UOL Notícias Internacional
 

22/01/2005

'Atual governo é mais corrupto que o de Saddam'

The New York Times
Dexter Filkins*

Em Bagdá, Iraque
No início deste mês, segundo autoridades iraquianas e americanas, US$ 300 milhões em cédulas de dólar foram retiradas do Banco Central do Iraque, colocadas em caixas e discretamente colocadas em um vôo charter para o Líbano.

O dinheiro era para ser usado na compra de tanques e armas de mercadores de armas internacionais, disseram as autoridades, como parte do esforço acelerado para montar uma divisão blindada para o novo Exército iraquiano. Mas para onde exatamente foi o dinheiro, para quem e precisamente para o quê, continua um mistério, pelo menos para os iraquianos que dizem estar tentando descobrir.

O negócio de US$ 300 milhões parece ter sido executado fora dos controles financeiros desenvolvidos pelos Estados Unidos para ajudar o Iraque --que deu o calote na sua dívida externa nos anos 90-- a importar bens legalmente. Segundo a maioria dos relatos, não há licitação pública para contratos de armas, nem o negócio foi aprovado pelo Gabinete iraquiano de 33 membros.

Nesta sexta-feira (21/01), o vôo misterioso se tornou assunto na campanha eleitoral apoiada pelos Estados Unidos neste país, quando o ministro da Defesa, Hazim Al Shaalan, que enfrenta acusações de corrupção, ameaçou prender um rival político.

Em uma entrevista para a rede de TV Al Jazeera, Shaalan disse que ordenaria a prisão de Ahmad Chalabi, um dos políticos mais proeminentes do país, que tem acusado publicamente Shaalan de enviar dinheiro para fora do país. Shaalan disse que extraditaria Chalabi para enfrentar suas próprias acusações de corrupção.

"Nós o prenderemos e o entregaremos para a Interpol", esbravejou Shaalan na Al Jazeera. A acusação contra Chalabi, ele disse, seria "difamação" de Shaalan e seu ministério. Ele sugeriu que Chalabi fez as acusações para favorecer suas ambições políticas.

Chalabi fez a alegação contra Shaalan pela primeira vez na semana passada, em outra rede de televisão de língua árabe. Ele disse que não há motivo legítimo para o governo iraquiano usar moeda para pagar por bens no exterior. Ele deixou implícito que pelo menos parte do dinheiro estava sendo usado para outras coisas.

"Por que US$ 300 milhões em dinheiro foram colocados em um avião?" perguntou Chalabi em uma entrevista nesta semana. "Para onde foi o dinheiro? Para que foi usado? Para quem foi dado? Nós não sabemos."

O vôo de US$ 300 milhões foi o assunto da classe política iraquiana, e alimentou a impressão entre muitos iraquianos, e muitas autoridades ocidentais, de que o governo interino iraquiano, formado após o término formal da ocupação americana em junho, está tomado pela corrupção. Não está claro se o dinheiro era iraquiano ou americano, ou ambos.

"Eu lamento dizer que a corrupção aqui está pior do que na era Saddam Hussein", disse Mouwafak Al Rubaie, o conselheiro de segurança nacional iraquiano, que disse não ter sido informado sobre detalhes do vôo ou do negócio de armas.

Tal acusação também foi feita fora do Iraque. Isam Al Khafaji, diretor do Iraq Revenue Watch, disse que a corrupção se tornou um "segredo aberto" dentro do governo iraquiano.

"Não há sistema legal para impetrar acusações contra qualquer um que não esteja seguindo as regras e não cumprindo a lei, especialmente se você é um político poderoso", disse Al Khafaji. "Esta é a tragédia do Iraque --todos conduzem negócios públicos como seu feudo privado."

Shaalan não respondeu aos vários pedidos de entrevista, mas um de seus assessores insistiu que o negócio de armas foi legal e que o dinheiro foi bem gasto.

Contatado por telefone no Líbano, o assessor, Mishal Sarraf, disse que o negócio de armas foi aprovado por quatro importantes membros do governo iraquiano, incluindo o primeiro-ministro Ayad Allawi e Shaalan. Ele disse que o negócio foi executado rapidamente devido à urgência da guerra. Ele disse que não ter percebido que o negócio foi realizado em dinheiro.

"Nós não queremos esconder nada", disse Sarraf.

Mishal disse que os armamentos foram fabricados na Polônia, República Tcheca, Turquia, Ucrânia e nos Estados Unidos. Ele disse que o dinheiro trouxe transportes blindados, tanques e até mesmo jipes Humvee.

