UOL Notícias Internacional
 

18/01/2005

Nada prova eficácia dos suplementos alimentares

The New York Times
David Tuller

Em Nova York
Grant Deans mede 1,77m e pesa 86 kg. Quer ser maior. Com 20 anos, ele pratica artes marciais e musculação. Consegue levantar 100 kg no supino (exercício básico para o músculo peitoral). Ele avaliou a ampla variedade de suplementos alimentares esportivos disponíveis e escolheu alguns, esperando progressos em seu objetivo.

Ele toma proteína do soro de leite (whey protein) para aumentar sua ingestão calórica diária; aminoácidos para ajudar os músculos a se recuperarem dos exercícios; e creatina para aumentar os níveis de energia e a intensidade da musculação.

"Os suplementos são realmente um instrumento útil", disse Deans, universitário em Norcross, Geórgia, que consome esse tipo de produto há cinco anos. "Seria preciso muito tempo e dedicação para preparar seis ou sete refeições por dia, para conseguir a quantidade correta de proteína para ganhar massa muscular."

Dez ou 20 anos atrás, entusiastas esportivos como Deans, às vezes, tomavam algumas vitaminas e minerais básicos. No entanto, nos últimos anos, o mercado da forma física foi inundado de produtos com nomes curtos e cativantes, como Adenergy, Lean Stack e Cell-Tech, ou intimidadores, pseudocientíficos, como Sterobol Suspension Muscle Mass Enhancer, Vaso XP Xtreme Vasodilator & Growth Promoter e Xenadrine-NRG.

Os suplementos esportivos foram responsáveis por US$ 1,9 bilhão (cerca de R$ 5,7 bilhões) dos US$ 19 bilhões (em torno de R$ 57 bilhões) que os americanos gastaram com suplementos alimentares em 2003, de acordo com uma revista do setor, a "Nutrition Business Journal", 6% superior ao ano anterior. Os suplementos são diferentes dos esteróides anabólicos, que causaram controvérsia nos esportes profissionais, mais recentemente no beisebol.

As propagandas dos suplementos frequentemente são acompanhadas de diagramas moleculares e fotografias de antes e depois, ilustrando uma metamorfose de um saco de batatas para um Hércules. Os benefícios anunciados são simplesmente miraculosos.

Um produto chamado Aftermath, por exemplo, diz que ajuda a "inchar seus músculos até tamanhos grotescos" e eliminar a possibilidade do consumidor de ser "tachado de maricas". A Xpand Nitric Oxide Reactor, uma bebida que vem em sabores de frutas tropicais e pina colada, oferece aos clientes "as bombas musculares e vasculares mais inacreditáveis" que já experimentaram.

No entanto, os cientistas dizem que há poucos estudos confiáveis demonstrando a segurança e eficácia de muitos suplementos. Além disso, com centenas de ingredientes diferentes disponíveis aos fabricantes, é difícil até para os especialistas acompanharem os produtos e avaliarem a base científica das alegações dos fabricantes.

"Antigamente, se um técnico ou atleta ligava para perguntar o que a gente pensava sobre algum produto, tínhamos uma boa noção. Hoje, há tantos por aí que, se um atleta liga para perguntar, você tem que sair e pesquisar muito", disse Ann Grandjean, diretora executiva do Centro de Nutrição Humana, uma organização de pesquisa e educação em Omaha, Nebraska.

Muitos suplementos prometem aumentar a massa muscular. Outros alegam aumentar a habilidade do tecido muscular de se recuperar rapidamente da musculação. Outros ainda alegam ter propriedades termogênicas --que produzem calor-- que ajudam a aumentar o metabolismo e derreter a gordura, aumentando a energia.

Entre os produtos mais comuns estão os suplementos protéicos, frequentemente vendidos em pó, e suplementos contendo aminoácidos, as partes que compõem as proteínas, que muitos atletas acreditam que podem ajudar os músculos a crescerem e se repararem.

Especialistas recomendam que atletas consumam cerca de duas vezes mais proteína do que pessoas sedentárias. E muitos praticantes de musculação e outros dizem que os suplementos são necessários, porque seria necessário muito tempo para preparar e consumir suficientes refeições de alto teor protéico.

Mas Grandjean e outros especialistas em esportes dizem que uma dieta equilibrada deve oferecer uma quantidade suficiente de proteína e aminoácidos até para os mais ativos.

