos corpos que foram encontrados foram enterrados em pequenos grupos próximos de onde jaziam.

Zulfian Ahmad, 53 anos, o governador da província ao redor de Calang, não encontrou nenhum vestígio de sua esposa e de quatro de seus cinco filhos, perdidos enquanto ele estava em Jacarta a negócios. Ele não encontrou nenhum de seus vizinhos, nem mesmo alguém de sua rua.

"Famílias estão tentando encontrar seus parentes", disse ele, sentado em uma esteira dentro de uma tenda onde montou um escritório improvisado, completo com máquina de escrever e pilhas de papel. A tenda vizinha foi montada sobre a fundação vazia de sua casa. "Mas o governo acredita que estão mortos", ele continuou. "Então temos que nos concentrar nos refugiados."

A destruição foi tão completa que é difícil encontrar alguém que viveu em Calang entre a multidão de refugiados amontoada aqui na praia, enfumaçada pelas fogueiras, enquanto separam pilhas de roupas doadas e aguardam por rações de alimentos.

Um homem de uma aldeia próxima contou uma história semelhante de outras ao longo desta costa: de um terremoto de força tremenda, de um mar que recuou e repentinamente voltou com fúria. Perto de Calang, ele disse, ele assistiu a três ondas do topo da colina para onde fugiu com sua família.

"Quando as ondas vieram, os coqueiros foram partidos como uma batata chip em sua mão", disse ele.

A primeira onda, ele disse, foi "rápida e dura", destruindo árvores e casas. A segunda foi menor, ele disse.

"A terceira foi a maior, e simplesmente varreu tudo", disse ele.

Ondas de todos os lados

Em Calang, antes um ponto de parada para turistas verem orangotangos, ursos e tigres, a geografia pode ter sido um motivo para a destruição. A cidade ficava situada em uma península, e as pessoas daqui disseram que as ondas vieram de ambos os lados, arrastando algumas pessoas para o interior, mas a maioria delas simplesmente para o mar.

Em tal mar, grupos de meninos começaram a nadar novamente, se lançando audaciosamente contra as ondas e se pendurando nas grandes cordas que amarram dois navios militares indonésios estacionados aqui, para manutenção da ordem e supervisão da operação de ajuda. Se eles têm medo, eles não dizem.

"Eu não vejo nenhum corpo morto", disse um menino, Yuli, que disse ter 12 anos mas que parecia ter 8.

Um menino mais velho, Wande, 14 anos, os assistia na água de não muito longe.

"Sabe como é, eles sabem que pessoas morreram, mas estão traumatizados", disse ele. "Eles não querem falar a respeito. Eles só querem brincar." Casas e prédios foram destruídos; nem os cadáveres foram achados George El Khouri Andolfato

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