UOL Notícias Internacional
 

18/01/2005

Seqüestro de arcebispo amplia a tensão no Iraque

The New York Times
Jeffrey Gettleman*

Em Bagdá, Iraque
Um arcebispo católico de 66 anos foi seqüestrado por homens armados mascarados nesta segunda-feira (17/01), em uma onda de violência que sacudiu o Iraque e aumentou o ar de incerteza antecedendo as eleições de 30 de janeiro.

O arcebispo de Mossul, Basile Georges Casmoussa, uma cidade tomada pelo crime no Norte do Iraque, estava caminhando diante de sua igreja católica caldéia, em um bairro cristão, quando um grupo de rebeldes o puxou para dentro de um carro sob a mira de armas, disseram vários membros da grande população cristã de Mossul. A notícia chegou rapidamente ao Vaticano, que emitiu uma declaração condenando o seqüestro.

"A Santa Sé deplora da forma mais firme e determinada este ato terrorista", disse o padre Ciro Benedettini, um porta-voz do Vaticano.

Apesar de vários líderes religiosos xiitas e sunitas terem sido seqüestrados e mortos, esta foi a primeira vez que os rebeldes pegaram um proeminente líder cristão.

O seqüestro ocorreu em um dia tipicamente brutal no Iraque, com os rebeldes fuzilando policiais, disparando contra locais de votação e explodindo carros-bomba em sua campanha para semear o caos antes da eleição.

Em Buhriz, ao norte de Bagdá, as autoridades de segurança iraquianas disseram que vários soldados iraquianos foram mortos quando os rebeldes cercaram seu posto e os mataram com fogo de metralhadora.

Em Baiji, também ao norte de Bagdá, as autoridades iraquianas disseram que um suicida em um carro-bomba lançou este contra uma barreira, matando sete policiais.

Em Ramadi, no Oeste do Iraque, oficiais americanos disseram que um homem-bomba explodiu um táxi perto de um esquadrão de marines americanos. Havia informação conflitante sobre as vítimas, e a Corporação Marine divulgou uma breve nota dizendo que dois marines foram mortos na área, apesar de a nota não ter especificado se as mortes estavam relacionadas ao atentado suicida.

Em Basra, no sul, as testemunhas relataram que três locais de votação, incluindo um jardim de infância, foram atingidos por morteiros, não ferindo ninguém mas danificando os locais onde os eleitores votarão.

Na área de Fallujah, as forças iraquianas mataram 35 rebeldes ao longo do fim de semana, informou o Ministério da Defesa iraquiano.

O seqüestro de Casmoussa é o mais recente de uma série de ataques contra os cristãos do Iraque, que correspondem a menos de 3% da população de 28 milhões de habitantes. Apesar de não ter ocorrido nenhum grande derramamento de sangue, têm ocorrido vários atentados a bomba contra igrejas: dois em 8 de novembro, matando oito pessoas; cinco em Bagdá, em 16 de outubro, o início do Ramadã; e cinco, em ataques coordenados em Bagdá e Mossul em 1º de agosto, que mataram 12.

Os cristãos iraquianos têm se mantido discretos nos últimos meses, até mesmo cancelando a Missa do Galo no Natal por motivos de segurança. Todavia, as autoridades do Vaticano estimam que até 15 mil fugiram desde que os ataques tiveram início em agosto.

Apesar de não terem ocorrido ataques em grande escala no Iraque nos últimos três dias, coletivamente o número de mortos foi alto: mais de 60 mortos e dezenas de feridos.

A violência, que toca quase todo canto do país, parece ter chegado no momento esperado. As autoridades americanas em Bagdá previram há muito tempo um aumento à medida que as eleições se aproximassem, dizendo que os rebeldes estão cada vez mais desesperados --e determinados-- a arruinar a primeira incursão do Iraque na democracia.

"Haverá violência no dia da eleição? Haverá", disse o general George W. Casey Jr., o mais alto comandante americano no Iraque, em uma declaração na segunda-feira. "O inimigo que estamos combatendo não é gigante, mas é engenhoso e persistente."

Mas a violência poderá não afastar as pessoas em massa das urnas como temido. Segundo uma pesquisa divulgada na segunda-feira por um jornal de Bagdá, dois terços dos entrevistados na capital disseram que votarão. Metade disse que votará em partidos religiosos, metade em seculares.

Algumas autoridades iraquianas, mesmo aquelas em redutos rebeldes, prevêem um grande comparecimento. Por exemplo, um comandante da guarda nacional iraquiana em Baquba, uma cidade volátil que está dividida entre sunitas e xiitas, e ordem e caos, disse: "A maioria das pessoas daqui comparecerá aos centros de votação".

Ainda assim, o comandante pediu para que seu nome não fosse revelado, dizendo temer por sua vida.

Fornalha

Nos dias que antecedem a votação, os rebeldes parecem estar escolhendo cuidadosamente suas vítimas. Na sexta-feira, eles mataram um assistente do grão-aiatolá Ali Al Sistani, o mais reverenciado clérigo xiita do Iraque, juntamente com o filho do assistente e vários guarda-costas.

Na noite de domingo em Numaniya, ao sul de Bagdá, eles mataram o filho de outro assistente de Sistani enquanto ele voltava para casa após as orações, disse um porta-voz ligado ao aiatolá. Naquela mesma noite, três policiais iraquianos foram encontrados mortos ao lado de uma estrada perto da cidade de Najaf, no Sul, disseram autoridades iraquianas.

Em Kut, ao sudeste de Bagdá, um capitão de polícia e dois auditores do governo foram mortos por rebeldes no domingo, segundo a agência de notícias "The Associated Press", enquanto em um mercado em Bani Saad, nos arredores de Bagdá, autoridades iraquianas disseram que três pessoas foram mortas por um carro-bomba nesta semana.

Casey disse que, no geral, os ataques caíram significativamente em comparação ao pico em novembro, apesar de a maioria dos iraquianos estar dizendo que o país está mais perigoso e caótico do que há um ano.

"A violência permanecerá no mesmo nível por algum tempo", disse o general. "Insurreições, historicamente, levam muito tempo para serem derrotadas."

Um porta-voz do Ministério do Interior iraquiano, Sabah Kadhum, disse que o governo está tentando reprimi-la. "Nós estamos prendendo centenas de criminosos diariamente em diferentes partes do Iraque", disse Kadhum. "Mas, como você sabe, os interrogatórios levam muito tempo."

Também na segunda-feira, as forças armadas americanas disseram que dois soldados americanos morreram no domingo, após o jipe Humvee deles ter caído em um canal de Bagdá.

Casmoussa nasceu na antiga cidade de Qaraqosh, no Norte do Iraque, foi ordenado em 1962 e nomeado arcebispo de Mossul em 1999, disse um porta-voz do Vaticano. Ele chefia uma das duas arquidioceses da Igreja Católica Caldéia no Iraque, a outra sendo em Bagdá.

Em outubro passado, Casmoussa foi citado pelo serviço de notícias católico "Zenit" após falar em uma conferência religiosa em Guadalajara, México.

"Eu quero que a voz das pessoas oprimidas seja ouvida e que todos, principalmente os políticos, a escutem", disse ele. "Não permitam que as pessoas se tornem lenha para ser queimada em fornalhas."

*Contribuíram Mona Mahmoud e outros funcionários iraquianos do The New York Times em Bagdá, Basra, Mossul e Najaf; e Jason Horowitz, de Roma. Rebeldes querem escalada de violência até o dia da eleição no país George El Khouri Andolfato

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