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24/01/2005

"Gilmore Girls" aposta na diversidade, diz autora

The New York Times
Virginia Heffernan

Em Nova York
Desde novembro que a calorosa e inteligente série "Gilmore Girls" está sendo reprisada. Mas, na terça-feira (25/01), volta com um novo episódio --supervisionado, como sempre, por Amy Sherman-Palladino, criadora e produtora executiva do programa.

Apesar de Rory (Alexis Bledel) estar em Yale, sua mãe extremamente jovem Lerelei (Lauren Graham) continua acompanhando seus passos. E Rory é o tipo raro de menina que aprecia a atenção. Já Sherman-Palladino não é do tipo de pessoa que gosta de dar satisfações a ninguém, como contou a Virginia Heffernan, durante um almoço na Warner Brothers.

Pergunta - Os personagens centrais de "Gilmore Girls" são wasps (abreviação de anglo-saxões brancos e protestantes) de Connecticut, de uma família antiga da Revolução Americana. Mas essa não é a sua criação. A senhora é uma mulher judia de Los Angeles. Como foi parar nesse terreno?

Amy Sherman-Palladino -
Bem, meus textos vêm da minha formação, minha influência de Catskills e do cinturão do Borscht. Meu pai é comediante, hoje com mais de 70 anos. Ele é o rei dos cruzeiros, nos quais trabalha 90% do ano.

Não tinha pensado em escrever uma história sobre wasps. Ofereci à WB um programa de uma hora, sobre mãe e filha que são verdadeiras amigas. E eles adoraram a idéia. Mas eu ainda não tinha determinado onde elas moravam. Coloco-as em Nova York? Coloco-as em Chicago? Pensei que uma pequena cidade de Connecticut seria ótimo. Cresci no vale, e não conhecia nenhum de nossos vizinhos. Acho que quando você cresce num lugar assim, tem fantasias de um lugar onde todo mundo se conhece e tem aquela sensação de segurança.

Eu queria que os pais estivessem no lugar endinheirado mais próximo. Hartford parecia o lugar certo. Parecia dizer wasp. Eu também queria fazer uma estrutura social: uma filha que tem pais socialmente elevados e os desaponta --é mais doloroso. E é mais engraçado. Isso também dizia wasp.

Mas, ao longo da história, introduzimos tudo que podemos. Paris é judia. Tivemos um Ramadã outro dia. Jogamos tudo que podemos na mistura. Lane é Adventista do Sétimo Dia.

Pergunta - Na última temporada, algumas pessoas pensaram que o programa estava terminando. O que aconteceu?

Amy -
Rory tinha saído do colégio. Então não usava mais o uniforme de saia quadriculada. Não estava morando em casa. Não tínhamos nossos meninos; não tínhamos um romance. As coisas estavam diferentes. Mas defendo a última temporada. Só o que você pode fazer é se manter verdadeiro ao que está fazendo.

Pergunta - "Gilmore Girls" é um programa veloz. Por que todo mundo fala tão rápido?

Amy -
Acho que Lauren (Graham) ganharia de mim em uma disputa de quem fala mais rápido. Esses programas de televisão que têm 14 cenas das pessoas olhando umas para as outras, com o vento balançando seus cabelos, deixam-me louca. Quem tem tempo para isso? Dá para ver que a moça é bonita no momento que entra pela porta. Vamos, diga alguma coisa, vamos lá. Na vida, as pessoas reagem imediatamente quando outras pessoas falam. Elas não dizem: "Dê-me cinco segundos para pensar" antes de responderem: "Quero um café".

Pergunta - A senhora gostaria de um café? Está bebendo tanto café.

Amy -
Estou muito cansada. O 100º episódio foi extremamente trabalhoso. Tenho essa noção de que tenho que fazer tudo o que penso em fazer. Mas foi muita luta.

Pergunta - Que tipo de coisas a senhora precisa lutar para conseguir? O estúdio discute suas idéias?

Amy -
No começo, muitos falavam: "No 'Dawson's Creek' a gente fazia de outro jeito". No relacionamento entre Rory e Lorelei, recebi muitas notas, no início, sobre maternidade. "Uma mãe não faria isso". Eu disse: "Essa mãe, sim. Porque o relacionamento que estou fazendo aqui não é de mãe e filha, mas de melhores amigas." Eles estão habituados às mães dizendo: "Isso é certo e isso é errado", e Lorelei não quer fazer isso, porque ela própria ainda está tentando entender o que é certo e errado. Isso acontecia constantemente.

Não tenho mais brigas. As únicas batalhas que eu tenho são sobre dinheiro. E esse foi um programa muito mais caro. Antigamente, o estúdio saía e brigava com a rede por mais dinheiro. Agora, o estúdio e a rede são a mesma pessoa, dividindo as mesmas verbas. Houve muitas negociações e telefonemas nervosos.

Pergunta - A senhora parece gostar desse tipo de conversa.

Amy -
Não sou mole como uma violeta murcha. Ser produtora de um programa é um trabalho muito grande. Acredito ser meu papel verificar que a cada passo do caminho as coisas estejam certas. E o padrão é alto. Desde a criação da história, a redação do roteiro, as correções, o palco, o figurino, edição, música, enfim tudo tem que ser o melhor possível, dentro do prazo estabelecido.

