UOL Notícias Internacional
 

16/01/2005

Por que as Bolsas ficaram calmas no sul da Ásia?

The New York Times
Conrad de Aenlle

Em Nova York
Os desastres naturais costumam provocar fortes quedas nas Bolsas dos lugares onde ocorrem, geralmente seguidas por recuperações de intensidade mais ou menos equivalente. Esta semana faz dez anos que o terremoto de Kobe no Japão fez as Bolsas despencarem 5%, antes de se recuperarem.

O mercado do Sri Lanka seguiu um caminho semelhante depois do tsunami de 26 de dezembro, mas foi uma exceção. Apesar da enorme devastação, os outros mercados do sul da Ásia não tiveram grandes oscilações e terminaram a semana seguinte estáveis ou em alta.

Os títulos dos países atingidos, assim como suas moedas -- que podem ser voláteis mesmo em circunstâncias benignas -- também sofreram poucos efeitos negativos.

"As Bolsas da região de modo geral não sofreram o impacto do desastre, e na verdade se comportaram de forma inesperada", disse Mark Mobius, diretor do fundo Templeton Global Emerging Markets, em nota aos investidores.

Os mercados da Indonésia e da Índia terminaram a semana após o maremoto em alta de mais de 1%, enquanto os da Tailândia e da Malásia tiveram pequena variação. O mercado do Sri Lanka caiu acentuadamente logo após o desastre, depois recuperou a maior parte do terreno perdido, encerrando a semana em queda de cerca de 4%. No mês que terminou na sexta-feira, as ações subiram em todos esses países, exceto na Índia; para os investidores americanos, os retornos aumentaram nos cinco países porque suas moedas subiram em relação ao dólar.

Paul Niven, diretor de estratégia na F&C Asset Management, uma administradora de fundos de Londres, indicou que muitas Bolsas asiáticas continuaram se recuperando este ano. "Esse comportamento parece estranho numa época de desastre sem precedentes em diversos países", disse Niven, "mas parece que os mercados estão se comportando de modo totalmente racional".

Ele e outros profissionais de investimentos dizem que não houve vendas generalizadas porque os danos do tsunami, embora se estendam por milhares de quilômetros pelas bordas do oceano Índico, tiveram um impacto desprezível sobre a capacidade industrial. Pode parecer perverso diante da imensa perda de vidas, dizem os analistas, mas o desastre poderá até produzir benefícios econômicos e comerciais quando a reconstrução começar.

O tsunami causou "uma perda humana trágica, mas acontece que a maior parte dos danos ocorreu em áreas onde não há concentração de produção", disse Anthony Chan, um economista da J.P. Morgan Fleming Asset Management em Nova York.

Em comparação, disse Chan, que estudou os efeitos de outros desastres naturais sobre o mercado, "se algo parecido tivesse atingido o centro de Tóquio ou de Pequim, os investidores teriam apertado o botão de vender".

Mas depois desses eventos, ele disse, os mercados tendem a se recuperar quando a atenção é transferida para a reconstrução e a produção econômica acelerada que a acompanha. "Sempre que há um furacão ou outro desastre natural, quando a reconstrução começa ela reforça o crescimento econômico em geral", ele disse. No caso do tsunami, acrescentou, "a enorme quantidade de ajuda será uma contribuição positiva para o crescimento".

Chan e outros traçaram uma distinção entre desastres naturais e eventos que surgem com ameaça ou interferência humanas, e disseram que os investidores estavam fazendo a mesma coisa. "Por que não há pânico? As pessoas compreendem que os terremotos não se tornaram subitamente mais prováveis", disse Jerome Booth, diretor de pesquisa na Ashmore Investment Management, uma firma de Londres especializada em mercados emergentes. Ele salientou o contraste entre o tsunami, um fato imprevisível, e o "aumento da incerteza que cerca eventos de terrorismo e doenças como a Sars". Ele se referia ao surto da Síndrome Aguda Respiratória Severa, doença infecciosa que teve um efeito negativo sobre os mercados asiáticos no ano passado.

Ashmore não fugiu. Booth diz que suas carteiras de investimentos na Ásia são mais aplicadas na parte sudeste da região, "porque vemos mais valor lá", e que não mudou sua perspectiva em conseqüência do tsunami.

"Em termos de tipos de ações, gostamos dos bancos tailandeses, das empresas de infra-estrutura tailandesas e companhias de materiais indonésias", disse Booth, mas declinou citar ações individuais, "e também telecoms da Indonésia e das Filipinas, pois as empresas de celular estão se saindo bem por causa da crescente demanda interna". Ele disse que a indústria do turismo no sul da Ásia sofrerá o maior impacto econômico.

