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17/01/2005

América assiste ao triunfo das garotas más

The New York Times
Damien Cave

Em Nova York
Kirstie Alley comeu até tornar-se obesa e motivo de escárnio das páginas de fofoca. No entanto, ela voltará ao horário nobre em março, com um programa que é mais antecipado do que tudo que fez desde "Cheers".

Martha Stewart, modelo da mulher doméstica, também reaparecerá em breve na televisão e, apesar de continuar presa em Virgínia Ocidental, as ações de sua empresa subiram quase 7% depois do anúncio de seu acordo com a NBC. Os anunciantes estão voltando para sua revista, detectando um degelo de sua imagem rígida.

Aparentemente, as mulheres finalmente colocaram em evidência o padrão de julgamento moral duplo, que permitiu que homens envolvidos em escândalos voltassem como heróis enquanto as mulheres eram jogadas na lama.

Segundo críticos sociais, já se foram os tempos em que Robert Mitchum foi condenado por porte de maconha, em 1949, e obteve melhores papéis e maior estima, enquanto sua contemporânea Ingrid Bergman foi denunciada como "Apóstola da degradação", por ter tido uma criança fora do matrimônio e foi expulsa de Hollywood por sete anos.

E você se lembra de Vanessa Williams e Lisa Bonet? Sua nudez leve, nos anos 80, quase matou suas carreiras. E Anita Hill e Mônica Lewinsky? Por terem apontado indiscrições sexuais de homens poderosos foram marginalizadas, enquanto Clarence Thomas, Bill Clinton e uma série de aventureiros sexuais, incluindo R. Kelly e Marv Albert -que voltou ao ar um ano depois de uma namorada acusá-lo de mordê-la e forçá-la a fazer sexo oral- saíram-se bem dos escândalos.

Os homens, disse Leo Braudy, autor de "The Frenzy of Renown: Fame and Its History" (O furor da reputação: fama e sua história, Oxford, 1986), sempre tiveram mais oportunidades de retomarem suas carreiras. "Há muitos exemplos do público dizendo que os rapazes delinqüentes são apenas meninos, mas não que as moças delinqüentes são apenas meninas."

Bem, as coisas mudaram. Paris Hilton não tentou se esconder depois da divulgação pela Internet de vários vídeos grosseiros dela fazendo sexo. Pelo contrário, sua imagem de herdeira mimada deu-lhe oportunidades como modelo e como autora. Com Alley e Stewart também avançando, e em uma época em que Ellen DeGeneres e até Williams, ex-miss América, também estão encontrando apoio no público, as mulheres que eram ridicularizadas deram grandes passos.

"Agora há mais liberdade para errar. Anos atrás, o movimento feminino dizia querer apenas uma chance de ser tão medíocre quanto os homens. Agora, as mulheres também têm a chance de se esborrachar", disse Elaine Lafferty, editora da Ms. Magazine.

Karal Ann Marling, autora de vários livros sobre a cultura americana, inclusive "As Seen on TV: The Visual Culture of Everyday Life in the 1950s" (Como visto na TV: a cultura visual da vida diária nos anos 50, Harvard University Press, 1994), tem visão similar. "Tudo serve para mostrar que as mulheres podem ser tão idiotas quanto os homens, sem grande castigos", disse ela. "Qualquer um pode fazer um espetáculo de sua queda e ter sucesso."

Uma opinião freqüente on-line e entre analistas sociais é que mulheres como Alley, Stewart e Hillary Rodham Clinton são causas celebres feministas. "A oposição ao plano de saúde proposto por Hillary Clinton foi tão feroz que não consigo evitar de pensar que foi por ela ser mulher", disse Wendy Steiner, autora de "The Scandal of Pleasure: Art in an Age of Fundamentalism" (O escândalo do prazer: a arte na era do fundamentalismo, University of Chicago Press, 1995). "Martha Stewart foi tratada muito mais severamente pela imprensa do que homens que fizeram a mesma coisa."

Os canais de televisão que fecharam contratos recentemente com Alley e Stewart estão essencialmente apostando nessa sensação de revolta, dizem críticos da mídia. Eles esperam que as mesmas telespectadoras que tornaram Oprah a rainha da mídia também adotarão essas heroínas modernas.

Assim, assistir ao novo programa de Martha Stewart sobre cozinha e estilo, que deve começar em setembro, será uma forma de vingança sobre a sentença de cinco meses de prisão que ela terá servido até lá, enquanto Kenneth Lay, ex-diretor da Enron, ainda está livre esperando julgamento. Comprar um tablóide com Alley obesa na capa é condenar as Vogues do mundo, com seus modelos esqueléticos. A recusa em proibir Hilton é, em algum nível, um protesto contra o fato de seus namorados não terem sido igualmente escandalizados.

"As mulheres agora estão se afirmando contra uma sociedade dominada por homens", disse Neal Gabler, autor de "Life, The Movie: How Entertainment Conquered Reality" (Vida, o filme: como o entretenimento conquistou a realidade, Alfred A. Knopf, 1998). "A reabilitação de Martha ou o fato de Kirstie ser popular apesar de gorda é definitivamente uma afirmação feminina. Isso é resulta das mulheres se sentirem mais poderosas do que antes."

