UOL Notícias Internacional
 

25/01/2005

Bush se comporta como um Bob Sponja do mal

The New York Times
Maureen Dowd

Em Nova York
Fred R. Conrad/NYT

Maureen Dowd é colunista
Eu bem que devia ter percebido! Não posso acreditar que caí nessa, achando que ele era apenas uma pequena e inocente esponja vestindo um shortinho apertado.

Pelas barbas do profeta, por que uma esponja estaria de mãos dadas com uma saltitante estrela-do-mar e ainda por cima caprichando nos detalhes em rosa choque e púrpura para incrementar o visual e redecorar a lanchonete Siri Cascudo?

Claro que aquela esponja enrustida só poderia ser um invertebrado pervertido!

Antes que o texto acabe, acabaremos descobrindo que Bob Esponja é o desdobramento ilícito do polêmico apresentador de rádio Bubba, a Esponja do Amor (Bubba the Love Sponge). Quem poderia imaginar que Bob Esponja se tornaria tão controvertido quanto a capa do disco "Abbey Road"?

Precisou aparecer James Dobson, o líder conservador cristão e opositor do casamento gay, para revelar o insidioso lado oculto do popular personagem de animação, o Bob Esponja da Calça Quadrada. Dobson é o mesmo que diz que a reeleição de Bush é um mandato para consagrar suas próprias idéias, e não as de Bush. É, realmente é preciso uma esponja para consumar uma lavagem cerebral numa criança.

Pelo amor de Lincoln!

Dobson desmascarou Bob Esponja numa recepção em black-tie durante a nova posse, para congressistas e aliados políticos. Ele disse até que um "video pró-homossexualismo" --estrelado por Bob Esponja, o dinossauro Barney, Jimmy Neutron, o ursinho Winnie, o sapo Kermit e a porquinha Miss Piggy-- estava pronto para ser exibido nas escolas elementares, para promover um "apelo à tolerância", o que incluiria a tolerância em relação às diferenças de "identidade sexual".

Caranguejos nos mordam, como dizem na Fenda do Bikini, essa casa dos transtornos sexuais onde vive Bob Esponja. Afinal, nada de bom pode advir da tolerância.

Dan Martinsen, porta-voz da produtora de programas infantis Nickelodeon, de onde Bob Esponja saiu para incomodar a concorrência, ficou indignado: "Gente, de uma vez por todas, é uma esponja. Ele não tem sexualidade".

Dobson prestou um serviço à nação ao nos lembrar que devemos ficar alertas, em relação ao lado obscuro dessas adoráveis porém maleáveis esponjas. Ele até me inspirou a flutuar pelo discurso de posse do presidente com um olhar mais cético.

O apelo épico de Bush para que apoiemos movimentos e instituições democráticas em todas as nações e para que se acabe a "tirania em nosso mundo" pode ser um tanto delirante, já que o redemoinho no Iraque já sugou nossa força militar.

Embora seu discurso incendiário sobre o "indomável fogo da liberdade" tenha sido amplamente interpretado como um alerta vermelho tanto para inimigos como para os amigos, só fico imaginando se o presidente sabia que estava literalmente prometendo varrer governos não-democráticos por todo o planeta, o que incluiria alguns de nossos principais aliados.

Ele provavelmente pensou que essa seria uma forma mais aceitável de repaginar a invasão do Iraque, já não mais como uma busca fracassada pelas armas de destruição em massa, mas como um golpe pela liberdade (palavra usada 27 vezes) e pela "libertação" (15 vezes utilizada no mesmo discurso).

Só fico pensando se o sr. W. está surpreso porque as pessoas levaram isso ao pé da letra. Os Bushes nem sempre compreendem o quanto estão comprometidos por suas retóricas nos discursos principais. (Levem isso em conta nos navios de guerra.) Tendo uma visão tão bélica, o discurso do presidente até que foi, curiosamente, não-emocional.

Alguns dos mesmos assessores que abasteceram o cérebro de Bush com certezas de que o Iraque seria rápido e indolor são os que fazem questão de que esse discurso tenha o seu sentido literal realizado; eles estão preparando opções militares para todo o resto do Oriente Médio. Aqui novamente o adorável e maleável presidente parece estar absorvendo as obsessões marciais dos que lhe rodeiam, quase como... uma esponja.

Bush Esponja de Calças Quadradas!

Agora só nos resta esperar que o dr. Dobson não fique insistindo nessa semelhança. Bob Esponja, como diz sua canção, "vive num abacaxi submarino/absorvente, amarelo e poroso que só ele!" E o Bush Esponja vive numa bolha em Washington D.C./absorvente, levianinho e poroso que só ele!

Bush Esponja colocou o país numa armadilha calamitosa no Iraque, porque ingenuamente absorveu os medonhos alertas dos neoconservadores sobre a capacidade das armas de Saddam e também as róseas previsões deles sobre a capacidade de liderança de Ahmad Chalabi.

Dick Cheney parece com o mal humorado sr. Siriqueijo, dando trabalho para Bush Esponja. Mas mesmo assim Bush Esponja o adora. O sr. W. seguiu confiando tanto no vice-presidente que o pior cenário possível no Iraque se transformou nesse cenário do momento atual.

Bush pode ter imaginado que estava apenas soltando belas bolhas cheias de boas idéias sobre liberdade e libertação em seu discurso, mas Cheney e os "neocons' estão de olho mesmo no Irã e na Síria. (A propósito, o conselheiro linha-dura Richard Perle não faz lembrar o pretensioso vizinho do Bob Esponja, o ambicioso Plancton?)

O vice-presidente disse ao apresentador de radio Don Imus que o Irã estava no "topo da lista" de regiões problemáticas, e que Israel "poderia perfeitamente decidir entrar em ação primeiro", com um ataque militar.

Mesmo não sendo lá muito diligente no fundo do mar, Bob Esponja proporciona às crianças diversão boa e sadia. Já o Bush Esponja trouxe ao mundo essas lutas sombrias e intermináveis. Se o desenho tem subtexto gay, o presidente tem subtexto nefasto Marcelo Godoy

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