UOL Notícias Internacional
 

20/01/2005

Pesquisas favoráveis a Kerry eram distorcidas

The New York Times
Jacques Steinberg

Em Nova York
As empresas de pesquisa que desenvolveram o sistema de apuração de US$ 10 milhões utilizado durante a eleição presidencial nos EUA concluíram que o sistema mostrou erroneamente uma vantagem do senador John Kerry na disputa não por causa de um problema tecnológico, mas por causa de mais variáveis humanas.

Entre elas a relativa juventude dos pesquisadores, que tinham mais sucesso em obter entrevistas com os eleitores de Kerry do que com os do vencedor de fato, o presidente Bush. As conclusões de duas empresas, a Edison Media Research e a Mitofsky International, estão contidas em um relatório de 77 páginas divulgado nesta quarta-feira (19/01) por elas e por um consórcio de seis organizações de notícias --cinco redes de televisão e a agência The Associated Press (AP)-- que encomendou o novo sistema.

Entre as recomendações feitas pelas empresas de pesquisa estão a de que o consórcio contrate pesquisadores de uma faixa etária mais abrangente (metade dos que trabalharam na eleição tinham 34 anos ou menos), e que faça um melhor trabalho de treinamento destes pesquisadores, assim como um trabalho junto às comunidades individuais para assegurar que as entrevistas possam ser realizadas mais próximas dos locais de votação.

Apesar de os membros do consórcio terem em geral elogiado as empresas pela minúcia de sua investigação, os representantes das organizações de notícia disseram que ainda não decidiram se manterão a Edison e a Mitofsky para futuras eleições. Tal decisão deve ocorrer em um prazo aproximado de um mês.

"Nós todos estamos decidindo qual será o próximo passo", disse John Stack, vice-presidente de reportagem da Fox News, um dos membros do consórcio. "Nós sabemos que é um sistema impreciso. Mas estamos fornecendo um serviço importante para o público americano. Nós temos que tentar obter o melhor produto possível."

Apesar de qualquer impressão errada criada pelas projeções falhas ter sido corrigida --usando a contagem dos votos reais-- antes dos jornais terem impresso os resultados e as redes os divulgarem, alguns editores e produtores se queixaram de ter pago dezenas de milhares de dólares por um sistema que produziu resultados inutilizáveis e que os levou a tomar decisões erradas sobre a alocação de recursos e cobertura no dia da eleição.

"Nós entendemos que a impressão dada pelos resultados durante o dia não representou o que de fato aconteceu", disse um dos autores do relatório, Joseph Lenski, o vice-presidente executivo da Edison Media Research, em uma entrevista na quarta-feira.

Em uma tentativa de prevenir a recorrência daquela que foi a mais visível divulgação de resultados falhos --vazamentos de dados, começando no início da tarde, para vários diários de Internet-- o consórcio, o National Election Pool, anunciou na quarta-feira que adiará em cinco horas a divulgação dos resultados de boca-de-urna para organizações de notícias em futuras eleições --até às 18 horas, horário da Costa Leste.

Lenski disse que nenhuma das organizações de notícias que contratou o sistema --as três principais redes de notícias, CNN, Fox News e AP-- pediu seu dinheiro de volta em conseqüência da atuação falha. Das dezenas de outras organizações de notícias, incluindo jornais e emissoras de televisão, que assinaram diretamente o serviço, Lenski disse que apenas um, o The New York Times, requisitou um reembolso parcial.

Catherine Mathis, uma porta-voz do NYT, disse que Bill Keller, o editor executivo, escreveu uma carta ao consórcio após a eleição "expressando nosso senso de que fomos mal servidos". Mathis disse que o pedido de Keller de reembolso parcial foi recusado.

Ela disse que os editores do jornal estavam analisando se usarão o serviço em futuras eleições.

Don Frederick, editor de política nacional do "Los Angeles Times", disse que seu jornal pretende realizar uma análise semelhante antes de decidir se pagará pelos resultados do consórcio no futuro. No final, ele disse, a pesquisa de boca-de-urna da eleição presidencial foi de pouca ajuda para os repórteres e editores do jornal enquanto planejavam a cobertura naquele dia.

"Enquanto caminhamos para a campanha de 2008, a editoria de política do nosso jornal vai querer maiores informações sobre o que saiu errado", disse ele.

O novo sistema foi desenvolvido depois que um precursor, o Voter News Service, contribuiu para a rede ter declarado que o resultado da eleição de 2000 na Flórida era favorável a Al Gore, depois a George W. Bush, e depois a nenhum dos dois. Na eleição de 2002, o sistema entrou quase totalmente em colapso.

Apesar de o novo sistema ter evitado tais ciladas, os pesquisadores descobriram que suas projeções exageraram os votos obtidos por Kerry em 26 Estados, enquanto exageraram os votos conquistados por Bush em quatro Estados.

O sistema não passou sem falhas técnicas no dia da eleição. Por exemplo, as empresas de pesquisa concluíram que, pelo menos no início da tarde, o sistema "exagerou a proporção de mulheres no eleitorado", um problema aparentemente causado por um erro de programação. O relatório também documentou dois casos significativos em que as transmissões do sistema para as organizações de mídia foram interrompidas.

Ao apresentarem os motivos para a avaliação equivocada da atuação de Kerry ter sido tão pronunciada, os pesquisadores disseram estar convencidos de que a base técnica na qual seu trabalho se baseia, incluindo os distritos escolhidos para amostragem e os métodos de processamento de dados, é sólida.

Em vez disso, o relatório concluiu que pelo menos parte do problema foi baseado nas "interações" entre alguns pesquisadores e eleitores. No geral, as pesquisas pareceram representar exageradamente os eleitores mais jovens, que tendiam a votar em Kerry, e a representar insuficientemente os eleitores mais velhos, que tendiam a votar em Bush.

Ao analisar os resultados, o relatório foi cauteloso em indicar que não havia evidência de que os pesquisadores embarcaram em um esforço consciente para distorcer os resultados.

O relatório se concentrou na idade média dos pesquisadores, 34 anos, e argumentou que talvez os eleitores mais jovens tenham se sentido mais à vontade do que os eleitores mais velhos para responder às perguntas dos pesquisadores mais jovens.

Mas, ao destacar que a pesquisa não é uma ciência precisa, o relatório disse que não sabe com certeza se a idade dos pesquisadores foi um fator responsável pela participação dos eleitores na pesquisa.

"É difícil apontar precisamente", concluiu o relatório. Juventude de pesquisadores afastava eleitores de George W. Bush George El Khouri Andolfato

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