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15/01/2005

Nave chega a Titã e envia fotos da lua de Saturno

The New York Times
John Noble Wilford

Em Darmstadt, Alemanha
Nesta sexta-feira (14/01), uma espaçonave européia mergulhou na atmosfera obscura de Titã, uma lua de Saturno, e pousou com sucesso em uma paisagem bizarra de mistério, nunca antes explorada.

Astrônomos expressaram alegria diante do feito do primeiro pouso na lua de outro planeta, particularmente Titã, a única lua no sistema solar com uma atmosfera significativa.

A primeira foto da espaçonave Huygens não fez nada para minar a reputação de Titã como um local estranho. A foto mostrou um terreno que parecia conter canais profundos que levavam à costa de uma superfície escura, plana, possivelmente um dos supostos lagos de metano líquido de Titã.

A foto, tirada de uma altitude de 16 quilômetros, foi uma prévia das fotos coloridas melhor processadas que deverão ser divulgadas no sábado, disse o dr. Martin Tomasko, da Universidade do Arizona, um especialista de imagens da missão.

A nova fotografia coroou o memorável encontro direto com um corpo que é considerado um modelo para os primórdios da Terra. Ao longo do dia, o estado de espírito dos diretores da Agência Espacial Européia passou de ansiedade antes da espaçonave Huygens atingir a atmosfera de Titã, ao alívio quando o sinal de rádio indicou que tudo estava bem e, finalmente, ao júbilo com a chegada dos dados contendo medições da complexa química de hidrocarbonos da lua e fotos do mundo sob a névoa que o envolve.

Durante a tarde, às 15h13 hora local (11h13, horário da Costa Leste dos Estados Unidos), os vivas tomaram conta do Centro Europeu de Operações Espaciais, à medida que chegavam os dados científicos e de engenharia, considerados com o selo de sucesso da missão.

"Nós claramente tivemos sucesso", disse o dr. Jean-Jacques Dordain, diretor-geral da Agência Espacial Européia. "Este é um sucesso fantástico para a Europa."

Apesar da espaçonave Huygens fazer parte da missão Cassini a Saturno, de US$ 3,2 bilhões e em parceria com os Estados Unidos, os europeus a viam com um empreendimento de engenharia particularmente difícil, cujo sucesso poderia elevar sua reputação como um grande detentor de tecnologia espacial.

A espaçonave Cassini, construída pelos americanos, pode ter levado a Huygens até o limiar de seu feito, mas a espaçonave construída na Europa e dirigida daqui estará para sempre associada ao primeiro pouso de um veículo na lua de outro planeta.

É um feito que, como colocou o dr. David Southwood, o diretor dos programas científicos da agência espacial, "provavelmente não será repetido no tempo de vida de qualquer um vivo atualmente --de forma que este é realmente um evento histórico".

Das evidências iniciais de sinais de rádio aos primeiros dados científicos e de engenharia, a Huygens entrou na densa atmosfera no horário, por volta das 11h13 da manhã, e no ponto exato, com todos os instrumentos científicos funcionando e coletando observações ao longo de toda a descida. O pouso ocorreu aparentemente por volta das 13h30. Mas o sinal de rádio da nave persistiu até muito além do que os engenheiros previram para término de sua bateria.

O dr. Jean-Pierre Lebreton, o diretor da missão Huygens, ficou surpreso com a persistência do sinal por mais de cinco horas, mais tempo do que o esperado e o primeiro indício claro de que a nave pousou intacta. Tais sinais eram mais com um sinal de discagem telefônica do que uma mensagem de dados científicos.

A natureza do local de pouso não ficou imediatamente clara, dependendo de análise das fotos. Algumas das melhores fotos coloridas, processadas para ampliar detalhes, devem ser divulgadas na manhã de sábado. Mas um cientista disse que a longa duração do sinal de rádio poderia descartar o pouso nos supostos lagos de metano e etano, porque a nave poderia ter afundado no líquido. Assim a Huygens, disseram os cientistas, pode ter pousado em um plano sólido de gelo ou em um trecho de breu viscoso.

Ainda não está exatamente claro onde a nave pousou. O alvo era uma ampla região no hemisfério sul da lua, que tem o tamanho de um planeta. Um instrumento para medição da velocidade do vento, disseram os cientistas, poderá mostrar se os ventos arrastaram a nave para fora de curso em dezenas de quilômetros.

