UOL Notícias Internacional
 

15/01/2005

Sharon corta laços com palestinos após ataque

The New York Times
Steven Erlanger

Em Jerusalém
Ariel Sharon, primeiro-ministro israelense, deu ordens a todo o governo, nesta sexta-feira (14/01), que cortasse os laços com a Autoridade Palestina até que esta controlasse o terrorismo, um dia depois de militantes palestinos matarem seis israelenses em um posto de fiscalização policial na faixa de Gaza.

"O primeiro-ministro instruiu a todos os membros do governo que cessassem os contatos com a Autoridade Palestina até que esta adotasse as medidas necessárias para deter o terrorismo", disse Ranaan Gissin, assessor de Sharon. "Estamos suspendendo os contatos até que investiguem este incidente, façam justiça com aqueles que o planejaram e tomem medidas reais para deter o terrorismo."

O encontro entre Sharon e Mahmoud Abbas terá que esperar que as forças de segurança palestinas comecem a agir contra os militantes, disse Gissin. "Será uma mensagem muito clara e inequívoca aos palestinos", disse ele. "Onde estão as forças palestinas de segurança e prevenção? Elas precisam estar distribuídas em Gaza para impedir essas ações."

A reação israelense contradisse declarações anteriores de autoridades israelenses, que disseram que dariam tempo ao novo presidente da Autoridade Palestina para que reorganizasse seus serviços de segurança e tomasse medidas contra militantes como o Hamas, Jihad Islâmico e as Brigadas de Mártires Al Aqsa, da Fatah. Recém eleito, Abbas tomará posse apenas no sábado.

Cedo na sexta-feira, Israel fechou três postos de fiscalização policial que conectavam a Faixa de Gaza a Israel e ao Egito, até que os palestinos tomassem medidas para deter os ataques. A decisão foi tomada depois de um atentado na noite de quinta-feira contra o posto de policiamento de Karni, em que militantes palestinos usando explosivos, granadas e armas automáticas, mataram seis israelenses e feriram cinco.

O ataque foi considerado uma rejeição e um desafio a Abbas, que publicamente se opôs à violência da intifada e pediu aos grupos militantes uma suspensão dos ataques a israelenses.

Abbas condenou o ataque, mas associou-o a ações militares israelenses contra palestinos.

"Essa operação e operações de Israel, que mataram nove palestinos na última semana, não contribuem para o processo de paz", disse aos repórteres em Ramallah, depois das preces de sexta-feira. "Estamos comprometidos com o processo de paz e vamos implementar nosso programa de campanha."

No entanto, autoridades israelenses instaram Abbas, também conhecido como Abu Mazen, a reagir rapidamente ao desafio. "Deve haver tolerância zero para os terroristas. Se ele não fizer isso, perderá uma grande oportunidade de liderar os palestinos em uma direção diferente", disse Meir Shetreet, ministro dos Transportes.

Uma alta autoridade de segurança, que pediu para ficar anônima, disse em entrevista: "O Hamas, o Jihad Islâmico e as Brigadas de Mártires Al Aqsa estão desafiando sua legitimidade, estratégia e, é claro, autoridade. O ataque de Karni foi contra Abu Mazen. O aparato de segurança palestino está esperando ordens de um novo líder. Ele deve começar a implementar reformas de segurança, mas queremos que ele compreenda que não tem muito tempo."

Tanto os militantes palestinos quanto os serviços de segurança, disse a autoridade, "estão esperando uma mensagem de Abu Mazen. Querem saber se devem continuar com o terrorismo, que chamam de resistência, como aprenderam de Arafat, ou se Abu Mazen está determinado a adotar outra direção."

Abbas deveria começar a dialogar seriamente com o Hamas logo, disse autoridade, e vencer seus temores de confronto, especialmente em Gaza, onde Muhammad Dahlan e Rashid Abu Shabak, ambos aliados de Abbas, estão bem organizados.

"Ele deve compreender que é uma questão de vida ou morte, politicamente", disse a autoridade. Israel continuará se contendo, "mas não podemos ficar de lado por um longo tempo, e ele tem que entender isso".