Daniel Lian, economista do Morgan Stanley que acompanha em Cingapura os mercados do sudeste asiático, previu conseqüências limitadas sobre o crescimento da região, mesmo na Indonésia, junto ao epicentro do terremoto que provocou as ondas gigantes. Mas ele disse que as implicações econômicas para a Tailândia foram mais graves.

"Enquanto as seis províncias tailandesas atingidas representam apenas 2,7% do PIB, acreditamos que os danos causados à principal atividade econômica do reino, o turismo, terão um efeito multiplicador sobre toda a economia, pois cerca de um terço dos turistas internacionais na Tailândia freqüenta complexos nessas províncias", escreveu Lian em uma nota aos investidores. Ele disse que o país poderá receber somente 75% a 80% do volume de turistas previsto para este ano.

Administradores de fundos e analistas também estão de olho em indústrias como transportes e seguros. "Várias companhias de seguros foram atingidas, por exemplo a Thai Reinsurance e a Bangkok Insurance", disse Hugh Young, chefe de investimentos da Aberdeen Asset Management em Cingapura. Ele acrescentou, porém, que as seguradoras parecem ter passado "uma parte substancial" de seu risco para gigantes internacionais de resseguros, de modo que o impacto "não foi catastrófico".

Analisando outros segmentos do mercado, Young comentou que várias companhias que trabalham com turismo foram afetadas. Estas incluem duas empresas do Sri Lanka: a Aitken Spence, uma operadora de excursões, e a John Keells, que tem interesses em hotéis, refrigerantes e supermercados. Young disse que o tsunami foi "possivelmente benéfico para as companhias envolvidas na reconstrução, por exemplo a Siam Cement". Ele disse que seus portfólios incluem essas cinco companhias.

Mobius, da Templeton, também favorece setores relacionados à reconstrução nas áreas costeiras. "Companhias de construção e de materiais de construção terão mais negócios e provavelmente preços mais altos", ele disse. "Já estamos vendo isso acontecer com os produtores de cimento na região." Segundo ele, os preços do cimento já começaram a subir na Indonésia e também deverão subir na Tailândia.

Niven, da F&C, concordou que as construtoras estão se beneficiando e disse que os investidores têm comprado ações como da Semen Gresik, fabricante de cimento da Indonésia, ajudando a empurrar o mercado para cima.

Mobius e Young afirmaram que a indústria de seguros, embora esteja sofrendo um pouco, poderá em última instância ganhar com o tsunami. Isso por causa da "possibilidade de prêmios maiores e definitivamente uma maior consciência do valor do seguro", disse Young. "Tradicionalmente, os países, empresas e indivíduos afetados estariam sub-assegurados antes do desastre", ele acrescentou.

Qualquer impacto no setor de seguros deverá se limitar à Ásia, disse Niven. "As seguradoras americanas e européias têm uma exposição mínima aos pedidos de pagamentos", ele disse, "e muitas delas, como a Generali, já afirmaram que não haverá impacto sobre os rendimentos". A Generali é uma das maiores seguradoras da Itália.

Chan, da Morgan, disse que o tsunami poderá ter implicações econômicas e de investimentos positivas fora da Ásia. As indústrias ligadas ao turismo nos países afetados deverão sofrer, mas isso pode significar mais negócios para os mesmos setores em outros lugares. "As companhias aéreas que voam para essas regiões certamente sofrerão um impacto", disse Chan. Mas "as pessoas não vão parar de viajar", ele acrescentou.

"Elas vão gravitar para áreas que as fazem sentir-se mais confortáveis ou seguras", acrescentou. "Se você não pegar um avião para lá, pega para outro lugar. Para a indústria aérea em geral não muda muita coisa."

Em longo prazo, ele disse, o tsunami poderá ajudar a reforçar as economias e os mercados asiáticos, porque "a reconstrução ocorre com edifícios e equipamentos mais modernos, e assim aumenta as capacidades" dos fabricantes nas economias afetadas.

O tsunami é "uma maneira forçada de se modernizar", disse Chan. Quando as empresas locais construírem casas, fábricas e infra-estrutura, "haverá muita assessoria de especialistas para orientá-los", ele disse. "Tudo isso vai aumentar a produtividade e a capacidade produtiva da região", acrescentou. Tsunami não provoca variações bruscas e imediatas na economia Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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