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19/01/2005

John Grisham chega aos 50 no apogeu da carreira

The New York Times
Frank Bruni

Em Nova York
Chester Higgins Jr./New York Times

Seus romances "O Testamento" e "O Sócio" são ambientados no Brasil
Depois de dar três ou quatro voltas na mesa, o garçom tinha certeza de que estávamos prontos para pedir. Ele perguntou a John Grisham o que desejava e, instantaneamente, acreditou ter ouvido mal. "O risoto especial e o farfalle especial?" disse o garçom, como se tal imprudência de carboidratos fosse impensável para qualquer um com mais de dez anos de idade.

Sim, assegurou Grisham, é isso.

"Juntos?" perguntou o garçom.

O risoto primeiro, disse Grisham, depois a massa. Meia porção de cada, explicou. E vinho. Definitivamente, vinho. O sommelier está na casa?

Grisham voltou-se para a reportagem do NYT, no restaurante de Manhattan Fresco by Scotto, e sorriu. Não ficou nem um pouco alterado pela surpresa diante de seu pedido, estava palpavelmente pouco preocupado com sua falta de sofisticação e claramente à vontade com a idéia revolucionária de comer precisamente o que queria, no momento que queria.

Em duas horas de almoço, essa talvez fosse a razão 96 para alguém se ressentir de John Grisham e lançar uma praga de lagostas contra ele, ou ao menos de uma revisão negativa na Publishers Weekly. Ele não é apenas um dos melhores romancistas de nossos tempos. Aparentemente, também, é o mais ajustado.

A razão 84 era que Grisham, apesar de disposto a ingerir grandes volumes de amido, parecia magro. Além disso, mantém uma aparência de ator de cinema (razão 65), com quase 50 anos.

Razão 71: Ele é tão tranqüilo que ninguém se sentiria bem em ressentir-se dele. "Sou o cara mais sortudo que você jamais vai conhecer", disse ele, simultaneamente admitindo a fábula que é a sua vida e subestimando seu próprio esforço em criá-la.

Ele relembrou seu passado. Era um advogado de uma pequena cidade no Mississippi; um político com um manuscrito na mão e uma estreita esperança quando, há 15 anos neste mês, um agente ligou e disse que tinha vendido os direitos para o cinema de "A Firma", mesmo antes de o livro encontrar um editor, por US$ 600.000 (em torno de R$ 1,5 milhão).

"Acordei e tinha ganhado na loteria", lembra-se, falando com um sotaque pronunciado sulista. "Parei de advogar. Parei de fazer política. E então, por 15 anos, tive o luxo de ficar em casa, estar com meus filhos, ser técnico de seu time de futebol. Não perdi um jogo. Não perdi nada." Essas crianças, um filho de 21 anos e uma filha de 18, agora estão na faculdade.

Grisham teve esse luxo, em parte, porque continuou escrevendo ao menos um livro por ano, e esses livros venderam muito.

Seu 18º romance, "The Broker" (O Corretor), foi publicado pela Doubleday na semana passada. Quase inevitavelmente vai subir ao zênite da lista de mais vendidos e ficar ali, porque é essencialmente um suspense jurídico e é isso que fazem os suspenses jurídicos de Grisham além de "A Firma" ("O Dossiê Pelicano", "O Júri", "O Sócio", "A Intimação", "Tempo de Matar", "A Câmnara de Gás", "O Testamento", "O Advogado", "O Último Jurado").

Nos últimos 15 anos, foram vendidas mais de 100 milhões de cópias de seus livros no mundo todo. O número provavelmente o torna o escritor mais bem sucedido comercialmente no mundo nesse período.

Mas isso, aparentemente, não lhe subiu à cabeça. Sua atitude diante do almoço --ou da comida em geral-- reflete seu notável equilíbrio. Ele adora a boa comida e tenta, de forma discreta, expandir seus horizontes culinários, um esforço ajudado por seu dinheiro e disponibilidade de tempo. Ele não se tornou obsessivo, entretanto, nem pretensioso nem fetichista.

Em uma viagem à França, há vários anos, com sua mulher e filhos, ele planejou jantar em cinco restaurantes de três estrelas do guia Michelin em cinco noites consecutivas, disse ele.

