UOL Notícias Internacional
 

23/01/2005

Iraque entra dividido na semana de eleição vital

The New York Times
Jeffrey Gettleman

Em Bagdá, Iraque
Hejaz Hazim, um engenheiro de computadores que não conseguia encontrar trabalho na sua área e agora lava roupas, bateu seu ferro de passar em um vestido no outro dia e extravasou sua revolta com a futura eleição.

"Esta eleição é uma farsa", disse Hazim. "Não há água potável na cidade. Não há segurança. Por que eu votaria?"

No outro lado da cidade, na fortaleza xiita de Sadr City, um merceeiro chamado Abu Allah estava atrás de suas pirâmides de frutas e disse que ele votará, independente do que vier a acontecer.

"Mesmo se houver uma bomba no meu local de votação", disse ele. "Eu entrarei lá."

O Iraque está mais dividido agora do que nunca.

Com eleições cruciais no Iraque marcadas para 30 de janeiro, as pessoas daqui ainda têm pontos de vista diferentes sobre a votação, com as disparidades aparentemente baseadas não em classe, educação, sexo ou idade, mas sim segundo as divisões teimosamente persistentes de afiliação étnica e religiosa do país.

A maior divisão parece existir entre os grupos mais poderosos no Iraque: os xiitas e os sunitas. Todo xiita entrevistado para este artigo disse que planeja votar. Apesar de haver uns poucos líderes sunitas concorrendo nas eleições, todos os sunitas entrevistados, com exceção de um, disseram que vão boicotar.

Isto poderá ser uma humilhação para as forças americanas e para o novo governo iraquiano, que têm atacado impiedosamente as áreas sunitas em uma campanha até o momento malsucedida para eliminar a resistência.

É claro que as opiniões de 50 a 60 pessoas não constituem uma amostra científica. Mas são reveladoras.

Quando perguntado sobre sua opinião quanto ao processo eleitoral, Jabbar Saeed, um empresário em Fallujah, uma cidade dominada pelos sunitas e que foi reduzida a escombros não apenas uma, mas duas vezes, disse que os sionistas estavam por trás da eleição e acrescentou: "Esta não é uma eleição livre e honesta".

Quando ao futuro, ele disse: "As coisas vão piorar".

O Iraque sempre foi uma mistura tensa de xiitas, sunitas, curdos, cristãos e outras minorias étnicas. O país foi formado por poderes coloniais após a Primeira Guerra Mundial e mantido intacto por um governo totalitário.

Agora, após quase dois anos de levante violento, muitos no Iraque e além vêem esta eleição, na qual 111 partidos políticos estão buscando cadeiras na recém-criada assembléia nacional, como um momento vai ou racha para a sobrevivência do país.

O padre caldeu Zarya Benjamin, em Bagdá, está esperançoso. "Quando as pessoas finalmente provarem a liberdade, este país vai mudar", disse ele em sua igreja cavernosa e ventosa.

Mas então, entre um pensamento e a inalação do ar tomado por incenso, ele reconheceu: "Bem, a resistência não desaparecerá totalmente após 30 de janeiro. Mas será menor".

O maior obstáculo para a unidade e a paz é o voto sunita -ou a falta dele.

Por décadas, os árabes sunitas, incluindo Saddam Hussein, governaram o Iraque, apesar de corresponderem a apenas 20% da população, em comparação com os xiitas, que representam 60%. Mas desde a invasão liderada pelos americanos, muitos sunitas perderam seus empregos, status e poder. Em protesto, muitos dos partidos sunitas se retiraram da eleição. Em Adamiya, um bairro sunita de Bagdá onde os tanques americanos explodiram as barracas do mercado, é difícil encontra até mesmo um cartaz eleitoral.

"Me permita dizer algo importante", disse Walid Muhammad, o imã de uma importante mesquita sunita daqui. "Enquanto meu país estiver sob ocupação, eu sinto que meu voto não vale nada."

No dia da eleição, ele disse, ele ficará em casa.

Assim como Fatheya Jalal, uma enrugada cartomante em Adamiya. A maior preocupação dela, assim como a de muitos eleitores potenciais, é a segurança, apesar da decisão sobre se isto os impedirá de votar depende principalmente de a qual grupo pertencem.

"Eu tenho medo de sair", reconheceu Jalal. "Eu não quero me ferir. Todos sabem que eleitores serão alvos."

A situação da segurança tem se tornado particularmente precária. Às vezes é impossível dizer quem é quem. Muitos policiais vestem roupas comuns e máscaras de esqui. Muitos rebeldes vestindo uniformes semelhantes aos do governo acenam para carros e matam pessoas.

Sheiban Sabir, um engenheiro agrícola na cidade de Mossul, no Norte, foi o único sunita a expressar desejo de votar, mas com uma importante condição.

"Eu irei, mas apenas se houver segurança", disse Sabir.

Esta poderá ser uma tarefa difícil em Mossul, lar de uma crescente insurreição e que está tomada pelo crime.

Muitos eleitores sunitas disseram que não sabem o suficiente sobre os candidatos para votar. Como muitos políticos foram mortos, muitos candidatos têm evitado eventos públicos e alguns até mesmo se recusam a revelar seus nomes.

