UOL Notícias Internacional
 

15/01/2005

Acidente com submarino na Ásia mata 1 e fere 60

The New York Times
Christopher Drew

Em Nova York
Os marinheiros do San Francisco, um submarino nuclear de ataque, tinham acabado de limpá-lo no sábado passado, enquanto ele acelerava a 500 pés abaixo da superfície do Pacífico Sul. Os submarinos navegam às cegas, apenas escutando os sons de perigo. E para o capitão e outros oficiais que contam com os mapas de navegação submarina, tudo parecia em ordem.

De repente, ocorreu um som estridente horrível. E, segundo um e-mail escrito por um membro da tripulação, o interior do submarino rapidamente passou a lembrar uma cena do filme "The Matrix". Ele escreveu que "tudo desacelerou e levitou, e então passou a voar para frente mais rápido do que o cérebro pode processar".

O submarino bateu de frente contra uma montanha submarina que não estava nos mapas. Agora, funcionários do Departamento de Defesa disseram que encontraram uma imagem de satélite tirada em 1999, que indica uma montanha submarina se erguendo até talvez 100 pés abaixo da superfície naquele ponto.

Mas os mapas de navegação mais velhos fornecidos para a Marinha nunca foram atualizados para mostrar o obstáculo, eles reconheceram, em parte porque a agência de defesa que os produz não dispõe de recursos para utilizar sistematicamente os dados de satélite.

Os funcionários disseram que o principal mapa no submarino, preparado em 1989 e nunca revisado, não mostrava nenhum obstáculo potencial em um raio de 5 quilômetros da colisão, que matou um marinheiro e feriu outros 60. Eles disseram que a colisão violenta aconteceu em uma área tão desolada --580 quilômetros a sudeste de Guam-- que a atualização da descrição do terreno submarino nunca foi considerada uma alta prioridade.

A nova informação sobre as falhas de mapeamento também ilustra o que muitos especialistas dizem ser um risco mais amplo não apenas para os submarinos, mas também para muitos navios na superfície. Ao mesmo tempo, fornece um vislumbre da difícil tarefa de traçar um mundo submarino que, em algumas áreas, é ainda mais misterioso do que as superfícies de Marte ou Vênus.

Mas uma série de dados de satélite agora está mostrando que muitos mapas marítimos, incluindo alguns que ainda empregam anotação da época em que os marinheiros se orientavam pelas estrelas, são imprecisos. E alguns cientistas estão pedindo por um maior uso de dados de satélite para determinar mais precisamente a localização de cumes submarinos, ilhas e até mesmo fronteiras continentais, além de mapear grande áreas dos oceanos sobre as quais pouco se sabe.

As mais recentes descobertas apóiam o relato do oficial de comando do San Francisco, de que os mapas mostravam que seu caminho estava livre. Mas ex-capitães de submarino disseram que os investigadores da Marinha provavelmente examinarão se ele foi prudente ao viajar em um velocidade tão elevada, 30 nós, dada a idade e falta da informação.

Mapas desatualizados

Os funcionários disseram que o principal mapa do submarino foi preparado pela Agência de Mapeamento da Defesa em agosto de 1989. Tal agência foi posteriormente absorvida pela Agência Nacional de Inteligência Geoespacial (NGA), uma parte do Departamento de Defesa que fornece mapas terrestres, submarinos e inteligência geográfica para as forças de combate do país.

Chris Andreasen, o hidrógrafo chefe do Escritório de Navegação Global da NGA, reconheceu em uma entrevista que no local da colisão "não era indicado nada que poderia representar um risco".

Mas desde o acidente, ele disse, seu escritório examinou imagens disponíveis comercialmente, obtidas pelo satélite Landsat em 1999, e pelo menos uma imagem de satélite indica que uma montanha submarina poderia se erguer até uma proximidade de 100 pés da superfície naquele local. Os analistas disseram que as variações na cor da água às vezes indicam uma massa de terra abaixo.

Andreasen disse que sua agência nunca usou sistematicamente imagens de satélite para atualizar mapas submarinos, apesar de recentemente ter começado a usar imagens para ajudar a determinar as fronteiras de ilhas e outras massas de terra. Ele e outros funcionários disseram que o quadro de funcionários do escritório de mapeamento encolheu nos últimos anos, e que a Marinha nunca pediu para que se concentrassem na área ao sul de Guam, apesar da base local ter começado a receber submarinos em 2002.

Atuais e ex-oficiais da Marinha disseram que o principal foco durante a Guerra Fria era o mapeamento das áreas do Pacífico Norte e das águas do Ártico, onde submarinos de vigilância e de mísseis protegiam contra um ataque soviético. De lá para cá, a Marinha tem tentado melhorar os mapas das águas costeiras mais rasas no Oriente Médio e outras áreas.