"Mas, depois do terceiro, houve uma revolta declarada. Cada refeição durava ao menos três horas." A família foi direto para os bistrôs e nunca se arrependeu.

Com um brilho nos olhos, recita os nomes dos restaurantes de Nova York que mais gosta: Daniel, Gotham Bar and Grill, Balthazar. Ele adora o Le Bernardin. "Sempre que vou lá, tento comer um ou dois peixes de que nunca ouvi falar", disse ele. "É um lugar que dá para fazer isso". Ele gostou do WD-50, no Lower East Side, porque "tem umas coisas realmente malucas".

Grisham vai de sua casa, uma fazenda de 250 anos perto de Charlottesville, Virgínia, para Manhattan várias vezes por ano. O escritório de seu advogado é perto do Scotto by Fresco, por isso há anos ele vem a esse restaurante para almoçar e discutir os contratos de publicação.

Ele e seu advogado têm muitos contratos a discutir. Grisham é publicado em mais de duas dúzias de países e em número similar de idiomas e tem controle contratual sobre o que acontece nos filmes de seus livros, inclusive que atores farão os papéis principais.

Ele contou que, quando o diretor estava escolhendo o elenco de "Tempo de Matar", ele vetou Val Kilmer ("Não é um grande ator", disse ele) e Woody Harrelson ("do ruim para o pior") para o papel do jovem advogado idealista, que foi para Matthew McConaughey.

Essas são as vantagens do poder de Grisham. E tem mais. Em "The Broker", por exemplo, um prisioneiro federal com importantes segredos é liberado e levado para outro país, para que o governo americano veja quem tenta matá-lo. O autor, então, escolheu o país estrangeiro baseado simplesmente em onde gostaria de pesquisar. Destino: norte da Itália, especificamente Bolonha.

"Foi pura indulgência", disse Grisham. "Absolutamente pura indulgência." Na Bolonha, passou a gostar imensamente de tortellini e brunello. Em seu almoço, bebeu um brunello de 1999, mas com moderação, parando antes do fim da segunda taça.

Ele terminou seu risoto de salmão com mariscos, sementes de anis e manteiga, mas não seu farfalle de vitela assada com molho de tomate. Ele não quis sobremesa. Grisham vigia o que come e corre de 8 a 12 km por dia.

Mas e se estiver no meio de um livro? Mantém a disciplina? Ou será que bebe mais ou busca comidas que o confortam? Será que desperta apetites que não consegue negar?

"Sou emocionalmente desapegado dos romances, o máximo possível", disse ele. "Não vou perder o sono. Não vou mudar minha rotina. Não vou mudar minha alimentação."

Ele acrescentou: "Esses livros são o que são. Não são grande literatura. O que eu tento fazer é ficção popular de alta qualidade. Escrevo ficção popular."

Mais tarde, prosseguiu: "Quando termino um livro, estou começando a escrever o seguinte. Estou pensando um ou dois livros na frente."

Ele continua escrevendo porque, disse ele, "as histórias e idéias ainda vêm com muita facilidade", acrescentando, "não é algo com o qual me debato".

Grisham precisa de seis meses de trabalho para manter seu ritmo de lançamento de um livro por ano, disse ele. Isso permite cerca de seis meses de descanso.

"Então, se quiser praticar o mergulho submarino por um mês, posso fazê-lo", disse ele, dando um exemplo teórico. Ou estudar italiano, o que está fazendo. Ou tirar um final de semana longo com amigos em um novo resort do Four Seasons, em Costa Rica. Esse é o plano para seu próximo aniversário, daqui a três semanas.

É seu 50º. Para muitas pessoas, seria uma marca cheia de arrependimentos que vêm com o reconhecimento de ambições não realizadas, de boas ações nunca concretizadas.

Não para Grisham, que escreveu e financiou um filme fracassado sobre o beisebol infantil, "Mickey", porque teve vontade, e viaja regularmente ao Brasil, com um grupo da igreja, para fazer serviço voluntário.

Seu aniversário próximo o faz sentir-se agradecido. "Quando você chega aos 50, você conhece tantas pessoas que não chegaram lá", disse ele.

Tão sensato. Razão 102. "Sou apenas um home de sorte", diz o autor mais popular do mundo Deborah Weinberg

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