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20/01/2005

Se todo mundo votasse, só o Irã escolheria Bush

The New York Times
Thomas L. Friedman

Em Paris
NYT Image

Friedman é colunista
Assistir à segunda cerimônia de posse de George W. Bush de um bistrô em Paris é que nem assistir em um bar de NY ao time (de beisebol) do Red Sox, de Boston, ganhar um campeonato. Há possibilidades de que alguém por perto esteja celebrando --quer dizer, alguém na Europa deve estar feliz com isso-- mas não é fácil encontrar esse admirador.

Por que os europeus estão assim tão tristes, tão blues quanto à reeleição de George W. Bush? É porque a Europa é o maior "Estado azul do mundo" (associado na política americana ao Partido Democrata). Toda essa região do mundo é uma rapsódia em azul.

Nesses dias que correm, até mesmo o pequeno grupo contra o anti-americanismo na União Européia se sente desconfortável ao ser associado ao governo Bush. Há os euroconservadores, mas, talvez com a exceção do partido que governa a Itália, não há nada por aqui que chegue a corresponder ao Partido Republicano de Bush e suas posições anti-aborto, antigays, anti-impostos, antiprevidência social, anti-Kyoto, e às posições abertamente religiosas e pró-guerra no Iraque.

"Se você considerar os três maiores partidos na Grã-Bretanha --Trabalhista, Liberal e Conservador-- "as visões deles sobre Deus, armas, gays, pena de morte, previdência social nacional e meio-ambiente, todas elas caberiam em algum canto do Partido Democrata americano", diz James Rubin, porta-voz do Departamento de Estado no governo Clinton, que atualmente trabalha em Londres. "É por isso que eu me entendo bem com os três partidos por aqui. Eles são todos Democratas!"

Se pelo lado oficial todos os governos saúdam a nova posse do presidente Bush, o tom que predomina no continente (se eu puder incorrer numa generalização ridiculamente abrangente!) parece ser o de choque e espanto pelo fato de que os americanos realmente reelegeram esse homem.

Antes da reeleição de Bush, a atitude predominante na Europa realmente era: "Não somos anti-americanos, somos anti-Bush". Mas agora que o povo americano já votou para reeleger Bush, a Europa tem problemas em manter essa distinção de posições.

A lógica da posição européia indica que agora eles deveriam ser anti-americanos, não apenas anti-Bush. Mas a maioria dos europeus não parece querer seguir por aí. Eles sabem que os Estados Unidos são mais complexos. Portanto existe uma vaga esperança no ar, de que, quando Bush visitar a Europa no mês que vem, ele chegará agitando um ramo de oliveiras que permitirá a ambos os lados pelo menos fazer de conta que esse casamento sem amor continua, pelo bem das crianças.

"Na noite da eleição, os europeus se convenceram de que Kerry havia vencido, e ficaram se dizendo que sabiam o tempo todo que os americanos não eram tão ruins assim --mas, subitamente, assim que a verdade emergiu, houve um sentimento de lenta resignação: Oh, bem, acho que estávamos sonhando", disse Dominique Moisi, uma das principais analistas de política externa da França.

"Na verdade, os Estados Unidos da vida real estão se afastando de nós. Não compartilhamos os mesmos valores. Na França isso se tornou uma questão bem emocional. Foi como se os americanos estivessem votando também para presidente da França assim como para presidente dos Estados Unidos".

Percebe-se cada vez mais nesses dias que correm a sensação de que os Estados Unidos agora são tão poderosos que influenciam mais a política de um determinado povo do que seu próprio governo nacional --tanto que todo mundo quer votar em nossas eleições.

Elizabeth Angell, uma americana de 23 anos que estuda em Oxford, me disse que um amigo paquistanês perguntou a ela na escola se ele poderia pelo menos observá-la preencher a cédula do voto à distância para a eleição americana: "Ele me disse, É o que eu poderia fazer que mais me aproximaria do ato de votar. E eu gostaria de votar na sua eleição porque o seu governo afeta minha vida diária mais que o meu próprio governo."'

Um resultado concreto da eleição americana provavelmente será o fortalecimento do foco da Europa em seus próprios esforços para construir os Estados Unidos da Europa, para mais adiante minimizar a aliança transatlântica.

"No que diz respeito às emoções, a reeleição de Bush ressaltou o sentimento de distanciamento entre a Europa e os Estados Unidos", acredita Moisi. "Não é que sejamos tão contrários assim aos Estados Unidos. Mas é que não podemos entender a evolução daquele país. Essa eleição enfraqueceu o próprio conceito de Ocidente."'

De maneira curiosamente divertida, um país desse lado do oceano que teria eleito Bush não está na Europa, mas no Oriente Médio: é o Irã, onde muitos jovens aparentemente esperam que Bush remova seus líderes despóticos, assim como ele fez no Iraque.

Um estudante de Oxford que acabou de voltar de uma pesquisa no Irã me disse que os jovens iranianos estavam "adorando qualquer coisa que o governo deles odeie", como Bush, "e odiando qualquer coisa que o governo adore".

Teerã está coberta de pichações "Abaixo os Estados Unidos", segundo o estudante. Mas quando ele tentou fotografar as pichações, os estudantes iranianos que estavam com ele o demoveram. Eles disseram que as inscrições estavam ali por causa do governo, e que a maioria dos iranianos não concordava com aquilo.

O Irã, segundo esse estudante, quem diria, é um verdadeiro "Estado vermelho (republicano)". Agora vai entender... Europa tem valores próximos ao Partido Democrata, na oposição Marcelo Godoy

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