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19/01/2005

Rice promete que EUA terão postura multilateral

The New York Times
David Stout

Em Washington
Condoleezza Rice prometeu nesta terça-feira (18/01) que, como secretária de Estado, trabalhará incansavelmente para fortalecer as alianças americanas ao redor do mundo, seguindo ao mesmo tempo a política do presidente Bush de disseminar a liberdade e a democracia.

Citando recentes comentários de Bush, Rice disse que os Estados Unidos "são guiados pela convicção de que nenhuma nação pode construir sozinha um mundo melhor, mais seguro".

"Alianças e instituições multilaterais podem multiplicar a força das nações amantes da liberdade", disse ela.

"Se for confirmada, tal convicção central guiará minhas ações", disse Rice ao Comitê de Relações Exteriores do Senado, em uma audiência de confirmação que ocasionalmente produziu discussões amargas. Sua promessa pareceu visar tranqüilizar antigos aliados americanos, particularmente França e Alemanha, de que os Estados Unidos não traçarão um curso unilateral no segundo mandato do presidente Bush.

A certa altura, Rice disse que os Estados Unidos apreciariam a ajuda da Alemanha, que tem treinado a polícia nos Emirados Árabes Unidos, em um eventual trabalho no Iraque. "Se eles quiserem fazer mais", disse Rice, "eles só precisam dizer que podem fazer mais, e eu posso garantir que vamos querer que façam".

Fogo cruzado

Rice, que é a conselheira de segurança nacional de Bush, foi pressionada pelos senadores Joseph R. Biden, de Delaware, o líder da bancada democrata na comissão, e John Kerry, de Massachusetts, ex-candidato democrata à Casa Branca, sobre a campanha liderada pelos americanos no Iraque, que teve início com uma guerra à qual os líderes em Paris e Berlim se opuseram e que se transformou em uma operação de manutenção da paz que tem sido mais longa e sangrenta do que o esperado.

Sob questionamento de Biden, a indicada insistiu que o presidente Bush "recebeu boa orientação militar" desde o início. Mas ela disse que eventos imprevistos tornaram a missão no Iraque mais difícil do que o esperado.

Um problema, disse ela, foi que os simpatizantes de Saddam Hussein se dispersaram diante das forças avançadas americanas e se tornaram parte da insurreição mortífera, esquiva, que tem provocado derramamento de sangue quase diário à medida que as eleições de 30 de janeiro se aproximam.

"Eles não se ergueram e lutaram", disse Rice.

E isto, disse Biden, tem sido um problema fundamental entre as nascentes forças de segurança iraquianas. O treinamento delas, disse ele, não tem transcorrido tão bem ou rapidamente quanto avaliações anteriores do governo indicavam, um dos motivos para nem sempre serem capazes de "atirar direito e manter sua posição" em encontros com rebeldes.

Rice reconheceu que as forças de segurança não sempre atuam como esperado, e que mais treinamento é necessário. "O treinamento inicial é apenas isto --um treinamento inicial", disse ela. "Nós achamos que há um vácuo de liderança."

Mas o senador Kerry disse não ter ficado satisfeito com o comentário de Rice de que as forças de Saddam Hussein desapareceram inesperadamente no interior. "Foi exatamente o que fizeram em 91", disse Kerry, se referindo à Guerra do Golfo Pérsico.

Kerry disse que os Estados Unidos parecem não ter aprendido com a guerra de 1991, e o custo de quebrar promessas. As forças de Hussein debandaram em 1991, ele disse, porque os Estados Unidos prometeram que lhes pagariam se o fizessem.

"Mas nós não pagamos", prosseguiu Kerry. "Nós quebramos tal promessa. E eles ficaram furiosos e organizados."

Mais recentemente, disse Kerry, "nós fomos salvar o Iraque de Saddam Hussein. Agora eu acho que temos que resgatar nossa política de nós mesmos". O senador disse que a confirmação de Rice é certa, mas que seu voto, não.

Rice respondeu em parte que, sejam quais forem os problemas e custos, a campanha para derrubar Saddam Hussein foi a coisa certa a se fazer. Posteriormente, ela disse acreditar plenamente na campanha, independente do fracasso de encontrar armas mortais não-convencionais, cuja suposta existência foi citada pelo presidente Bush e seus principais assessores como o motivo chave para ir à guerra.

