UOL Notícias Internacional
 

15/01/2005

Eleição pode aumentar influência do Irã no Iraque

The New York Times
Erik Eckholm*
Em Basra, Iraque
Nesta maior cidade do Sul xiita do Iraque, quase todo mundo pretende votar nas eleições nacionais no dia 30 de janeiro, e a maior parte espera que a coalizão liderada pelos enormes partidos religiosos xiitas vençam belamente.

Pode parecer uma época de regojizo para os xiitas em Basra, já que é provável que sua maioria oprimida, finalmente, conseguirá seus direitos. Importantes líderes xiitas expressam confiança em suas perspectivas e em sua habilidade de atender outros grupos.

No entanto, há também pelas ruas desta grande cidade cheia de lixo suspeitas e discórdia. Quando as pessoas falam de política, freqüentemente discutem rumores e acusações de perfídia trocadas entre facções xiitas:

Será que há agentes iranianos por trás da tentativa de assassinato de um líder xiita no último final de semana? Será que a Brigada Badr, supostamente a milícia do maior partido, ainda é um poder secreto? Será que os seguidores impacientes do clérigo renegado Muqtada Al Sadr permanecerão pacíficos?

Virtualmente todos xiitas iraquianos veneram o grande aiatolá Ali Al Sistani, e a maior parte diz que atenderá sua ordem de votar. Os principais partidos xiitas, concorrendo sob sua sombra, negam as suspeitas de guerrilheiros iranianos ou secretos, dizendo que são fofocas que se evaporarão com o tempo.

"O Iraque está na idade das trevas, e a transição das trevas para a luz leva tempo e tem seu preço", disse Salah Al Mussawi, chefe do Conselho Supremo da Revolução Islâmica do Iraque. Seu partido, conhecido como Sciri, é o maior grupo da coalizão favorita, a Aliança Iraquiana Unida.

Até certo ponto, as divisões enervantes aqui representam o espectro natural de uma enorme comunidade que envolve o secular e o devoto; os que ficaram durante os anos de Saddam Hussein e os que viveram no exílio; os que estão formando um novo estabelecimento e as legiões de jovens desempregados e frustrados.

A grande questão, tanto para Basra como para o Iraque como um todo, é se esses ressentimentos podem ser canalizados para a política comum, como esperam as autoridades americanas e principais líderes, ou se entrarão em ebulição, com um violento conflito partidário.

Talvez a questão mais delicada para os xiitas seja as relações com Al Sadr e seus homens, um grande grupo armado que se sente profundamente alienado e teve atritos com outros xiitas no passado.

Os partidários de Al Sistani lembram-se amargamente do assassinato de um alto clérigo, o xeque Abdel Majid Al Khoei, 50, quando voltou do exílio para Najaf, no início de 2003. Os seguidores de Al Sadr foram presos e foi emitido um mandado de prisão para o próprio Al Sadr.

Os seguidores de Al Sadr, por sua vez, dizem que não vão esquecer a falta de apoio que tiveram dos principais partidos xiitas no ano passado, quando combateram as tropas americanas e britânicas.

Basra, apesar de não ser pacífica segundo os padrões normais, apresentou nos últimos meses menos violência política do que no Iraque central. Os tiros ouvidos à noite, segundo observam as pessoas, podem ser de gangues criminais ou tribos em guerra, não de guerrilheiros.

Mas as tensões aumentaram nesta semana, depois de três carros-bomba --dois deles contra instalações da polícia e um contra a casa de um político islâmico. Ninguém morreu além dos suicidas.

Quase todo mundo em Basra parece acreditar que esses foram o aviso de abertura de uma campanha contra as eleições por militantes sunitas invasores.

Líderes xiitas, até agora, responderam com equanimidade.

"Apesar de alguns incidentes aqui e ali, acreditamos que 90% das pessoas votarão", disse Mussawi, em entrevista. "Aqui em Basra nossa aliança não tem competidor de fato."

Entretanto, fortes tensões entre xiitas vieram à tona no último final de semana, depois que atiradores vestidos com uniformes da polícia tentaram assassinar o líder xiita secular, Majid Al Tamimi.