O posto policial de Rafah, com o Egito, já estava fechado por causa dos danos provocados por explosivos instalados em um túnel debaixo do terminal. O isolamento completo de Gaza tem a intenção de pressionar militantes e líderes palestinos, pois faz escassear a oferta de alimentos e outros suprimentos, disseram autoridades israelenses. A esperança é que a revolta popular com as conseqüências do ataque ajude Abbas a persuadir os militantes a começarem um cessar-fogo imediato.

O posto policial central de Karni é usado para a entrada mercadorias, remédios e alimentos. O general Avi Kochavi, que comanda a Divisão de Gaza, disse à Rádio Israel:

"Por uma razão que não está clara para nós, eles estão fazendo todos os esforços para destruir nossas tentativas de dar aos palestinos, seu próprio povo, uma vida mais fácil."

Um porta-voz do Hamas em Gaza, Sami Abu Zuhri, disse que o ataque era "uma mensagem para o inimigo israelense, definitivamente não para Abu Mazen". Reuniões do Hamas com Abbas recomeçarão em breve, disse ele, "para organizar a casa palestina".

Vítimas eram pacíficas

O ataque de quinta-feira vinha sendo planejado há algum tempo e contou com a ajuda de palestinos que trabalhavam dentro do terminal, disseram autoridades israelenses, como aconteceu no atentado ao posto de fiscalização policial de Erez, no dia 5 de janeiro.

Três policiais palestinos feridos na ocasião foram presos, depois de confessarem colaboração com os militantes, disseram autoridades israelenses.

Na noite de quinta-feira, às 23h, perto da hora de fechamento, chegou um caminhão com três militantes palestinos. Eles tiveram permissão de passar rapidamente para o lado palestino do terminal, segundo o exército israelense, e colocaram uma grande quantidade de explosivos ao longo do muro entre os lados israelense e palestino, perto de uma porta de aço.

Depois da explosão, tentaram fugir pelo buraco aberto no muro, jogando granadas e atirando com armas automáticas antes de serem mortos por soldados israelenses.

Na sexta-feira, alimentos e brinquedos de vários caminhões estavam espalhados pelo terminal.

Dois dos mortos eram caminhoneiros árabes-israelenses: Munam Abu Sabia, 33, da Galiléia, e Ibrahim Kahili, 46, da aldeia beduína de Umm Al Ghanim. Outros três mortos, que trabalhavam como carregadores no terminal, eram residentes de Sederot, perto de Gaza, e eram imigrantes recentes da ex-União Soviética: Dror Gizri, Herzl Shlomo, 51, e Ivan Shmilov, 54. Um dos israelenses mortos ainda não foi identificado.

Shmilov e Shlomo foram enterrados na sexta-feira, em Sederot, que é alvo favorito de foguetes caseiros Qassam, lançados por militantes palestinos contra Israel. Shmilov, pai de dois filhos, com três netos, veio do Tadjiquistão há nove anos, segundo sua família. Seu trabalho era transferir carregamentos de legumes de caminhões israelenses para caminhões palestinos. Ele morava a 1 km do posto policial de Karni e ligava para sua família toda vez que ouvia uma explosão, disseram seus parentes.

Seu sobrinho, Victor Levayev, disse: "Ele morreu trabalhando para sustentar sua família. Era uma pessoa quieta e muito amada em seu bairro. As pessoas não conseguem acreditar. Eu estava dormindo quando ouvi a notícia, era como se estivesse sonhando."

Moshe Malka, 60, fundador de Sederot, estava entre várias centenas de pessoas que participaram do funeral de Shlomo. "Ele só estava ajudando eles a comerem", disse Malka. "Nunca haverá paz", disse com raiva. "Abu Mazen é um lobo de terno."

Salim Abu Safiya, diretor palestino de segurança nos postos de fiscalização, descreveu esses terminais como oxigênio para a população e disse que os ataques prejudicavam o povo. Se os atacantes tivessem "o interesse palestino em mente, além da comida que passa pelo cruzamento de Karni, não acho que teriam feito isso", disse ele.

No entanto, o melhor para Abbas seria dialogar com os militantes, disse ele.

"Estamos no início de uma nova era de Abu Mazen. Sugiro que dê uma chance a essa nova era." Processo de paz retrocede; Abbas reitera reprovação à violência Deborah Weinberg

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