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17/01/2005

Aulas de dança são sucesso nos campi dos EUA

The New York Times
Valerie Gladstone

Em New London, Connecticut
Quando David Dorfman pegou pela primeira vez a estrada interestadual 95 em direção a esse histórico porto baleeiro, há 25 anos, ele era um estudante universitário de 24 anos em plena ebulição, batalhando pelo diploma de dança no Connecticut College e por uma carreira como coreógrafo em Nova York.

"Meu objetivo era acontecer como artista freelancer, com dinheiro o bastante para sustentar um bom apartamento, plano de saúde e os trabalhos alternativos", diz Dorfman.

A parte artística do sonho aconteceu de verdade: Dorfman abriu sua própria companhia, a David Dorfman Dance, em 1985. Jennifer Dunning, numa crítica recente no jornal The New York Times, escreveu que "um dos grandes prazeres de se assistir a espetáculos de dança em Nova York, há mais ou menos uma década, tem sido observar a evolução de David Dorfman, de mera promessa à condição de inspirado coreógrafo da dança moderna".

Mas no que diz respeito ao aspecto financeiro, Dorfman não foi assim tão bem sucedido e, como a maioria de seus colegas no mundo da dança contemporânea, andava vivendo próximo à linha da pobreza. Há alguns meses, ele se viu novamente pegando a rota 95 em direção a New London, numa luta para amenizar a imensa sensação de fracasso que de repente lhe invadiu. Ele seguia em direção ao novo trabalho como professor de dança lá na sua escola alma mater, trocando, aos 49 anos, a vida de artista pela vida de acadêmico: "Tive que encarar a realidade e encontrar outro jeito de sobreviver".

E Dorfman não está sozinho. Com os recursos secando e os custos subindo, até mesmo companhias bem estabelecidas estão numa luta ferrenha pela sobrevivência, e só mesmo os coreógrafos mais populares da geração de Dorfman, como Mark Morris e David Parsons, estão consolidados do ponto de vista financeiro. Outros, incluindo artistas bem considerados como Jawole Willa Jo Zollar, Bebe Miller, David Rousseve e Dan Wagoner, estão voltando à vida acadêmica.

Eles não são os primeiros coreógrafos que buscam refúgio no ensino acadêmico, contra a insegurança financeira: nos anos sessenta, Donald McKayle entrou para o corpo docente do Instituto de Artes da Califórnia, em Los Angeles, e Garth Fagan ensinou na Universidade Estadual de Nova York, em Brockport. Só que durante o boom da dança, no final dos sessenta e nos anos setenta, não faltavam platéias e patrocínios. Parecia que os coreógrafos poderiam manter suas companhias funcionando para sempre.

"É cada vez mais difícil para coreógrafos no meio da carreira sustentarem suas companhias nas maiores cidades", afirma Sam Miller, criador do National Dance Project, que realizou um estudo sobre essa questão, encomendado pela Federação para as Artes da Nova Inglaterra. "Cada vez mais esses coreógrafos estão em busca de portos seguros onde possam experimentar, cumprir seu trabalho e viver suas vidas sem perigos".

Os coreógrafos que saem de Nova York no meio da carreira são substituídos por novatos ansiosos por firmar seus nomes, segundo Wendy Perron, editora-chefe da revista Dance.

"Noventa por cento dos coreógrafos no campo da dança moderna criam suas personalidades artísticas por aqui (em Nova York)", diz a editora da Dance. "Mas Dorfman, Miller e outros que recentemente se mudaram da cidade irão incrementar as atividades da dança lá onde irão ensinar".

David Dorfman já está nessa vida nova há quatro meses. Ele não quis dizer quanto está ganhando, mas dá para ver que melhorou de vida. Agora tem plano de saúde. E com sua mulher e o filho mais novo, se instalou numa casa de quatro quartos, bem melhor que seu desconfortável apartmento num prédio sem elevador no distrito do Brooklyn, em Nova York.

Como professor num dos principais departamentos de dança dos Estados Unidos, ele tem uma rotina abarrotada de turmas, palestras e encontros acadêmicos. Ele ainda comanda a sua troupe, mas essa deixou de ser a sua principal atividade para se tornar uma entre várias.

