UOL Notícias Internacional
 

25/01/2005

Missão Cassini-Huygens supera a ficção científica

The New York Times
Lawrence M. Krauss*

Especial para o NYTimes
Nasa/The New York Times

Imagem de Titã, a maior lua do planeta Saturno, feita pela Cassini
Uma pequena sonda encalhada em um mundo muito distante e hostil opera por duas preciosas horas em uma temperatura de -180 °C.

Desesperadamente, ela transmite informações à sua nave-mãe, antes que esta desapareça abaixo do horizonte, deixando a pequena exploradora sozinha sobre o solo esponjoso do seu novo lar alienígena, perdendo vagarosamente energia e condenada a jazer eternamente em uma lua congelada a 1,2 bilhão de quilômetros da Terra.

Eu poderia ser acusado de fazer antropomorfização, mas o destino da pequena sonda Cassini-Huygens, assentada nas proximidades de uma planície coberta de metano e de hidrocarbonetos congelados na maior lua de Saturno, Titã, capturou a minha imaginação mais do que qualquer tarefa que possa estar sendo desempenhada neste momento pelos astronautas da Estação Espacial Internacional.

O que realmente me tocou foi o céu alaranjado. Ele demonstrou com impressionante clareza que as maravilhas da ficção científica com as quais sonhei quando era criança estão sendo reveladas pelas nossas sondas espaciais não-tripuladas.

E isso de uma maneira que é ao mesmo tempo mais encantadora e informativa do que qualquer novidade que possa advir do investimento de todas as verbas da Nasa na ida de mais alguns astronautas à Lua e, algum dia, a Marte.

Admito que já havia sido cativado por imagens da Internet como aquelas transmitidas pelos veículos exploradores marcianos. Imagens que lembram, de forma suspeitosa, um pôr do sol enevoado em Los Angeles. Mas, até agora, os mundos que chegaram de maneira impressionante ao meu computador estavam mais próximos daquilo que eu poderia vislumbrar ao explorar um deserto terrestre do que daqueles locais exóticos que capturaram a minha imaginação quando, na infância, lia histórias de ficção científica, ou das ilustrações de artistas que procuraram mostrar superfícies planetárias imaginárias.

Quando visitei o site da sonda Cassini-Huygens, os pedregulhos escuros compostos de gelo sujo de hidrocarbonetos na superfície de Titã surgiram em meio ao brilho alaranjado de uma atmosfera diferente de tudo o que eu já havia visto.

Lembrei-me das velhas histórias de ficção científica. Na Internet encontrei um exemplo recente daquilo que eu costumava saborear. Um conto premiado, "Slow Life" ("Vida Lenta"), de Michael Swanwick, a respeito de exploradores humanos que procuravam vida em Titã.

"As pessoas falavam muito sobre a 'atmosfera turva alaranjada' de Titã, mas os nossos olhos se ajustaram. Após aumentar o ganho do visor do capacete, as montanhas de gelo se tornaram fascinantes! As correntes de metano escavaram runas crípticas nas montanhas. Então, no solo repleto de tolina (substância marrom-avermelhada formada de compostos orgânicos complexos), o branco se transformou em uma profusão de laranjas, vermelhos e amarelos".

Na verdade, o gelo é mais sujo e a superfície mais escura. Mas a paisagem de Titã é assustadoramente similar àquela imaginada de forma tão intensa por Swanwick. Exceto pelo fato de que a verdade é ainda mais estranha e encantadora que a sua ficção.

Soube por meio de uma entrevista à imprensa concedida na última sexta-feira (21/01) pela equipe científica da sonda Cassini-Huygens que existem evidências de que há vulcões ativos na superfície de Titã, com base no argônio 40 presente na sua atmosfera. Mas esses vulcões não expelem lava derretida. Em vez disso, os vulcões titanianos soltam colunas de água e amônia, assim como aqueles que fiz com meus kits de química quando era criança.

Há de fato nuvens, metano e chuvas de hidrocarbonetos, mas a realidade de uma atmosfera turbulenta de ventos de metano me foi passada de uma maneira impossível de ser descrita por qualquer texto. Devido a uma brilhante perspicácia, a sonda Huygens é dotada de um microfone. À medida que a sonda descia através das nuvens, a partir de uma altitude de 160 quilômetros, foi possível ouvir, bem como ver, a superfície que se aproximava, conforme a nave enviava uma série de fotos. Ficar sentado em frente ao meu computador, no meio da madrugada, ouvindo rajadas de ventos alienígenas em uma lua remota de Saturno foi uma experiência ao mesmo tempo estranha e comovente.

Considero-me uma pessoa de sorte por viver em uma época na qual os seres humanos são capazes de ver tal mundo alienígena verdadeiro dotado de charcos de metano e de um céu de cores novas. Foi isso, provavelmente, o que me atraiu a princípio para a ciência. Embora a literatura tenha o poder de nos retirar do tédio da existência cotidiana, a ciência em sua melhor forma possui a capacidade de nos transportar até mundos totalmente diferentes, tanto de forma literal quanto metafórica. Ela pode nos levar até onde as nossas imaginações talvez nunca pudessem viajar.

Nasa/The New York Times

Superfície da lua de Saturno captada pela sonda européia Huygens
Em duas curtas horas, uma pequena sonda não tripulada mudou a minha experiência direta do sistema solar de uma maneira que eu jamais imaginara. Agora fico ansiando por mais episódios do gênero. Talvez eu testemunhe outras sondas que mergulhem em mares alienígenas distantes sob as superfícies de luas congeladas. Quem sabe uma delas envie para a Terra as evidências de vida alienígena existente ou extinta.

Porém, falando de forma realista, o futuro provavelmente estará repleto de retrocessos e carências, com bilhões de dólares alocados para a proteção de populações que nós colocamos em risco, ou para a construção de caros sistemas de defesas antimíssil contra ameaças inexistentes.

Só nos é possível torcer para que tenha restado alguma imaginação no governo para permitir que continuemos a financiar essas missões. Missões que fazem a ciência que realmente modifica a forma como pensamos a respeito do nosso lugar no universo.

Ir destemidamente até locais nunca dantes visitados, de uma maneira só possível às espaçonaves não tripuladas, custará comparativamente tão pouco que tal iniciativa não deverá interferir na atual prioridade de permitir que os astronautas experimentem novas aventuras na Lua.

Quanto a isso, é significativo que a sonda Huygens seja um produto da Agência Espacial Européia, trabalhando em conjunto com a Nasa e com o Laboratório de Jato-Propulsão. Isso não só demonstra que a Europa é atualmente uma liderança no campo da exploração espacial, mas revela também que, no que diz respeito aos grandes projetos humanos, como a exploração do nosso universo ou do espaço e do tempo em escalas fundamentais, nós podemos e precisamos trabalhar juntos em uma escala global.

Esse é um dos benefícios colaterais da aventura científica. No entanto, ainda mais do que isso, o universo continua a nos surpreender. Em última instância ele é bem mais interessante do que qualquer coisa que os escritores de ficção científica ou os artistas possam imaginar. A vida pode imitar a arte, mas no final das contas ela a transcende. E é por isso que algumas vezes precisamos nos voltar para o próprio universo em busca de inspiração.

*Lawrence M. Krauss é diretor do Centro de Educação e Pesquisa em Cosmologia e Astrofísica da Universidade Case Western Reserve. Seu livro mais recente foi "Atom". Gasto com a ciência deveria prevalecer sobre as despesas militares Danilo Fonseca

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