"Isto nunca seria fácil", disse Rice. "Sempre haverá altos e baixos. Eu estou certa que tomamos muitas decisões, algumas das quais foram boas, algumas podem não ter sido boas. Mas a decisão estratégica de derrubar Saddam Hussein foi a correta."

Tal declaração provocou uma forte resposta da senadora Barbara Boxer, democrata da Califórnia, que disse que a resolução do Senado de apoiar a guerra --que teve a oposição de Boxer-- foi baseada em garantias do governo de que o Iraque tinha armas de destruição em massa.

Lembrando os comentários pré-guerra de Rice sobre as supostas ambições do ditador de Bagdá de adquirir armas nucleares, a senadora Boxer disse: "Eu vou deixar registrada uma série de tais declarações feitas por você que provaram não ser consistentes com os fatos".

Após mais algumas discussões nesta linha, Rice disse: "Senadora, nós podemos ter esta discussão da forma como quiser. Mas eu realmente espero que evite contestar minha integridade. Muito obrigado".

"Não estou", respondeu Boxer. "Estou apenas citando o que você disse."

Rice respondeu que apreciava uma maior discussão, "mas realmente espero que não insinue que trato a verdade levianamente".

Momentos depois, o presidente do comitê, o senador Richard G. Lugar, republicano de Indiana, convocou o recesso do meio-dia.

O rápido endosso de Rice pelo comitê de 18 membros parecia virtualmente certo, com uma confirmação pelo Senado provavelmente na quinta-feira (20), o dia da posse do presidente Bush. Rice então substituirá o secretário Colin L. Powell, ao qual ela elogiou na terça-feira como amigo e mentor.

Multilateralismo

Apesar de suas duras questões, Biden recebeu Rice calorosamente e disse que votará a favor dela. E outra proeminente democrata, a senadora Dianne Feinstein da Califórnia, que apresentou Rice ao comitê, disse que ela será uma boa secretária de Estado.

O senador Lugar disse que o próximo secretário de Estado assumirá o cargo em um momento importante. "A credibilidade americana no mundo, o progresso da guerra contra o terrorismo, nosso relacionamento com nossos aliados, tudo será altamente afetado pelas ações do secretário de Estado."

Biden concordou com tal avaliação, e demonstrou empatia com os líderes e povos dos países europeus e de outros lugares que ultimamente têm expressado frustração com o que consideram uma disposição de Washington de agir unilateralmente.

"Nós inspiramos tanta inveja e ressentimento quanto admiração e gratidão", disse Biden. "As relações com muitos de nossos mais antigos amigos estão, francamente, no pior estado no momento."

Biden, que foi eleito pela primeira vez ao Senado em 1972, enquanto os Estados Unidos estavam deixando o Vietnã, disse que espera que Rice seja uma voz de maior sinceridade por parte do governo no empreendimento no Iraque, em termos de quantas tropas serão necessárias e por quanto tempo.

A era do Vietnã deveria ter ensinado aos políticos americanos que "nenhuma política externa pode ser sustentada sem o consentimento informado do povo americano", disse Biden. Pessoas demais que alertaram, antes da guerra no Iraque, de que seriam necessárias mais tropas e mais dinheiro "foram afastadas", disse ele.

Rice disse que tentará fortalecer a vasta burocracia do Departamento de Estado para as mudanças e oportunidades formidáveis do século 21. Ela disse que os Estados Unidos continuarão pressionando o Irã e a Coréia do Norte a abandonarem suas ambições nucleares, trabalhando por uma paz duradoura no Oriente Médio, buscando amizade com a Rússia ao mesmo tempo que a instigando a cumprir os ideais da liberdade.

E ela disse que fará o melhor para melhorar a imagem dos Estados Unidos nos cantos do mundo onde ela foi minada por "propaganda de ódio" e "mitos perigosos".

"E os americanos devem fazer um sério esforço para entender outras culturas e línguas estrangeiras", disse ela. "Nossa interação com o restante do mundo deve ser uma conversa, não um monólogo." "Nossa relação com o mundo deve ser a conversa, não o monólogo" George El Khouri Andolfato

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