Os preparativos para a missão Cassini tiveram início em 1981, como uma exploração abrangente de Saturno, seus anéis e sua família de mais de 30 satélites, entre os quais Titã, um corpo maior do que os planetas Mercúrio e Plutão. A missão, após as descobertas provocantes da espaçonave Voyager, que sobrevoou o planeta para um breve olhar, foi planejada para durar pelo menos quatro anos, mas o mergulho na atmosfera de Titã provavelmente foi seu feito mais ousado.

A espaçonave em forma de disco de 317 quilos foi batizada em homenagem ao astrônomo holandês do século 17, Christiaan Huygens, que descobriu Titã. A nave Cassini, de sete toneladas, transportou a nave menor acoplada ao longo da jornada de sete anos, para se tornar a primeira espaçonave a orbitar Saturno desde o verão passado. Em dezembro, a Cassini liberou sua passageira, Huygens, para sua viagem solo de 4 milhões de quilômetros até Titã.

Por 22 dias, a Huygens viajou em completo silêncio para preservar a energia de sua bateria. Três relógios internos mantiveram a contagem do tempo e um comando programado despertou a nave. Seus instrumentos e sistema de comunicação foram checados antes do momento da entrada na atmosfera superior de Titã, a cerca de 1.900 quilômetros acima da superfície.

Enquanto isso, a espaçonave Cassini se posicionava, a mais de 64 mil quilômetros de distância, para receber as mensagens de rádio da Huygens e retransmiti-las para as antenas na Terra. A Cassini então armazenou os dados científicos e de engenharia em quatro cópias idênticas. Enquanto a Huygens entrava na atmosfera, seu computador acionou todos os movimentos críticos subseqüentes. O dr. Claudio Sollazzo, o diretor de operações da missão, disse: "As coisas devem supostamente ocorrer uma após a outra, como um relógio".

E foi o que aparentemente fizeram, a julgar pelas observações iniciais.

A recepção do primeiro sinal de rádio pela antena gigante em Green Bank, Virgínia Ocidental, indicou que a espaçonave tinha entrado na atmosfera e continuava descendo, como planejado. Sinais subseqüentes asseguraram aos controladores de vôo a descida e pouso aparentemente bem-sucedidos, por meio de uma seqüência de liberação de pára-quedas e separações de coberturas protetoras que liberaram os instrumentos científicos para observações.

Os seis instrumentos primários foram escolhidos para fornecer uma ampla variedade de medições de temperaturas, pressões e a composição da atmosfera rica em nitrogênio com sua complexa química de hidrocarbonos, que parece para alguns cientistas ser "pré-biótica". Mas ninguém considera a missão da Huygens uma busca por vida, o que é improvável em uma lua fria como Titã.

Espera-se que o sistema de imagens da nave tenha tirado cerca de 750 fotos da baixa atmosfera da lua e da superfície. Em outubro, o radar da Cassini e câmeras de luz visível também tiraram fotos, mas a névoa densa encobriu grande parte da superfície, exceto alguns trechos de características claras e escuras contrastantes. Os cientistas disseram que as imagens os deixaram confusos sobre a natureza da superfície de Titã.

Naquela época, ainda não se sabia se a Huygens encontraria uma paisagem de gelo, breu congelado ou lagos de metano e etano líquidos. O dr. John Zarnecki, da Universidade Aberta na Inglaterra, disse que uma aposta foi feita entre sua equipe de pesquisa e a maioria optou por uma superfície viscosa sobre o gelo.

O desafio agora para os cientistas é pegar os resultados da travessia pela atmosfera de Titã --"este grande mergulho no desconhecido" nas palavras do dr. Southwood-- e as fotos de sua superfície e descobrir se a lua de Saturno é, como freqüentemente especulado, uma máquina do tempo da vida planetária:

Sua química de hidrocarbono é de fato semelhante às condições que podem ter existido na Terra nos primórdios do sistema solar? Se for, o que isto revela sobre a química da origem da vida?

Por ora, a equipe Huygens deixou a interpretação científica de lado para desfrutar um triunfou que custou a chegar.

"Você provavelmente pode detectar um certo alívio no meu rosto", disse o dr. Southwood, e ele não era o único nas salas de controle da Agência Espacial Européia, em Darmstadt. Dados poderão confirmar semelhanças entre o satélite e a Terra George El Khouri Andolfato

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