Tamimi ficou ferido, mas sobreviveu, escondido pelo corpo de um de três guardas mortos. Ele fugiu para o Kuwait para tratamento e segurança. Tamimi é membro do conselho da cidade, engenheiro e líder de uma chapa nas eleições que denomina seus membros orgulhosamente de "tecnocratas".

Ele não poupou palavras. Em uma conferência telefônica irada com seus colegas membros do conselho --alguns deles alvos implícitos de suas alegações-- e em uma entrevista em seu quarto de hospital, ele acusou o serviço secreto iraniano pelo atentado, que estaria trabalhando com elementos locais da Brigada Badr.

"Os iranianos têm uma lista de pessoas marcadas para morrer, e eu era o número um", disse em entrevista. Salem Al Husseiny, dirigente local do partido islâmico Dawa, segundo maior grupo xiita e um dos quais Tamimi afirma estar sob a influência traidora iraniana respondeu: "Al Tamimi é meu amigo, mas está tendo uma reação histérica."

A questão da influência iraniana é potente no Iraque. No Sul, que como o Irã é majoritariamente xiita, as relações com o Irã são mais complexas, mas mesmo assim provocam divisões.

São extensos os laços religiosos e pessoais com o Irã. Ao mesmo tempo, os moradores de Basra se lembram com horror do bombardeio de sua cidade pelo Irã, durante a guerra Irã-Iraque dos anos 80, e alguns perguntam se os ex-exilados não dividiram sua lealdade.

Mussawi, diretor local do Sciri que fugiu para o Irã em 1979 e dirigiu operações guerrilheiras contra o governo de Saddam, disse: "Basra agora é governada pelo povo iraquiano e ninguém mais. Não vamos permitir interferência do Irã ou de outro país."

Tentando conter temores de que a milícia do Sciri, a Brigada Badr, detém um poder secreto, Mussawi salientou que a milícia foi convertida e batizada Organização Badr de Desenvolvimento e Reconstrução. Os teóricos de conspiração observam que o atual governador de Basra e várias autoridades eram líderes da brigada. Mas antigos membros da milícia ajudaram a polícia a combater os saques em Basra após a invasão americana, disse ele. Algumas vezes ainda, ele admitiu, "se a polícia pede nossa ajuda, nós ajudamos."

Uma grande questão em Basra, como em outros centros xiitas, é a força e as intenções de Muqtada Al Sadr. A milícia agora está silenciosa. Apesar de alguns simpatizantes fazerem parte de chapas dos partidos, a organização de Al Sadr está oficialmente fora das eleições. No entanto, entre os clérigos de turbante branco do escritório de Al Sadr em Basra, é palpável uma mistura populista de sentimentos anti-Irã e anti-instituições.

"Os outros partidos xiitas estão adotando posições boas para seus interesses, mas não para o povo", disse o xeque Assad Al Basri, chefe do escritório. "Sua popularidade atual com o povo é quase zero."

"Alguns dos líderes dos outros partidos nem lêem árabe", disse ele, um golpe nada sutil aos que amadureceram no exílio. "Essas pessoas passaram longo tempo no Irã e isso gera suspeitas."

Outra incógnita eleitoral em Basra é o grau de apoio ao primeiro-ministro secular, Ayad Allawi, que é admirado aqui pela repressão aos militantes sunitas em Fallujah e outros locais. Algumas pessoas mais educadas, como Areen Adel Saleem, proprietário de uma farmácia, dizem que vão votar nele e que sua chapa talvez ganhe.

"Allawi é sério, e precisamos de alguém como ele", disse Saleem na frente de sua casa, no bairro nobre de Mannawi Pasha.

Ele estava jogando fora estilhaços de metal e vidro, espalhados em sua residência na noite anterior por um carro suicida que explodiu na casa ao lado. O alvo aparente, um membro islâmico do conselho da cidade, não estava em casa na hora da explosão.

Saleem disse que estava animado em votar: "É nossa chance de criar um novo sistema político". Os que boicotarem "vão perder sua chance e vão se arrepender".

*Colaborou Fakher Haider, do Kuait. Xiitas, antes perseguidos por Saddam, mantêm laços com o vizinho Deborah Weinberg

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