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18/01/2005

EUA necessitam de um novo Martin Luther King

The New York Times
Bob Herbert

Em Atlanta
NYT Image

Bob Herbert é colunista
Os EUA celebraram nesta segunda-feira (17/01) o dia de Martin Luther King Jr. Muito mais que um líder religioso, ele foi um baluarte da luta pelos direitos civis da população negra na América.

Você pode ficar tonto ao pensar sobre a história que transcorreu dentro e fora da Igreja Batista Ebenezer, em Atlanta, capital da Geórgia (sul do país). O templo foi o lar espiritual (e principal refúgio) do reverendo King. e do movimento dos direitos civis dos anos 50 e 60.

Agora, há uma vistosa nova igreja bem em frente, do outro lado da rua, mas as lembranças das batalhas travadas e da liberdade conquistada naquele período tumultuado continuam presentes naquele velho prédio, com suas escadarias estreitas e pisos rangentes, e o porão onde tantas sessões de estratégia foram realizadas.

Na noite da última sexta-feira (14), eu tive o privilégio de me juntar aos atores Martin Sheen, Lynn Redgrave, Alfre Woodard, Sean Penn, Woody Harrelson e outros em uma leitura na velha igreja da peça "Speak Truth to Power: Voices From Beyond the Dark", de Ariel Dorfman, que é baseada no livro "Speak Truth to Power" (a verdade diante do poder), de Kerry Kennedy e do fotógrafo Eddie Adams. A ocasião marcou o 76º aniversário do nascimento de King (ele tinha apenas 39 anos quando foi morto) e o 40º aniversário de sua premiação com o Nobel da Paz. Entre os presentes estava a viúva de King, Coretta Scott King.

"Speak Truth to Power" trata do surgimento da coragem e da liderança moral nos períodos sombrios em que a liberdade de expressão, liberdade religiosa, direitos humanos e até mesmo a própria humanidade são ameaçados por forças destrutivas, que variam da indiferença à brutalidade assassina.

A liderança freqüentemente vem de fontes inesperadas, como Bobby Muller, um tenente marine americano cuja espinha foi partida quando recebeu um tiro nas costas no Vietnã. Ele se tornou um campeão dos direitos dos veteranos e anos depois, como co-fundador da Campanha para Proibição de Minas Terrestres, dividiu o Prêmio Nobel da Paz.

Muller, em uma cadeira de rodas, também estava na platéia na Ebenezer na noite de sexta-feira. "A coragem começa com uma voz", disse Oscar Arias Sanchez, o ex-presidente da Costa Rica, que recebeu o Prêmio Nobel em 1987 pelo desenvolvimento de um plano de paz para a América Central.

Tanto a peça quanto o livro são compostos de trechos de entrevistas de homens e mulheres que, de uma série de formas, defenderam os direitos humanos em países ao redor do mundo. Dianna Ortiz é uma freira ursulina do Novo México que foi para a Guatemala nos anos 80 como missionária. Ela foi seqüestrada, estuprada e torturada por agentes do governo. Ela disse que um dos homens que supervisionava a tortura parecia ser americano. A certa altura ela foi abaixada a um poço cheio de corpos de homens, mulheres e crianças que tinham sido assassinados.

"Até hoje", disse Ortiz, "eu posso sentir o cheiro da decomposição dos corpos despejados no poço aberto. Eu consigo escutar os gritos penetrantes das outras pessoas sendo torturadas."

Em uma curta introdução à entrevista de Ortiz no livro, Kennedy escreveu:

"A provação de Ortiz não terminou com sua fuga. Seu tormento prosseguiu enquanto ela buscava respostas do governo americano sobre a identidade de seus torturadores em sua busca incansável por justiça. A honestidade de Ortiz e sua capacidade de expressar a agonia que sofreu forçaram os Estados Unidos a liberarem arquivos confidenciais sobre a Guatemala, e esclarecer alguns dos momentos mais sombrios da história guatemalteca e da política externa americana."

Ortiz agora dirige um centro para sobreviventes de tortura.

A coisa mais esperançosa que pode ser extraída da peça de Dorfman e livro de Kennedy é que liderança eficaz pode vir de qualquer lugar, a qualquer momento.

Do meu ponto de vista, este é um momento sombrio na história americana. O Tesouro foi saqueado e o saque está sendo distribuído entre aqueles que já são os cidadãos mais ricos do país. Nós lançamos uma guerra hedionda no Iraque sem nenhum bom motivo. E estamos prestes a elevar ao mais alto cargo de manutenção da lei no país um homem que ajudou a coreografar o esforço americano para driblar as proibições internacionais contra a tortura.

Nunca, desde seu assassinato em 1968, eu senti mais agudamente a ausência de Martin Luther King. Onde estão hoje as vozes de ultraje moral? Onde está a liderança disposta a se levantar e dizer: Basta! Nós nos manchamos demais.

Eu estou convencido, sem ser capaz de provar, que tais vozes despontarão. Houve um tempo em que ninguém tinha ouvido falar de King. Ou de Oscar Arias Sanchez. Ou de Martin O'Brien, que fundou a principal organização de direitos humanos na Irlanda do Norte, e que nos diz: "A pior coisa é a apatia --sentar de forma negligente diante da injustiça e não fazer nada a respeito". América atravessa um dos momentos mais sombrios de sua história George El Khouri Andolfato

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