O fato das duas mulheres terem sofrido por seus pecados torna seus seguidores ainda mais numerosos e intensos. O puritanismo aplicado a Heter Prynne, em "A Letra Escarlate", continua forte: mulheres com defeitos são melhores quando servidas depois de serem amaciadas por um castigo.

Antes, essa punição era longa, ou permanente. Bergman, por exemplo. Era uma das artistas de maior sucesso de bilheteria, nos anos 40, estrela de "Casablanca" e nomeada quatro vezes para o Oscar. No entanto, quando deixou seu marido e filha pelo diretor italiano Roberto Rossellini, em 1949, tornou-se um prodígio indesejado. Ela passou sete anos na Europa antes de voltar para Hollywood, com "Anastásia", pelo qual recebeu sua quinta nomeação ao Oscar e segundo prêmio.

Williams foi forçada a entregar sua tiara de Miss América, em 1984, quando se soube que a Penthouse planejava publicar fotos suas sem roupa. Ela também agüentou anos na obscuridade, antes de conseguir uma carreira musical de moderado sucesso. DeGeneres e sua ex-amante, Anne Heche, também hibernaram depois de sua separação complicada, antes de reassumirem suas carreiras.

Robert Mitchum não precisou esperar tanto. Ele estrelou três filmes de Hollywood no ano seguinte ao da sua prisão por porte de maconha e em outros 50 depois disso. Hugh Grant, que estava em um relacionamento estável com a modelo Elizabeth Hurley quando foi preso com uma prostituta, em 1995, também nunca sofreu profissionalmente.

Mas isso é normal. Os homens freqüentemente conseguem evitar as conseqüências de seus escândalos, enquanto as mulheres precisam agüentá-los como um parto: dor seguida de recompensa. Como escreveu o conservador Larry Kudlow, em recente coluna, Stewart "é uma mulher de sucesso que cometeu um erro; está pagando o preço pelo erro e vai embarcar em novo capítulo de sua vida quando for solta, em março".
"A história de Stewart", escreveu, "é tão americana quanto uma torta de abóbora".

Pelo menos, agora a duração da pena encolheu. O contrato de Stewart com a televisão foi anunciado em dezembro, dois meses depois de começar a servir sua pena. Naquele momento, a opinião pública parecia estar mudando. Antes da condenação, acreditava-se que ela tinha mentido por excesso de segurança e que merecia castigo, mas isso estava mudando para uma noção de que tinha sido tratada com dureza demais. Seu novo programa, produzido pelo criador de "Survivor", pode ser ainda mais popular que o programa anterior, que foi cancelado pelas redes de televisão quando houve o escândalo.

Novas tecnologias podem estar ajudando as mulheres de reputação manchada a evitarem o abismo. O público de televisão se tornou tão segmentado entre canais livres e a cabo, que um novo programa ou celebridade precisa de um público relativamente menor para sobreviver, disse Braudy, autor de "Frenzy of Renown". E Gabler, autor de "Life: The Movie" (Vida: o filme) , salientou que a opinião pública agora é registrada de várias formas, como pelo número de visitas ao site da Web, dados de audiência da TiVo e estatísticas sobre vendas de capas de revistas. A edição da revista Star de abril, que trazia na capa uma fotografia totalmente depreciadora de Kirstie Alley, anunciava "O que aconteceu e por que!" Vendeu mais de um milhão de cópias, "fantasticamente bem", disse Bonnie Fuller, diretora editorial da American Media, que publica a revista.

Em pouco tempo, Alley conseguiu transmutar a lama em ouro, fechando um contrato com a Showtime para estrelar em "Fat Actress". "A revista Star gostaria do crédito por ajudá-la a reanimar sua carreira, trazendo-a para a visão do público", disse Fuller. "Acho que 'Fat Actress' vai ser um grande sucesso." Do ridículo a um novo programa em 11 meses.

A cultura popular, essencialmente, passou a se parecer com a política -um lugar onde o público pode exercer poder- argumentou Gabler, que também escreveu "Winchell: Gossip, Power and the Culture of Celebrity" (Winchell: fofoca, poder e a cultura da celebridade, Knopf, 1994). "Não estamos mais simplesmente assistindo", disse ele. "Estamos participando."

Alguns críticos não estão exatamente convencidos de que o consumismo deve ser elogiado como sinal de mudança positiva. Wendy Steiner, que ensina inglês na Universidade da Pensilvânia, se pergunta se dois programas de televisão sobre uma mulher gorda obcecada com sua carreira realmente servem de medida de progresso do feminismo. Ela acredita que essas mulheres ficarão limitadas quando voltarem à telinha.
"De agora em diante, a imagem pública de Martha provavelmente será apenas sobre domesticidade", disse Steiner. "Tudo que tiver relacionado com dinheiro será feito por outra pessoa."

Existe uma crença de que a fama e a infâmia se tornaram quase intercambiáveis na atual cultura de celebridade. Mas outra interpretação pode ser que a sociedade começou a ver as mulheres de uma forma mais multifacetada. "As pessoas aprenderam a ver as personalidades das mulheres de uma forma mais complexa", disse Braudy. "Antigamente, se você tinha um defeito moral, se fazia alguma transgressão no contrato social, isso dividia você ao meio. Radiava por toda sua personalidade."
"Agora as pessoas separam muito mais", disse ele. "Para ser idolatrado, você não precisa mais ser idealizado." Comportamento Deborah Weinberg

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