UOL Notícias Internacional
 

25/01/2005

Sunitas boicotam as eleições, mas querem poder

The New York Times
Edward Wong

Em Bagdá, Iraque
Joao Silva/The New York Times

Xeque Brahim al-Adhami, que apóia o boicote sunita à eleição no Iraque
Os líderes árabes sunitas, que têm se manifestado mais fortemente pelo boicote ou adiamento das eleições, pretendem se envolver na política após a votação, inclusive participando da Constituição permanente.

Há muito em jogo, com o prazo até agosto de 2005 para a redação da Constituição e a realização de eleições plenas no final do ano, para os grupos sunitas rejeitarem o processo político, disseram os líderes, mesmo se mantiverem sua condenação das eleições.

Esaa conversa dos sunitas é o sinal mais positivo até o momento de que ainda há uma chance de participarem do processo político, potencialmente escorando o esforço americano de plantar a democracia na região.

Aqueles que dizem que querem se envolver no processo não são os líderes da insurreição predominantemente sunita, e não há indício de que a violência diminuirá após a votação. Mas alguns destes líderes sunitas, que incluem clérigos poderosos, têm uma influência considerável junto aos guerrilheiros e poderão agir como uma ponte entre o novo governo --que deverá ser dominado pela maioria xiita-- e a insurreição.

A assembléia nacional de 275 membros que será eleita no domingo deverá nomear um presidente e um primeiro-ministro, esboçar uma Constituição permanente e preparar o país para eleições plenas em dezembro. Não há nada que proíba pessoas de fora de se envolverem na redação da Constituição, e mesmo os líderes sunitas linhas-duras dizem que esperam que a assembléia os convidará para participar do processo.

Na semana passada, os líderes sunitas ameaçaram pôr a Constituição a pique se o governo pós-eleição e as autoridades americanas não os convidarem. Um artigo na lei básica de transição, aprovada na primavera passada, permite que apenas três das 18 províncias do país anulem o projeto da Constituição caso dois terços de seus habitantes votem contra ela em um referendo. Os sunitas são maioria em pelo menos três províncias, e os líderes sunitas estão fazendo uso de tal medida como instrumento de pressão para notificar xiitas, curdos e as autoridades americanas de que a minoria sunita espera um espaço na política pós-eleitoral.

"Certamente pelo fato de termos nos retirado das eleições, isto não significa que não participaremos da elaboração da Constituição", disse o xeque Brahim Al Adhami, um alto membro da Associação dos Sábios Muçulmanos, que diz representar 3 mil mesquitas e é o mais influente grupo sunita a pedir pelo boicote da eleição. "As eleições são um assunto, a Constituição é outro."

"Todos os sunitas devem participar da elaboração da Constituição", acrescentou Al Adhami, que é o imã da Mesquita Abu Hanifa, possivelmente a mesquita mais antiamericana em Bagdá.

Os líderes sunitas têm mantido negociações com as autoridades iraquianas e americanas sobre como poderão se envolver no novo governo, mesmo se os sunitas não se saírem bem nas eleições nacionais. Há propostas para assegurar que o novo governo destinará alguns ministérios para os sunitas. Alguns políticos sunitas estão fazendo lobby para que seus partidos limitem o boicote às eleições nacionais, permitindo assim que disputem as eleições provinciais, também marcadas para 30 de janeiro.

John D. Negroponte, o embaixador americano no Iraque, disse que a embaixada estava negociando com "praticamente todo grupo sunita com o qual entramos em contato" para persuadi-los a permanecer envolvidos na política. Com sorte, aqueles que decidirem "boicotar ou combater esta rodada" se envolverão após as eleições, disse ele.

Os políticos xiitas disseram que planejam assegurar que os árabes sunitas estejam adequadamente representados no novo governo. Ali Faisal Al Lami, um assessor de Ahmad Chalabi, o ex-exilado que está concorrendo na chapa xiita mais popular, disse que os candidatos xiitas têm negociado com os líderes tribais sunitas em cidades hostis como Mossul, Ramadi e Tikrit. "Nós lhes daremos algumas posições no Gabinete e ministérios", disse ele.

Um diplomata americano disse que muitos políticos sunitas estavam "sob pressão física, e eles buscam por garantias nossas de que continuaremos trabalhando junto com a comunidade árabe sunita".

"Eu tenho gasto uma boa parte do meu tempo encorajando as pessoas", disse ele.

Mohsen Abdul-Hameed, o líder do Partido Islâmico Iraquiano, o mais proeminente partido sunita que se retirou das eleições, está tentando se equilibrar na linha estreita entre atender ao seu eleitorado antiamericano e permanecer envolvido politicamente. Ele disse que recebeu uma mensagem por escrito de uma célula rebelde para que não participe do novo governo, mas que ainda estava em "profundas negociações" com as autoridades americanas para assegurar um papel para seu partido.

"Nós não teremos cadeiras no governo, e não aceitaremos nenhuma nomeação", disse Abdul-Hameed. "Mas quanto à Constituição, nós participaremos, e estaremos envolvidos na redação do esboço dela se nos pedirem para fazê-lo."

O anúncio de retirada do Partido Islâmico Iraquiano em dezembro passado foi considerado um duro golpe às eleições porque o partido é popular entre os árabes sunitas. Mas o partido nunca removeu sua chapa de candidatos da cédula. Abdul-Hameed disse que se a chapa conquistar algumas cadeiras na assembléia nacional, ele não proibirá seus candidatos de assumirem seus postos, desde que os candidatos não sejam membros oficiais do partido.

Devido aos pedidos de boicote e devido à situação ruim da segurança nas províncias dominadas pelos sunitas, autoridades iraquianas e americanas temem que o comparecimento de árabes sunitas em 30 de janeiro será pequeno e que os sunitas conseqüentemente considerarão o novo governo ilegítimo.

Os árabes sunitas governaram o Iraque por décadas, mas foram removidos do poder com a derrubada de Saddam Hussein, um sunita de Tikrit. Muitos agora se sentem irritados sob a ocupação americana e vêem as eleições como um meio dos americanos instalarem um governo dominado pelos xiitas.

Mas a medida que exige um referendo do projeto da Constituição --como determina a lei básica de transição aprovada em março passado-- poderá na verdade dar aos árabes sunitas uma enorme influência.

A medida diz que quando os iraquianos votarem o projeto em outubro, uma decisão de dois terços contra ele em pelo menos três províncias o invalidará.

Esta medida foi proposta pela primeira vez no inverno de 2004 e foi mais fortemente defendida pelos curdos, que queriam poder invocar a ameaça de veto da Constituição para lutar por mais autonomia. Os líderes xiitas eram contra a medida, mas perderam a luta.

Agora são os políticos sunitas, diante da possibilidade real de baixa representação na assembléia nacional, que estão ameaçando convocar as populações das províncias de maioria sunita, Anbar, Salahuddin e Nineveh, a votarem contra a Constituição se os líderes sunitas não tiverem um papel na sua elaboração.

"Tal Constituição não será reconhecida, e as pessoas daquelas áreas não sentirão que esta é uma Constituição verdadeira para elas", disse Hatem Al Mukhlis, um ex-exilado que chefia o Movimento Nacional Iraquiano, um partido árabe sunita que optou por participar das eleições, apesar do profundo ceticismo de Mukhlis em relação ao processo. "Eles continuarão lutando." Grupo pretende participar da elaboração da Constituição iraquiana George El Khouri Andolfato

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