A creatina, substância encontrada na carne, também é um suplemento popular. Alguns estudos corroboram as alegações de que pode ajudar quem pratica esportes que envolvem impulsos energéticos curtos, ou arrancadas. Outro ingrediente, glucosamina sulfato, é promovido como lubrificante de articulações. Já o óxido nítrico, aparentemente, aumenta o fluxo sangüíneo para os músculos e reduz a inflamação. No entanto, os dados científicos em relação a essas alegações são, no mínimo, conflitantes.

O governo dos EUA, recentemente, interessou-se mais ativamente pelos suplementos esportivos. Uma nova lei federal que proíbe o uso, sem receita médica, de ferormônios --substâncias que agem como esteróides quando estão no corpo-- começa a vigorar nesta semana no país.

A lei, que gerou uma onda de compras dos suplementos contendo esses ingredientes, também inclui verbas para programas de educação de jovens atletas --grandes consumidores de suplementos esportivos-- sobre os perigos potenciais desses produtos.

A lei foi aprovada depois da decisão do Departamento de Alimentos e Drogas (FDA) de fiscalizar dois ingredientes amplamente utilizados como suplementos: o ephedra, um estimulante vegetal que muitos atletas usam para queimar gorduras, mas que foi associado a problemas cardiovasculares, entre outros, e o androstenedione, um pro-hormônio que ganhou fama quando se soube que o jogador de beisebol Mark McGwire o tomava.

Muitos fabricantes e comerciantes apoiaram as medidas, dizendo que provam que o governo tem autoridade suficiente para agir quando acredita que um produto não é seguro.

No entanto, os críticos dizem que a regulamentação de suplementos continua tão flexível que a pureza de muitos produtos é desconhecida. Estudos mostram que nem sempre o que há nos produtos se conforma com o que diz o rótulo. Contaminação acidental não é a única explicação, disse Linn Goldberg, professora de medicina da Universidade de Saúde e Ciência de Oregon.

"Se eu dissesse que estava vendendo Suco Gogo do Dr. Goldberg e você tomasse e não tivesse nenhum resultado, você diria: 'Isso é uma porcaria'", disse ele. "Mas se eu anunciasse que o produto aumentaria suas habilidades, você diria: 'esse negócio funciona.'"

As empresas que vendem suplementos dizem que fazem esforços incansáveis para manter um controle de qualidade estrito. Ainda assim, alguns consumidores observaram importantes diferenças em suas respostas quando mudaram de marca.

James Hopkins, que escreve sobre negócios em San Francisco, anda de bicicleta e levanta pesos com regularidade. Ele disse que começou a tomar creatina em 1998 e achou que fez efeito, que o ajudou a encorpar. Mas quando tentou outra marca, começou a sentir câimbras nas pernas, possível efeito colateral da creatina.

"Pensei: 'meu corpo está me dizendo algo; tomar isso é estupidez, um investimento grande demais na vaidade", disse Hopkins, 47.

Alguns críticos também temem que a indústria encontre formas de burlar as novas restrições, promovendo substitutos legais para as substâncias proibidas. A nova lei de pro-hormônio, por exemplo, não restringe o uso de uma substância chamada DHEA, que muitos especialistas dizem ter os mesmos efeitos.

"Fizemos tanto caso ao tirar essas coisas do mercado que o público agora tem uma falsa sensação de segurança", disse Mike Perko, diretor de ciências da saúde da Universidade do Alabama.

O FDA tem alguma autoridade para regulamentar suplementos, sob a lei de 1994. Mas os fabricantes desses itens, diferentemente dos laboratórios farmacêuticos, não são obrigados a provar que seus produtos são seguros ou eficazes. Assim, policiar a indústria pode ser uma tarefa extremamente difícil.

De sua parte, muitos que usam suplementos esportivos vêem as ações do governo como uma restrição à sua autonomia. Eles salientam, com razão, que muito mais mortes são atribuídas por ano à overdose de aspirina do que à ephedra ou outras substâncias proibidas.

"As pessoas podem fazer outras escolhas nocivas à sua saúde, mas ninguém se levanta para proibir o cheeseburguer triplo", disse Rick Collins, advogado que representa os fabricantes de suplementos e a Associação de Liberdade Suplementos Unidos.

"A ironia é que a maior parte dessas pessoas tem uma dieta saudável, muito superior à dieta do americano médio, e são infinitamente mais preocupadas com sua saúde, do ponto de vista nutricional", disse Collins. Cientistas advertem que os produtos podem não causar efeito algum Deborah Weinberg

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h58

    0,31
    3,232
    Outras moedas
  • Bovespa

    18h20

    -0,44
    74.157,38
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host