Mas isto não tem desencorajado os xiitas. Quando perguntada sobre o que sabia da mecânica desta eleição, a matriarca de uma família xiita -que disse se chamar Om Hassan e que recentemente estava comprando tomates na mercearia de Abu Allah- disse não saber nada.

"Mas eu votarei", disse ela ansiosa. "Logo após meu marido."

Abu Mallak, que dirige um escritório imobiliário em Sadr City, onde no ano passado guerrilheiros xiitas usando sandálias de tiras enfrentavam batalhões blindados americanos, disse que esta eleição é chave para a muito esperada libertação do Iraque.

"Nós não temos força para enfrentar os americanos militarmente, então devemos usar a lei", disse ele. "Eu estou cheio de ver tanques americanos com meus próprios olhos. Meu voto é uma forma de nos livrarmos deles."

Ele disse que seus dois filhos trabalham para a comissão eleitoral iraquiana, uma agência que é o principal alvo dos rebeldes. Toda manhã a mãe deles chora quando eles saem para trabalhar. "Ela sempre pede que eu os impeça", disse ele. "Eu sempre me recuso."

A maioria dos xiitas entrevistados disse que votará na Aliança Iraquiana Unida, a união dos dois principais partidos religiosos xiitas, o Conselho Supremo para a Revolução Islâmica no Iraque e o Partido Islâmico Dawa. A chapa combinada foi endossada tacitamente pelo grão-aiatolá Ali Al Sistani, o reverenciado clérigo xiita do país.

"É a chapa certa", disse Khadim Fadhil Abbas, um zelador do templo Khadimiya em Bagdá, um popular local de peregrinação xiita. "Todos os candidatos são xiitas."

O segundo partido mais popular xiita é o Acordo Nacional Iraquiano, uma chapa secular liderada pelo primeiro-ministro interino do Iraque, Ayad Allawi, que inclui alguns candidatos sunitas.

A identidade religiosa é um assunto delicado para vários eleitores.

"Por que os estrangeiros sempre perguntam xiita ou sunita?" disse Hazim, o engenheiro de computadores que virou funcionário de lavanderia, que é sunita.

Verdade seja dita, a eleição parece estar aumentando as diferenças étnicas e sectárias, porque na ausência de uma campanha substancial, muitos eleitores estão recorrendo à única coisa que sabem sobre os candidatos: sua seita e etnia.

A população curda, a maioria no Norte mais seguro e que corresponde a quase 20% dos 25 milhões de habitantes do Iraque, está empolgada com a eleição tanto quanto os xiitas, e o comparecimento dos curdos às urnas deverá ser alto.

Diferente dos xiitas, que têm muitos partidos para escolher, os dois partidos fortes curdos, a União Patriótica do Curdistão e o Partido Democrático do Curdistão, se uniram em uma chapa única, tornando mais atrativa a votação.

"Se alguém sabe o valor da democracia, a diferença entre viver com ela ou sem ela, são os curdos", disse Fadel Hayat, um pintor curdo em Bagdá.

Haval Muhammad, um trabalhador curdo em Bagdá, disse não esperar que as eleições fornecerão o milagre de um bom governo.

"Nós teremos democracia", disse Muhammad. "Mas não será perfeita."

A população cristã, cerca de 3% da população do Iraque, não é tão coesa quanto a curda. Sem dúvida, a maioria votará e muitos expressaram uma dose típica de fatalismo iraquiano.

"Assustada?" disse Vivian Lazar, que estava sentada no terraço de seu apartamento em Bagdá. "Se Deus me quiser, ele pode me levar. Mas eu vou votar."

Mas nem todos os cristãos disseram que votarão em partidos cristãos.

"Eu vou votar em Allawi", disse Mariam Soro, uma tradutora. "Ele tem as melhores relações com o Ocidente."

Allawi, disseram vários eleitores potenciais, é o xiita que tem mais apelo junto aos não-xiitas. Ele também é aquele que provoca mais ódio nos sunitas, devido ao seu apoio ao cerco de novembro a Fallujah.

Segundo uma pesquisa divulgada na semana passada em um jornal de Bagdá, dois terços dos entrevistados na capital disseram que votarão na eleição, que também inclui disputas provinciais. Metade disse que votará em partidos religiosos, metade em seculares. A pesquisa não apresentou resultados por seita ou etnia.

Mas havia uma coisa em que muitos iraquianos entrevistados para este artigo, de todos os grupos, concordavam: a novidade de eleições livres. Abdul Khadim Ali, um pintor de retratos, lembrou dos tempos das eleições de Saddam e como não havia 111 espaços na cédula, mas apenas dois: sim ou não.

"Um sujeito baathista certa vez veio até nossa casa e disse para minha família que não precisávamos nos incomodar em preencher nossas cédulas -ele o faria por nós", disse ele, se referindo ao partido de Saddam.

"Desta vez", disse Ali, "eu vou preencher minha própria cédula". Rebeldes empregam violência crescente para desestimular o voto George El Khouri Andolfato

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