UOL Notícias Internacional
 

26/01/2005

Defesa de mulher e minorias fragiliza democratas

The New York Times
Paul Starr*

Em Princeton, Nova Jersey
Os republicanos estão celebrando a posse do presidente Bush e se preparam para seu discurso do Estado da União, no qual descreverá suas metas, no dia 2 de fevereiro. Enquanto isso, os democratas estão dispostos a pensar em tudo, menos na política do partido como razão para sua derrota em novembro. Se apenas John Kerry fosse um candidato mais forte. Se a mensagem tivesse sido transmitida de outra forma. Se os estrategistas do partido fossem tão duros quanto os sujeitos do outro lado.

As limitações dos candidatos e de seus comitês de campanha, entretanto, não explicam o declínio de longo prazo dos democratas. A decadência institucional na base do partido deve ter seu papel --com a queda dos sindicatos e de organizações partidárias étnicas-- mas as pessoas que apontam para os "valores morais" não podem estar muito enganadas.

Os democratas pagaram um preço histórico por seu papel nas grandes revoluções morais que, no último meio século, transformaram as relações entre brancos e negros, homens e mulheres, homossexuais e heterossexuais.

Os democratas liberais, especificamente, vêm convidando o esquecimento político --não por defenderem causas erradas, mas por deixarem seus instintos políticos se atrofiarem e contarem apenas com a justiça.

Evidentemente que os democratas estavam certos em desafiar a segregação e o racismo, apoiar a revolução do papel da mulher na sociedade, proteger os direitos de aborto e defender o direito civil dos gays. Mas há um limite ao número de inimigos que um partido pode ter sem perder sua capacidade de fazer qualquer coisa pelas pessoas que dependem dele.

Durante décadas, muitos liberais pensaram que poderiam ignorar a exigência elementar da política --ganhar eleições-- porque poderiam entrar na justiça para obter seus objetivos. A grande vantagem de vitórias judiciais como a do processo "Roe vs. Wade" [que determinou a legalidade do aborto nos EUA] é que você não precisa fechar um acordo com seus adversários, nem conquistar a opinião da maioria. Mas esse também é o problema. O lado perdedor não reconciliado e o público pouco convencido podem, eventualmente, mudar os juizes.

E agora chegamos a esse ponto.

Os republicanos, no controle dos dois ramos eleitos --e tentando criar maioria conservadora na Suprema Corte-- vêem uma oportunidade de derrubar políticas e precedentes constitucionais que vêm desde o New Deal [política de ação do Estado na economia, implantada pelo presidente democrata Franklin Roossevelt, que tirou os EUA da enorme crise decorrente da quebra da bolsa de valores de NY, em 1929].

Essa perspectiva deve preocupar a mente liberal. Previdência social, impostos progressivos, saúde acessível, a base constitucional para regulamentos ambientais e trabalhistas, a separação da igreja e do Estado --todas essas questões e outras estão na balança.

Sob essas circunstâncias, os democratas liberais devem se perguntar: estarão melhor como força dominante em um partido minoritário ideologicamente puro, ou como força que sofre várias influências, em um partido ideologicamente variado, que consegue vencer nas pesquisas?

Esta, é claro, parece a melhor escolha.

Reconstruir a maioria política nacional significará distinguir entre as posições que contribuem para a obtenção da maioria e as que atrapalham. A cruzada desastrosa, do ano passado, pelo casamento entre homossexuais ilustrou que os democratas não podem permitir que seus eleitores os puxem para territórios políticos que não podem ser defendidos nas eleições.

Insatisfeitos com as leis de uniões civis e benefícios para os parceiros, organizações homossexuais pensaram que poderiam tirar dos juizes, a começar com os da Suprema Corte de Massachusetts, o que o eleitorado não estava pronto a dar. Resultado: proibições do casamento de mesmo sexo aprovadas em 11 Estados e uma base eleitoral conservadora fortalecida.

O apoio público ao direito de aborto é bem maior do que ao casamento homossexual, mas encontrar o meio termo é igualmente imperativo --especialmente se a nova Suprema Corte reverter a decisão de Roe contra Wade, determinando que não há direito constitucional ao aborto e devolvendo a questão aos Estados.

Alguns democratas experientes já estão pensando nessas linhas, como mostrou Hillary Clinton, nesta semana, quando instou os liberais a encontrarem um "território comum" com os que se opõem ao aborto.

Além disso, se a nova Suprema Corte derrubar as leis de ação afirmativa, os democratas vão precisar procurar a igualdade de formas que evitem tratar brancos e negros diferentemente.

Há muito que alguns liberais procuram dar ênfase em políticas econômicas "neutras em relação à raça", para recuperar o apoio de trabalhadores e eleitores de classe média. É possível que agora a necessidade legal e política mova os democratas nessa direção.

Os republicanos estão se mantendo abertos a esse tipo de estratégia. Seu partido é muito mais ideologicamente ligado à reacionária direita cristã do que era durante a era de Ronald Reagan. Esta é a fonte da energia do partido, mas também sua vulnerabilidade. A oportunidade dos democratas está em se tornar uma coalizão mais ampla, aberta e flexível, que possa ocupar o centro.

No longo prazo, os democratas vão se beneficiar de sua força entre os jovens eleitores e da população hispânica crescente. Mas a última coisa que os democratas precisam é reativar a política de identidade ou de grupo de interesse.

Como resposta ao discurso do senador Barack Obama na convenção, os próprios membros do partido estão buscando uma descrição ampla do caráter americano e do propósito nacional.

Seguros em suas casas, os americanos podem ser uma grande força do bem no mundo. Esse é o liberalismo que este país ouviu de Woodrow Wilson, Franklin Roosevelt e John F. Kennedy [três grandes presidentes democratas]--e é a única forma de liberalismo que vai dar ao Partido Democrata sua maioria de volta.

*Paul Starr é co-editor do "American Prospect" e autor do livro "The Creation of the Media". Luta pela ação afirmativa, aborto e direitos dos gays criou inimigos Deborah Weinberg

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