Ele se recusou a dizer quem recebeu o dinheiro, dizendo ser perigoso demais.

"Eles poderiam ser mortos", disse ele.

A luta pública com Shaalan é a mais recente reviravolta política de Chalabi, que já foi o "queridinho" do governo Bush e um dos principais proponentes da invasão ao Iraque. Mas de lá para cá ele se tornou um pária nos Estados Unidos, acusado de exagerar as atividades de armas de Saddam.

Após um breve desentendimento com o governo Bush, que o acusou de passar segredos para o governo iraniano, Chalabi começou a reparar suas relações com os americanos, e está se posicionando para concorrer ao cargo de primeiro-ministro.

Ao ameaçar prender Chalabi, Shaalan parece estar tentando desviar o assunto para os problemas legais de Chalabi. Na Jordânia, Chalabi enfrenta acusações de ter se apropriado de mais de US$ 40 milhões do Petra Bank, que quebrou nos anos 90.

Chalabi há muito tempo argumenta que as acusações contra ele na Jordânia são infundadas, parte de uma vingança executada por causa de sua oposição a Saddam. Chalabi estava fazendo campanha no Sul do Iraque na sexta-feira, e não pôde ser contatado após a ameaça de Shaalan de prendê-lo.

Os detalhes do negócio de armas ainda são poucos, mas segundo Sarraf e outras autoridades iraquianas, ele teve início no final do ano passado como parte do esforço para fortalecer as forças armadas iraquianas diante da implacável insurreição.

Sarraf disse que o contrato não foi apresentado diante de todo o Gabinete, por haver uma insurreição na forma como lidar com a insurreição. O gabinete de Allawi não respondeu aos repetidos pedidos de entrevista.

"Foi tudo apropriado", disse Sarraf.

Segundo um alto funcionário financeiro iraquiano com conhecimento do negócio, que falou sob a condição de anonimato devido à gravidade do assunto, os US$ 300 milhões foram transferidos para o Warqa Bank, uma instituição financeira privada iraquiana com uma capitalização de cerca de US$ 7 milhões. Tal banco, disse o funcionário iraquiano, não tem capacidade de transferir dinheiro eletronicamente para outra conta em qualquer país. Uma quantia equivalente em dinheiro foi então retirada do cofre do Banco Central do Iraque, levada ao aeroporto, carregada em um avião e enviada ao Líbano.

"O governo daqui sabe que está chegando ao fim", disse o funcionário. "Isto é o que governos fazem quando estão chegando ao fim."

Um segundo funcionário financeiro iraquiano, que também falou sob a condição de anonimato, confirmou a transação. O funcionário descreveu o negócio como "incomum" e disse que ordenou uma investigação da transação.

O alto funcionário financeiro iraquiano disse que o negócio de armas parecia driblar o elaborado mecanismo financeiro estabelecido pelos americanos no final da guerra, que visava ajudar o Iraque a importar bens do exterior. Segundo o sistema, a receita iraquiana destinada a importações é canalizada pelo Banco de Comércio do Iraque e é facilitada --e controlada-- por grandes instituições financeiras americanas.

O sistema foi desenvolvido para impedir os credores de tomarem o dinheiro iraquiano necessário para importações e também para controlar a forma como o governo iraquiano gasta seu dinheiro.

De fato, o funcionário iraquiano com conhecimento do negócio disse estar preocupado com a possibilidade dos US$ 300 milhões terem sido tomados pelos muitos credores do governo iraquiano.

Al Khafaji do Iraqi Revenue Watch disse que o mecanismo financeiro foi estabelecido para dar cobertura para todas as transações do governo que lidam com importações, incluindo a compra de armas.

Mas uma autoridade americana com conhecimento da transação disse que tirar US$ 300 milhões do país, apesar de não ortodoxo, foi provavelmente a única forma de o governo iraquiano comprar armas.

O motivo, segundo a autoridade americana, é que o mecanismo financeiro estabelecido após a guerra exige que a receita do petróleo iraquiano seja gasta em propósitos "humanitários". Isto significa que o Banco de Comércio do Iraque não poderia ser usado para compra de armas, daí a necessidade da compra em moeda.

Mas isto já mudou, disse a autoridade, com a assinatura de uma ordem executiva pelo presidente Bush no final do ano passado.

*Coolaborou Jan Mouawad, de Nova York. A afirmação é de conselheiro militar, sobre o sumiço de US$ 300 mi George El Khouri Andolfato

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