Andreasen disse que desde que os satélites de posicionamento global (GPS) começaram a entrar em amplo uso no início dos anos 80, a Marinha e os navios comerciais dispõem de uma forma mais precisa para corrigir suas posições e as coordenadas de ilhas, vulcões submarinos e outras partes de cumes de montanhas gigantes que saltam do solo do oceano.

"O GPS está mudando o mundo", disse ele.

À medida que os navios informavam tais coordenadas, os escritórios de mapeamento marítimo ao redor do mundo descobriram que muitas ilhas estavam "talvez um quilômetro ou dois fora de posição" em mapas amplamente usados, disse ele. Assim, ao longo do ano passado, sua agência tem usado as imagens do Landsat para atualizar os limites das fronteiras de muitos países.

Mas Andreasen e outros cientistas disseram que apesar dos interesses da marinha mercante terem ajudado a mapear as costas do mundo e a maioria das rotas mais comuns no oceano, grandes áreas das profundezas do oceano continuam pouco mapeadas.

David T. Sandwell, um professor de geofísica do Instituto Scripps de Oceanografia, em La Jolla, Califórnia, disse que cerca de 40% dos oceanos continua "muito, muito mal mapeado, e tais áreas se encontram na maioria no Hemisfério Sul".

Apesar de muitos mapas marítimos incluírem obstáculos e elementos avistados por embarcações comerciais, navios da Segunda Guerra Mundial e até mesmo por exploradores do século 19, os melhores são feitos por navios de pesquisa que usam raios de som para criar fotos detalhadas do terreno submarino. Mas a Marinha possui apenas sete destes navios, e há tão poucos existentes para águas profundas que os cientistas dizem que seriam necessárias décadas para poderem mapear amplamente o restante dos mares.

Como resultado, Sandwell e outros sugeriram que o governo faça mapeamentos brutos de mais áreas com outro tipo de satélite -um que usa radar para medir variações na altura do oceano e que pode sinalizar se há montanhas abaixo.

Sandwell disse que as leituras obtidas por um destes satélites, em meados dos anos 80, indicam a possibilidade de haver uma montanha submarina no local da colisão do San Francisco. Mas ele disse que a margem de erro em tais estudos era grande demais para serem conclusivos. E Andreasen disse que grande parte dos dados de satélite eram vagos demais para um mapeamento preciso.

Andreasen disse que o principal mapa utilizado no submarino mostrava que as únicas preocupações estavam em uma pequena área de água descolorada, apontada a 5 quilômetros do local da colisão, e recifes de coral a cerca de 16 quilômetros de distância.

Anotações no mapa indicavam que a água descolorada foi mencionada em um mapa britânico em 1963, e Andreasen disse que a nota poderia remontar até mesmo a Segunda Guerra Mundial. Ele disse que a descoloração poderia ser apenas uma perturbação temporária, ou poderia ser um indício da montanha submarina.

Outras anotações sugerem que alguns navios informaram profundidades de 5 mil a 6 mil pés nas proximidades. Mas Andreasen disse que poucos navios comerciais utilizaram a área e que "ela nunca foi investigada sistematicamente".

E-mail de tripulante

Oficiais da Marinha se recusaram a comentar, dizendo que estão investigando o acidente. O submarino partiu de Guam na sexta-feira, 7 de janeiro, e estava seguindo para Brisbane, Austrália. A Marinha disse que 23 dos marinheiros ficaram feridos gravemente, e oito pareciam ter ossos quebrados.

O e-mail do marinheiro foi enviado para várias pessoas envolvidas com submarinos, e enquanto circulava dentro da comunidade de submarinos, uma pessoa forneceu uma cópia para The New York Times.

O marinheiro escreveu que muitos tripulantes estavam almoçando na hora da colisão, que danificou seriamente o submarino. Ele disse que vários marinheiros sofreram "ferimentos feios na cabeça" e homens na sala das máquinas se chocaram contra "muito metal e pontas afiadas".

Mesmo assim, ele disse, a equipe de controle de danos do submarino "trabalhou de forma impecável, apesar de também estarem feridos".

A mensagem também disse que o submarino teve sorte de contar com um médico adicional a bordo, e que seu médico principal, conhecido como "corpsman", não dormiu durante os dois dias de viagem de volta ao porto.

A Marinha disse que o suboficial de segunda classe, Joseph A. Ashley, de Akron, Ohio, ficou inconsciente com uma pancada durante a colisão e morreu no dia seguinte devido a graves ferimentos na cabeça. O e-mail disse que outros marinheiros ficaram surpresos pelo corpsman "ter conseguido mantê-lo vivo por tanto tempo". Embarcação bate em montanha submersa não indicada em mapa George El Khouri Andolfato

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