Para ser realmente boa nesse trabalho, você tem que estar disposta a ter todo mundo te odiando. Isso é difícil, porque esta cidade é pequena, e todo mundo joga golfe com todo mundo. E se você irrita o sujeito da CBS, ele vai almoçar com a FOX, NBC e ABC. E lá vai sua fama. E essa é minha fama -eu sei.

Pergunta - Verdade?

Amy -
As pessoas dizem: "Ai, a Amy! Ela vem com muita bagagem." Mas meu trabalho não é chegar para você e dizer: "Como você quer que eu faça isso?" Não sei consertar geladeiras, não sei aplicar injeções. Só o que posso dizer é: "Bem, você está me pagando para criar este mundo, para formatar esse programa, dirigi-lo, e se isso significa que algumas vezes terei que dizer não para você para te dar um produto melhor, é para isso que você está me pagando."

Pergunta - A senhora briga muito com os atores?

Amy -
Não. Tenho grande respeito pelos meus atores. Preocupo-me com eles. Invisto muito tempo e energia em cada um desses personagens, não importa quão pequeno.

Nosso mais recente jovem de Yale foi uma dessas histórias de sorte. Estávamos tomando café no Mercer Hotel, e ele era nosso garçom. Meu marido olhou para cima e disse: "Esse cara parece ator. Ele tem aquele visual do jovem Tom Hanksy. Um cara assim seria bom em Yale." Então perguntamos: "Você é ator?" Ele disse: "Sim, sou". Então agora ele tem um papel recorrente. Uma dessas coisas de Lana Turner. É um rapaz muito doce.

Pergunta - Falando de Yale, o programa parece expressar grande admiração pela vida universitária. Por quê?

Amy -
Um dos meus maiores arrependimentos é não ter feito faculdade. Tinha muito pouca paciência para a escola e isso nunca foi estimulado na minha família. Éramos uma família do showbiz. Você não faz faculdade quando está no showbiz. Esses são seus bons anos. Você é jovem e forte e sua bunda é linda. Por que passar quatro anos se enchendo de chope em uma festa? A piada que conto sobre meus pais -que, de fato, não foi uma piada- é que, um ano depois de eu terminar o colégio, meu pai repentinamente virou-se para mim e disse: "Você queria cursar uma faculdade? Porque a gente pagaria." Sempre achei a universidade é um privilégio maravilhoso. Ter quatro anos nos quais sua única responsabilidade é aprender! Daria tudo por isso.

Pergunta - Então a senhora teve que decidir entre ser atriz ou autora?

Amy -
Eu ia ser dançarina, de acordo com minha mãe. Quando consegui meu trabalho em "Roseanne", de fato me ligaram da companhia de "Cats". Minha parceira -no meu primeiro ano de trabalho escrevendo, eu tinha uma parceira- me ligou e disse: "Conseguimos o trabalho em 'Roseanne'." Eu disse: "Mas e se eu conseguir 'Cats'?" Ela respondeu: "Bem, então você não vai". É tão estranho pensar nisso. Não conseguia pensar em ficar e ser escritora, realmente não queria ir para um escritório todos os dias. Era uma menina da noite. Foi um ajuste muito difícil.

Pergunta - "Roseanne" tinha fama de ser um programa muito influenciado por drogas. Era?

Amy -
Sou muito inocente. Meu pai trabalhou no "The Bobby Darin Show". Ele contava: "Nós chegávamos, ficávamos doidões, saíamos para almoçar, voltávamos, ficávamos doidões de novo e escrevíamos por duas horas. Depois, íamos embora". Era uma forma totalmente diferente de trabalhar. Hoje em dia, em Hollywood só se come omeletes sem gemas e ninguém come macarrão, ninguém usa drogas, apesar de tudo mundo usar. As pessoas se escondem.

Pergunta - Em "Gilmore Girls", os personagens são mais espertos que os atores? Deve ser difícil fazer as pessoas simularem mais inteligência do que têm.

Amy -
Alexis não fez faculdade. É uma pessoa de espírito mais livre do que Rory. Mas não é menos inteligente. Não é a inteligente dos livros, mas não é burra.

Pergunta - Mas não pode ser tão sagaz quanto Rory, que, como Lorelei, sempre tem uma resposta pronta.

Amy -
Não. Mas não dá para ser um idiota e fazer as pessoas acreditarem que é inteligente. Tentei colocar Christiane Amanpour no programa e ainda não desisti. Tentei colocar Ângela Davis no programa. E tentei colocar Noam Chomsky. O homem está com a agenda cheia pelos próximos dois anos, aliás. Noam Chomsky é muito ocupado. Mas colocamos Norman Mailer.

Pergunta - A senhora se surpreende com o sucesso do programa?

Amy -
Nós éramos uma daquelas séries pequenas que eles colocam no ar pensando: "Se 'Friends' acabar com ela, tudo bem." Mas, quando nos saímos bem, era tarde demais para discutir comigo. A música estava pronta, o ritmo estava certo. Não havia muito a discutir. Provavelmente muitos suspiros: "Ela é louca". Mas não sou louca. Não sou. Série é apresentada no Brasil pelo canal pago Warner às quintas Deborah Weinberg

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