E ele ainda colhe dividendos inesperados em Connecticut. "Estou conhecendo pessoas no corpo docente que podem me ilustrar muito em assuntos que têm a ver com minha coreografia", afirma Dorfman. "Por exemplo, quero criar para a minha companhia uma obra sobre o terrorismo, e aqui eu encontrei um colega que vem estudando esse fenômeno ao longo de toda sua careira. É animador poder conversar com alguém assim".

Jawole Zollar, que divide o tempo entre a Universidade Estadual da Flórida e a companhia dela em Nova York, a Urban Bush Women (Mulheres na Moita Urbana), também aproveita a vivência no interior do país. Ela diz que não poderia ter coreografado a peça "Are We Democracy?" (Somos Democracia?), um estimulante trabalho político, se não estivesse vivendo na cidade de Tallahassee durante a eleição presidencial de 2000. "Em primeiro lugar, porque eu não teria visto a supressão das cédulas eleitorais", diz Jawole.

O trabalho na universidade também ajudou o trabalho coreográfico de Jawole Zollar de uma outra forma: "Venho desenvolvendo uma técnica com minha companhia há 20 anos. Mas antes de vir para cá, nunca tive a oportunidade de apurá-la e ensiná-la aos estudantes".

David Rousseve, que desarticulou sua companhia há 10 anos e agora monta coreografias para projetos específicos, diz estar bem sucedido na Universidade da Califórnia (UCLA), em Los Angeles, onde recentemente se tornou diretor do departamento de culturas e artes mundiais: "Eu tenho muito recursos. E estamos construindo um centro de dança orçado em U$ 18 milhões (mais de R$ 30 milhões). Minha maior dificuldade é encontrar tempo suficiente para fazer o meu próprio trabalho".

Mas nem todos os coreógrafos querem fazer essa transição das companhias para as universidades. William Forsythe, que perdeu seu posto de diretor artístico do Ballet de Frankfurt, recebeu convite no ano passado para um cargo vitalício na Universidade da Califórnia. A escola também queria oferecer trabalho para os bailarinos dele, mas Forsythe recusou a proposta.

"Acontece que eu senti que não teria tempo o bastante para trabalhar com os meus bailarinos", diz o coreógrafo. "Eu preciso trabalhar minhas idéias com profissionais e numa base contínua. E havia dinheiro somente para sustentar minha companhia por meio período".

Stephen Petronio também procurou trabalho acadêmico, mas não topou esse mergulho: "Por sua própria natureza, a maioria das instituições é baseada numa programação fixa e irremovível, com rígida prestação de informações, pré-requisitos de cursos e toda uma burocracia de papéis. Se eu pudesse seguir ativamente como um criador de danças e fazer dessa atividade algo interessante ao currículo de uma instituição, aceitaria a oportunidade. Mas isso só seria possível com um programa bem de vanguarda".

O Connecticut College se esforça em acomodar artistas com trabalhos em andamento, diz Frances Hoffman, diretor da faculdade: "Quando conversamos com David Dorfman no ano passado, ele deixou claro que queria se manter ativo nessa área. E isso também é o que queremos, da mesma forma que gostamos de ter nossos cientistas envolvidos ativamente em trabalho de laboratório. No caso de Dorfman, a companhia é a fonte de pesquisas para ele".

Dorfman passou um tempo em Nova York, em novembro, com seus bailarinos. E eles chegam em New London esse mês, começando ensaios para uma apresentação em junho, no Joyce Theater em Manhattan. Os bailarinos ficarão na casa de Dorfman e irão ensaiar num estúdio cheio de recursos de luz na faculdade.

Num desses estúdios do Connecticut College, Dorfman recentemente deu uma aula bem técnica para 30 alunos. Vestido com as malhas características, ele comandava os movimentos enquanto rapazes e moças evoluíam pelo solo, em piruetas e aberturas de pernas, numa alegre improvisação para um tango jazzificado. Observando o grupo, ele entrou na dança se divertindo, como sempre faz junto com sua companhia.

Depois da aula, ele confessou que às vezes se torna melancólico. Disse que esteve em Nova York para apresentações de Pina Bausch na Academia de Música do Brooklyn, em novembro: "Eu tive muita saudade da minha vida antiga por lá. Aí eu me lembrei de como eu gosto de lapidar jovens talentos e observar seu crescimento. Vamos ver como é que eu equilibro todas essas sensações". Comportamento Marcelo Godoy

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